Review | Fatal Frame: Maiden of Black Water

Review | Fatal Frame: Maiden of Black Water

27/10/2021 3 Por Erick Figueiredo

Desenvolvedor: Koei Tecmo
Publicadora: Koei Tecmo
Data de lançamento: 28 de outubro, 2021
Preço: R$ 234,54

Formato: Digital

Análise feita no Nintendo Switch com chave fornecida gentilmente pela Koei Tecmo America.

A série Fatal Frame surgiu no PlayStation 2 em 2001, desenvolvida pela antiga Tecmo – atual Koei Tecmo. No Japão, os games são conhecidos apenas por Zero, enquanto na Europa, são chamados de Project Zero. Diferente de Resident Evil e Sillent Hill — duas outras séries japonesas famosas pelo terror — a franquia da Koei Tecmo foca mais no paranormal e espiritual japonês, utilizando fantasmas como inimigos e mitos e rituais realizados em vilarejos, montanhas ou mansões típicos do folclore Japonês.

A série utiliza como protagonistas, personagens femininas que têm a capacidade de se comunicar com o mundo sobrenatural. Para ajudar as heroínas a enfrentar os espíritos agourentos que desejam matá-la, Fatal Frame tem como arma principal uma câmera especial conhecida como “Câmera Obscura”. A escolha de tal item para ser o único armamento disponível na série é algo bastante simbólico com o ocultismo da cultura japonesa, quando a tecnologia de câmeras foi introduzida no país, muitos japoneses, que eram fortes crentes ao espiritualismo profundo presente na história e folclore do país, acreditavam que o instrumento roubava as almas das pessoas a cada clique realizado. Com isso, os produtores decidiram que a melhor forma de “derrotar” os fantasmas seria com uma câmera.

Fatal Frame: Maiden of Black Water é o título mais atual da franquia, que chega às plataformas modernas como uma celebração do 20° aniversário de Fatal Frame — sendo também mais um dos vários relançamentos que atingiram o Nintendo Switch no ano de 2021. Neste caso, aqui trata-se de um título originário de Wii U lançado em 2014, uma produção da Koei Tecmo que até pouco tempo atrás trouxe a coletânea NINJA GAIDEN: The Master Collection [Leia nossa análise aqui]. Mas enquanto as aventuras do Super-Ninja Ryu Hayabusa chegou ao console da Nintendo com alguns problemas técnicos, Fatal Frame: Maiden of Black Water por sua chega um pouco mais “inteiro”, trazendo consigo algumas novidades que fazem valer o preço atual. No mais, venha conferir se este é o título perfeito para aproveitar neste Halloween!

Garotas fofas e terror

Fatal Frame: Maiden of Black Water continua com as tradições presentes no restante da série. Aqui temos três protagonistas que utilizam a simbólica Câmera Obscura para eliminar fantasmas de um local que está amaldiçoado. Yuri Kozukata, Ren Hojo e Miu Hanasaki. Cada um tem suas próprias razões para explorar a montanha Hikami. Yuri deseja resgatar sua chefe e amiga, Hisoka; enquanto Ren investiga o local em busca de inspiração para seu próximo livro; Miu, por sua vez, deseja encontrar sua mãe que desapareceu quando ela só tinha três anos de idade.

Apesar de no ocidente Fatal Frame: Maiden of Black Water ser conhecido como o quinto Fatal Frame mainline, não é necessário jogar os games anteriores para aproveitar o novo título. Enquanto os três primeiros títulos de PlayStation 2 formam uma trilogia, que só é revelado no terceiro título em si, Fatal Frame: Maiden of Black Water, assim como Fatal Frame: Mask of the Lunar Eclipse de Wii, não possui ligação com a trilogia original. De fato, tirando algumas poucas referências ao terceiro game, a única grande ligação entre o jogo original de Wii U e os outros é o fato de que Miu é filha da protagonista do primeiro game, Miku Hanasaki.

A história de Fatal Frame: Maiden of Black Water envolve a montanha Hikami. Antes um local sagrado onde jovens sacerdotisas realizavam rituais para impedir que a montanha ficasse amaldiçoada. Infelizmente, após uma dessas cerimônias dar errado, graças a Miko Ouse Kurosawa, o local foi dominado pela energia negativa do submundo e as águas malignas conhecidas como “Black Water”. Transformando o que uma vez era uma montanha sagrada e muito visitada, em um local que pessoas vão se suicidar.

Yuri é uma dessas pessoas que foi ao local cometer suícidio e após ser resgatada por Hisoka, ela começa a trabalhar com sua salvadora. É a partir deste ponto que a narrativa tem início, com Yuri decidindo ir resgatar outras garotas que desapareceram na montanha. A história da jovem se intercala com a dos outros protagonistas, uma vez que Ren é amigo de Hisoka e Miu acaba sendo resgatada por Yuri, mas enquanto os dois personagens têm suas próprias razões e motivos para se envolverem, o foco de Fatal Frame: Maiden of Black Water é em Yuri.

