Desenvolvedora: Four Quarters
Publicadora: Devolver Digital
Data de lançamento: 9 de Dezembro, 2021
Preço: R$ 76,45
Formato: Digital
Análise feita no Nintendo Switch com chave fornecida gentilmente pelo Devolver Digital.
O espaço é composto por memória. Da estrutura decadente de um prédio antigo a uma árvore retorcida em uma esquina de um bairro de subúrbio, cada pequeno pedaço de onde brota a terra é cultivado por uma forte herança de interações humanas, criando, dentro de cada um, uma ideia muito própria de identidade territorial. Para um, jaz ali um monólito antigo, fundador de uma cidade; para outro, o local de sua primeira queda ao andar de bicicleta. O tema central de Lope Hero reside na íntima ligação entre local e memória, em uma dupla dependência, teimosamente cíclica e em processo de expansão. É um criar-se a partir do vazio, por uma série de relações comuns e repetidas, até surgir algo comum e reconhecível.
O Esquecer
O jogo começa em um cenário desolador. Não existe nada além de terras devastadas e um vazio espacial, conforme somos introduzidos ao protagonista, um herói sem memórias, sendo capaz apenas de seguir em frente, resoluto. Observamos toda sua labuta a partir de uma câmera fixa, ao alto, cientes que seu caminho uniforme apenas o levará a um lugar: de volta a sua origem, em um simples acampamento. Na estrada de destino irônico, entretanto, o herói deve passar por estranhas criaturas de onde é capaz de se equipar e — melhor — lembrar-se, a partir de imagens.

Loop Hero, em sua essência, pode ser definido como um Deck Builder, um jogo de cartas, obtidas ao se derrotar inimigos de forma aleatória, que podem tanto servir de equipamento, aprimorando os status do personagem, como também podem ser peças de cenário, como montanhas, pradarias, florestas ou até mesmo vilas. Pouco a pouco, o personagem pensa estar se lembrando de algo ao ver as formas sendo moldadas diante de seus olhos, ao mesmo tempo em que uma memória íntima é criada em quem o está controlando. O fim do caminho, ainda assim, deve ser alcançado, levando o herói a um triste refúgio de melancólicos semblantes.
Ao entender que não está só em um mundo vazio, uma missão brota no peito do protagonista. Ele precisa construir um espaço de harmonia, aventurando-se na desolação no lugar de miseráveis a fim de recolher recursos aos incapazes, construindo em cima do nada.
O ciclo, a progressão e o fazer história
A cada vez que o herói se aventura fora do acampamento, a estrada modifica-se ligeiramente, sempre mantendo seu aspecto cíclico. Não há uma fuga daquela prisão do tempo. O que há, por outro lado, é um sistema engenhoso que prende qualquer um de forma praticamente instantânea no jogo apresentado, com vários pequenos detalhes que, dependendo da mera localização de uma carta, pode criar uma série de novas situações ao jogador.

Todo o sistema de jogo é muito bem explicado ao longo da primeira hora de jogo, de forma simples e intuitiva, mas há um grande espaço para descoberta e aprendizado. As montanhas por exemplo, apresentam um efeito acumulativo ao serem aglomeradas. Com nove cartas alinhadas, uma montanha surge, com melhores efeitos, porém fazendo nascer uma valquíria, um obstáculo antes inexistente. Da mesma forma, pradarias disponibilizadas normalmente oferecem um acréscimo de cura ao herói, entretanto, ao serem colocadas ao lado de rochas, floreiam-se e aumentam seus efeitos. A progressão, nesse sentido, passa a ser feito pelas pequenas descobertas, utilizadas de forma cada vez mais eficiente com a experiência, fazendo-nos construir no vazio a partir de nossas memórias recém adquiridas.
A progressão de aprendizado do jogador desbloqueia novas oportunidades que sempre fazem o herói avançar cada vez mais, um ciclo por vez, e assim inaugurando novas etapas da narrativa, baseando-se nesta eterna relação entre lembrança e descoberta. Assim, alcançamos os responsáveis pelo vazio — agentes do caos, motivados por algo além de nossa primeira percepção — e prosseguimos ao derrotá-los, chefões de sessões que até podem ser enfrentados novamente, porém nos impulsionando em direção de algo novo.
O Construir
Em nossas jornadas, encontramos diferentes recursos, mantimentos e itens de caráter permanente, que podem tanto ser resgatados quando o herói se permite retornar ao acampamento quanto podem ser perdidos com sua derrocada. O sistema de risco presente nessa relação causa o maior desafio de Loop Hero: permanecer no ciclo, correndo o risco de perder o progresso ao ter de enfrentar criaturas cada vez mais fortes, mas abrindo a possibilidade de conseguir melhores recursos, ou recuar, organizar-se e voltar do início com certa habilidade diferente? O jogo assim desperta um sentimento de urgência misturado ao prazer do alívio de ver um esforço recompensado, instaurando vícios difíceis de serem superados. Afinal, com o sistema de construções e organizações de espaço dentro do acampamento, desejamos sempre jogar apenas “um pouquinho mais”, almejando aquele recurso específico para erguer uma construção ali, rendendo mais horas e horas de jogo.

Aliás, a particularidade de construção é tão própria e variedade que o tempo de Loop Hero pode se adequar com cada jogador. Talvez alguém jogue de forma mais rápida, sem cautela e expondo-se, alcançando um objetivo mais rápido, mas há amplo espaço para aqueles que pensam, param o tempo e se organizam, sem pressa, armando estratégias que otimizem o tempo e o espaço. É uma obra que pode atrair poucos, ao mesmo tempo em que retém ao máximo muitos.
Conclusão
Loop Hero já foi muito discutido quando lançado em outras plataformas, e despertou profundamente minha atenção ao ser indicado como melhor indie no The Game Awards 2021. No entanto, não fui capaz de me preparar para a onda avassaladora que tal jogo me apresentou, sugando-me inteiramente em seus temas e objetivos. Quanto mais se joga, mais se descobre, sejam classes diversas, magias e habilidades, ou até mesmo novos inimigos, que enriquecem o mundo bloco a bloco. Com o Switch, inclusive, o modo portátil apresenta um modo de Touch Screen, transportando-nos ao vazio com ainda mais força. Também não posso deixar de mencionar a incrível localização em português realizado aqui, o que sempre deve ser elogiado e levado em consideração.
O estilo gráfico em pixel é outro destaque, com lindas artes que não poluem a tela, deixando o tabuleiro livre para nos impormos sobre o objeto-espaço. Minha única — e minúscula — crítica, contudo, deve ser direcionada à música, que mesmo ambientando muito bem, sem ser enjoativa e com variações que surgem de formas inusitadas, parece ser ligeiramente desinteressante, apesar de funcionar com a obra geral. No fim, é um lançamento imperdível na plataforma, e deve ser valorizado por seus vários méritos.

Prós:
- Sistemas inteligentes e que valorizam a criatividade do jogador;
- Variedade em cada ciclo sempre rende mais tempo de jogo do que o esperado.
Contras:
- Músicas simples;
- Fonte padrão de letras pequeno.
Nota Final:
9
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