Desenvolvedora: Dreams Uncorpored LLC
Publicadora: Modus Games
Data de lançamento: 20 de Julho, 2021
Preço: R$ 214,90
Formato: Digital
Análise feita no Nintendo Switch com chave fornecida gentilmente pela Modus Games.
Imagine ouvir a seguinte premissa: inspirado nos maiores clássicos do RPG japonês, com uma apresentação belíssima e trazendo um conceito criativo para integrar o gameplay a manipulação do tempo. É muito difícil não se sentir atraído por Cris Tales logo de cara, não é?
O jogo me chamou atenção na primeira vez que o vi, em uma das apresentações “Indie World” da Nintendo. Agora que finalmente tive a experiência de jogar, posso dizer que em muitos aspectos fui surpreendido e em outros acabei me decepcionando, de todo modo, é uma experiência que vale a pena a gente discutir a fundo.
Não é mentira, o jogo é bonito mesmo

Depois de um longo período em que os jogos tentaram se aproximar ao máximo do fotorrealismo, cada vez mais o que tem me impressionado atualmente são os visuais criativos, que conseguem surpreender com o fato de que aquele cenário tão surreal de fato é interativo. É o caso verificado aqui, Cris Tales se apresenta em um estilo que lembra um desenho animado, com personagens e cenários planificados, todos compartilhando traços orgânicos recheados de curvas e muitas cores. É sempre empolgante chegar em uma área nova e apreciar o visual de tudo, grande parte da personalidade do jogo mora na direção artística.
A narrativa acompanha a aventura da personagem Crisbell, uma maga do tempo, e os seus companheiros. O objetivo do grupo é ajudar as pessoas a alcançarem um futuro melhor, com base no poder de manipulação temporal da protagonista que a permite observar simultaneamente o antes e o depois. A grande vilã, a Imperatriz do Tempo, é o maior obstáculo, seu objetivo é destruir todo o mundo de Crystalis.
Não é difícil perceber alguns clichês na história, porém, com personagens carismáticos e as mecânicas que exploram o tempo e o espaço, o jogo consegue entregar uma narrativa que mantém o jogador interessado até o final, com diversos diálogos (quase todos dublados), muitos plot twists na reta final e belíssimas cenas animadas em momentos chaves da história.
A trilha sonora também se destaca, com alguns bons temas que entregam personalidade para os locais visitados, destaco o tema da cidade de “Cinder”, que chamou minha atenção, mas no geral todas tem um visível cuidado em se adequar para cada situação com arranjos e instrumentos diferentes.

O mundo de Crystalis
Em Cris Tales existem 3 tipos de áreas, falarei sobre cada uma delas nos parágrafos a seguir.

As cidades são as áreas mais densas, recheadas de construções e personagens, é onde o jogador pode comprar itens, receber quests, interagir com NPC’s e o mais importante: utilizar os cristais do tempo. Os cristais do tempo dividem a tela em 3: passado, presente e futuro. Ao explorar a cidade, o jogador consegue enxergar o espaço nesses três diferentes momentos.
Crisbell tem um acompanhante, o pequeno sapo Matias, ele pode “pular” para o passado ou o futuro nas cidades, o jogo se aproveita disso para a resolução de alguns puzzles, por exemplo, um item perdido no presente pode ser recuperado no passado ou uma informação importante pode se escutar em uma conversa que já aconteceu. O uso é conveniente e às vezes interessante, mas não chega a ser uma mecânica que altera o game profundamente, a sensação que fica é que a ideia poderia ter sido explorada mais a fundo, com situações mais complexas em que o jogador de fato resolvesse um enigma.

As áreas de combate são trechos em que o jogador explora um certo ambiente e deve progredir resolvendo puzzles e enfrentando os inimigos que aparecem no caminho. As batalhas surgem no clássico estilo de encontros aleatórios, comentarei mais sobre as mecânicas específicas mais a frente. Aqui os poderes temporais de Crisbell não são acessíveis, são espaços típicos de JRPG’s clássicos, os encontros aleatórios normalmente não me incomodam, porém, um grande problema da versão de Nintendo Switch são os loadings demorados, para iniciar cada batalha o jogo pode levar até 30 segundos, o que torna muito exaustivo um sistema em que o combate pode começar a qualquer momento sem aviso prévio.

Por fim, as áreas abertas são espaços meramente dedicados a conectar as cidades e as áreas de combate, o seu personagem diminui em tamanho e a escala do mundo fica mais fácil de enxergar. Me surpreendeu que diferente de outros jogos com esse mesmo estilo, não há combate aqui nas áreas abertas, o que acabou sendo alívio por conta das longas telas de carregamento que permeiam a experiência.

Combate dinâmico e divertido

O combate de Cris Tales me conquistou logo de cara. Inicialmente, é um sistema de turnos comum, com 3 personagens no seu time, enfrentando até 6 inimigos. Alguns elementos me lembraram o combate da série Paper Mario, por exemplo: em cada ataque, se você apertar o botão no timing correto, tira mais dano e quando recebe um ataque, se apertar o botão novamente consegue neutralizar parte do dano. É um sistema que na minha opinião funciona muito bem em jogos de turno, adicionando um elemento de ação que recompensa jogadores que estão sempre atentos.
O diferencial é que os poderes de manipulação do tempo de Crisbell podem ser usados durante a batalha. Se o inimigo estiver do lado direito da tela, pode ser enviado para o futuro, caso esteja do lado esquerdo da tela, é enviado para o passado. Cada inimigo sofre um efeito diferente, alguns podem ficar mais fortes no futuro e mais fracos no passado e vice-versa, além de mecânicas como por exemplo, plantar uma semente venenosa no passado e depois trazer o inimigo para o presente onde a semente já realizou o seu efeito. A mecânica é engenhosa, porém, poucas vezes é essencial, da metade para o fim do jogo usei poucas vezes, batalhando normalmente com a maioria dos inimigos.