A narrativa de Maiden of Black Water envolve assuntos bem sérios como depressão, suícido e traumas. Algumas questões bem pesadas são levantadas pela história, contudo, de uma forma geral o enredo é bem estupido e contém certas partes que não fazem muito sentido. Os capítulos de Ren são a pior ofensa, com o escritor fazendo péssimas escolhas que só fazem com que ele tenha que passar por problemas extras.

Terminar a história libera um episódio extra onde jogadores podem controlar a ninja Ayane da série NINJA GAIDEN. Adicionado ao jogo como um pedido dos desenvolvedores da Team Ninja — que ajudaram no desenvolvimento do game — a aventura extra com a ninja da seita Hajinmon do clã Mugen Tenshin parece ser algo que não é canon e conta mais como um especial. Contudo, tal episódio faz parte da narrativa de Fatal Frame: Maiden of Black Water, com ele sendo “prefigurado” bem no início da jornada principal, com Yuri encontrando um arquivo sobre a garota desaparecida que Ayane é contratada para encontrar.

Apesar de ser um jogo de terror, devo confessar que Fatal Frame: Maiden of Black Water tão pouco me assustou. O jogo passa uma ótima sensação de incerteza e oferece um pouco de temor, especialmente por fazer com que você se pergunte sobre o que pode surgir na sua frente, porém, por conta de sua história e de certos elementos presentes na narrativa, que podem ser considerados extremamente bizarros e de certa forma não possuem espaço em um jogo de terror, fizeram com que eu pouco levasse a sério a situação presente.

Uma câmera em mãos e coragem no espírito

Fatal Frame: Maiden of Black Water utiliza bastante elementos similares a outros jogos de terror do gênero em sua jogabilidade, principalmente a franquia Resident Evil. O game faz uso dos famosos “tank controls”, que ficaram famosos com os jogos de Resident Evil da era PS1, para movimentar os personagens. De Resident Evil 4, temos a câmera atrás do personagem e a possibilidade de mirar e se movimentar ao mesmo tempo.

A franquia Fatal Frame sempre possuiu jogos que tinham um ritmo mais lento para ajudar na imersão do jogador. Fatal Frame: Maiden of Black Water adiciona um botão para permitir que o jogador corra, contudo, o jogo continua sendo uma experiência mais lenta. Abrir portas, pegar itens do chão e investigar certos locais ainda utilizam animações longas que funcionam como uma forma de aumentar o temor, contudo, depois de um tempo fica chato repetir essas ações complicadas repentinamente.

A movimentação do personagem é bem lenta e incomoda em muitas partes, principalmente ao tentar enfrentar fantasmas em ambientes apertados. Movimentar a câmera também passa por altos e baixos em certos momentos, especialmente ao tentar se mover ao mesmo tempo. É impossível, por exemplo, tentar fazer um giro de 180 e rotacionar a câmera sem fazê-la perder o controle, o que atrapalha bastante ao tentar escapar de inimigos ou só se guiar pelo cenário.

O combate contra inimigos é feito utilizando a Câmera Obscura, passando para uma visão em primeira pessoa enquanto tenta mirar nos inimigos. O item funciona como uma arma, com jogadores apertando um botão para tirar uma foto dos inimigos e causar danos a eles.

É possível adquirir lentes especiais que habilitam novas habilidades para a câmera, assim como filmes diferentes para servir de munição. Cada um desses causa uma certa quantidade específica de dano aos inimigos, assim como tem seu próprio tempo de recarga. Contudo, é possível causar dano extra aos inimigos de duas formas. A primeira é conseguir fotografar o maior número possível de pontos fracos ao mesmo tempo. Já o segundo, envolve o Fatal Frame, uma fotografia tirada no momento em que o inimigo ataca.

Enquanto o Fatal Frame é recomendado como a melhor forma de ataque, graças ao alto dano causado aos oponentes e por recompensar com a maior quantidade de pontos possíveis, tentar consegui-lo mostra um dos problemas do título. Muitos dos fantasmas agem de forma bastante lenta e demoram para atacar, o que pode acabar transformando os combates em embates longos. 

Outro problema envolve adversários que voam ou são muito baixos. Por utilizarem ataques que buscam mergulhar em direção ao jogador, alguns acabam ficando fora da visão da câmera, e caso o jogador tire uma foto sem que seu rosto esteja presente, ele terá desperdiçado o ataque. Assim, é comum tomar dano de inimigos ao tentar tirar um Fatal Frame.

Ao derrotar inimigos, é possível se aproximar dos mesmos e realizar um Glare, ao tocar em seus espíritos. Além de conseguir pontos extras, alguns inimigos também apresentam cutscenes mostrando suas memórias, que servem para responder alguns dos mistérios da aventura.

A cada foto tirada, inimigo derrotado e capítulo finalizado, o jogador é recompensado com pontos. Servindo como uma moeda dentro do game, é possível adquirir itens novos antes de começar os capítulos, roupas e acessórios para os personagens e upgrades para a câmera.

Por fim, os controles do game sofrem um pouco com muitos botões sendo utilizados para múltiplas funções. O gatilho direito, por exemplo, serve para pegar itens do chão, guiar e abrir portas. Cada uma dessas funções pode acabar sendo acionadas ao apertá-lo uma vez. Assim, tentar pegar um item pode acabar não acontecendo, o que irrita as vezes.

Uma apresentação bem japonesa

Fatal Frame: Maiden of Black Water possui bons visuais para um jogo de Wii U. O remaster consegue melhorar ainda mais os gráficos, principalmente no modelo dos personagens, incluindo novos detalhes em seus cabelos e roupas. Contudo, os novos gráficos mostram ainda mais o quão o estilo de arte da série é bastante japonês. As personagens, principalmente Yuri e Miu, parecem bonecas de cera e isso fica bem evidente durante as cutscenes.

Sendo direto, as protagonistas não são personagens muito bem emotivas. Yuri mais parece uma robô fazendo poucas reações ao que está acontecendo ao seu redor. A protagonista também fala muito baixo e sem mover a boca, o que é bastante estranho em algumas cenas que espera uma emoção a mais. O mesmo se aplica a Miu, sendo um pouco pior por causa de sua obsessão com sua mãe.

Efeitos sonoros e música dão um tom perfeito para o medo que o jogo quer passar ao jogador. Contudo, a dublagem do game é bem ruim, não por causa dos dubladores, mas pelo trabalho de mixagem, com vozes muito baixas. Em Fatal Frame, os personagens parecem que sussurram em vez de se comunicar. É bem ruim tentar ouvi-los no meio de outros efeitos sonoros como gritos.

Infelizmente, o maior problema do game envolve um certo elemento que está bastante presente nos jogos da Koei Tecmo: o fanservice exagerado.

Se molhando de terror

Fanservice não é algo novo presente na série Fatal Frame. Em jogos passados, era possível habilitar biquinis após completar o jogo. Contudo, Fatal Frame: Maiden of Black Water possui algumas decisões de design que obviamente foram adicionadas ao game por uma razão óbvia: abusar da sexualização das meninas.

A principal destas trata-se de um novo sistema exclusivo deste game, a água. Maiden of Black Water utiliza os mesmos efeitos visuais de molhado e suor apresentados em Dead Or Alive 5. Adicionadas pelo diretor do título, esse efeito se interliga com a mecânica principal do game, a água. Quanto mais molhado a garotas ficarem, maior será o número de embates contra fantasmas e mais dano elas tomam de ataques inimigos.

As roupas das protagonistas possuem bastante partes que ao serem molhadas ficam transparentes. Alie isso ao fato de que o jogo sempre arranja um motivo para molhar os personagens, seja chuva ou simplesmente um fantasma te jogando na água, e você já pode esperar muitos momentos que não tem espaço em um jogo de terror.

Sinceramente, o fanservice acaba atrapalhando bastante a imersão dentro do game. Enquanto a atmosfera é excelente e consegue te deixar um pouco ansioso, tudo vai por água abaixo quando a protagonista acaba ficando molhada, geralmente por um motivo bobo causado por um fantasma. Além disso, este jogo tem física nos peitos, que balançam a cada movimento, uma escolha bem bizarra para ser adicionada em um jogo de terror.

Não era o melhor para um relançamento

Fatal Frame: Maiden of Black Water é um jogo que possui bastante problemas e que certamente não foi a melhor escolha para receber um relançamento. Apesar de possuir algumas melhorias em relação ao lançamento original, o remaster ainda mantém os mesmos problemas de design da versão de Wii U, principalmente o fanservice que destrói a atmosfera, e aqueles que decidirem experimentar o game para conhecer a série poderão acabar saindo com uma impressão errada da franquia.

Com a Koei Tecmo lançando diversos de seus clássicos em coletânea, torço para que veremos os jogos clássicos da franquia de volta. Visto que apenas Resident Evil continua na ativa, seria uma boa termos outra saga de horror oriental. Ainda mais porque Fatal Frame tem bons elementos e utiliza muito bem suas inspirações para introduzir jogadores a um horror mais tradicional e regado a muito misticismo se comparado a outros games do gênero.

Prós:

  • Boa atmosfera
  • Algumas das mecânicas são bem interessante
  • Apresentação em certos pontos lembram filmes de terror japonês

Contras:

  • Controles são ruins
  • Fanservice acaba com qualquer atmosfera de terror
  • História é bem fraca apesar dos temas apresentados
  • Protagonistas não possuem presença na tela da televisão

Nota final :

7