Os diferentes personagens também são um ponto fortíssimo do combate, cada um é diferente e é sempre divertido utilizar um personagem novo, a personagem Zas por exemplo tem seus ataques baseados em roletas e sorteios, então é sempre uma incógnita como ela vai atacar, mas é possível adequar sua estratégia a isso e se beneficiar bastante nos combates.
O jogo tem um bom equilíbrio na dificuldade, tive problemas com inimigos bem específicos, porém, nunca foi por necessidade subir de nível e sim repensar a minha estratégia, mudando equipamentos, utilizando outros ataques ou até mesmo trocando os membros do time.

Qualidade do pacote

A fórmula de Cris Tales simplesmente funciona, a divisão dos espaços, o combate e a história, todos trabalham com modelos já consagrados na indústria capazes de criar uma experiência que me manteve sempre interessado. Porém, as características próprias é o que fazem tudo ser mais prazeroso, o belíssimo visual, a trama que sempre coloca personagens femininas em destaque e claro, as mecânicas de manipulação de tempo.
Cada “capítulo” (o jogo não chega a usar esse termo, mas a divisão é clara) é bem delineado, com áreas, inimigos e personagens novos. Ao chegar em uma cidade nova e ver o futuro destruído que a espera, há um incentivo para se esforçar e mudar o destino daquele local, o que nem sempre é tão simples. Em momentos chaves é exigido que o jogador faça escolhas e para poder liberar a escolha correta, é preciso ter feito todas as side-quests do capítulo, o que pode ser um incômodo para aqueles que deixarem algo passar e perderem o “melhor final”.
Um ponto que pode ser negativo para alguns na estrutura, é o excesso de “backtracking”, ou seja, retornar a áreas que você já visitou. Em vários momentos o jogo exige isso e nos trechos finais eu diria até que passa dos limites, apesar de gerar alguns bons momentos revisitando certos personagens.

É válido destacar a ambição do time de desenvolvimento, apesar de não ser um projeto de um grande estúdio, fiquei impressionado com a quantidade de conteúdo e o quão longe o jogo vai com a mecânica que permite enxergar o passado, presente e futuro ao mesmo tempo. Cada cidade precisa ter 3 versões e cada NPC precisa ter 3 versões também! E tudo é feito com muito cuidado, sempre mantendo a coerência. É um projeto ambicioso e que conseguiu alcançar muito do que pretendia.
Não é uma aventura muito longa, com pouco mais de 20 horas provavelmente você consegue um final satisfatório. Infelizmente, na versão de Switch alguns incômodos fazem a jornada parecer mais longa do que realmente é.
Problemas técnicos

Cris Tales é um deleite visual no híbrido da Nintendo, tanto na televisão quanto no portátil tudo é exibido em uma resolução satisfatória. Infelizmente, a impressão é que isso vem com um certo preço: os carregamentos demoram demais. Você vai se deparar com loadings para: começar uma batalha, terminar uma batalha, entrar ou sair de qualquer área e para abrir o jogo.

É algo que tem um grande impacto na experiência, em vários momentos é necessário que você volte a áreas já visitadas para completar side-quests e é terrível tolerar as várias telas de loading para voltar a um lugar e pegar algum item ou falar com um NPC específico. A expectativa é que em atualizações futuras isso possa ser corrigido, mas no momento o jogo se encontra nesse estado no Nintendo Switch.
Outros problemas menores, como lentidão nos menus, algumas animações menos polidas e a impossibilidade de fazer capturas de tela ou vídeos também são alguns deslizes técnicos, mas que passam longe de prejudicar a experiência de maneira incisiva e no geral não chamam atenção comparado aos pontos mais fortes do jogo.
Conclusão
Cris Tales é uma grata surpresa em muitos aspectos, o jogo surpreende pela escala, pela execução e pelo belíssimo visual. Não alcança o patamar de clássicos do gênero, mas tem inspiração e muito esforço por trás. Ao finalizar o game a sensação que fica é a de que vivenciei uma jornada diferente mas engajante, recheada de personagens e mundos coloridos que deixam uma marca positiva. Recomendo principalmente para os fãs de RPG de turno, mas peço que fiquem atentos a possíveis atualizações para a versão de Nintendo Switch, que no momento sofre com carregamentos que interrompem e prejudicam o ritmo de jogo.
Prós:
• Visual original belíssimo
• História e universo bem construídos
• Sistema de batalha engajante e interessante
Contras:
• Sistema de manipulação do tempo poderia ser melhor explorado
• Exigência de backtracking em vários momentos do jogo
• Longas telas de carregamento prejudicam a experiência
Nota final
7
- Review | Toree’s 3D Platformer Collection - 31/01/2026
- RetroBoy | Fire Emblem: The Blazing Blade - 31/12/2025
- Review | Storm Lancers – Nintendo Switch 2 Edition - 21/12/2025








