Desenvolvedora: Frogwares
Publicadora: Frogwares
Data de lançamento: 03 de fevereiro, 2022
Preço: R$ 139,00
Formato: Digital
Análise feita no Nintendo Switch com chave fornecida gentilmente pela Frogwares.
Pouco se discute a respeito de adaptações literárias em jogos. Claro, vemos muitas obras tiradas de filmes e franquias consagradas, desde jogos plataformas de longas da Pixar até séries tiradas do universo fantástico de George Lucas, mas a literatura acaba recebendo uma atenção reduzida no mercado. Quando descobri a respeito do port de um jogo de Sherlock Holmes que carrega, como subtítulo, o nome da maior obra literária de Dostoiévski (Crime e Castigo), dentro de mim transbordou êxtase e esperança em ver, na tela do Nintendo Switch, uma obra que carregasse um peso literário das obras na qual se inspirou. No fim, contudo, é difícil dizer se os desenvolvedores foram capazes de entregar um produto que correspondesse a tal responsabilidade.
Seis Mistérios, uma história
Sherlock Holmes: Crimes and Punishments é uma antologia composta por seis casos, que em conjunto introduzem um arco narrativo único a respeito de uma organização revolucionária que ameaça a ordem social da sociedade londrina durante a era vitoriana. Holmes e Watson — a dupla mais icônica de investigações criminais — são chamados, caso a caso, para participarem de diferentes investigações, seja pelo inspetor Lestrade, responsável pela Scotland Yard, ou por partes privadas que requisitam seus serviços. Em meio aos mistérios, entretanto, uma trama se desenrola a partir dos interesses diplomáticos de Mycroft, irmão de Holmes, em busca de terroristas de viés social.

Cada mistério se desenrola com pistas adquiridas nas cenas dos crimes, a partir do interrogatório de testemunhas e suspeitos, por investigações forenses realizadas em Baker Street e com as deduções lógicas que o jogador deve criar a partir das informações coletadas. Dessa forma, é criado um looping de jogo em todas as histórias, com o mistério sendo apresentado e pelo processo pelo qual o jogador deve passar para desvendá-lo. Para tal efeito, o jogo apresenta janelas grandes e chamativas de interação, auxiliando-nos a não nos perder nos detalhes esmiuçados dos cenários diversos.
Quanto à apresentação, não há nada muito relevante a ser destacado. Sendo um jogo de 2014, os modelos envelheceram como todos os outros jogos da época que buscavam um estilo mais realista, deixando de lado uma estética mais estilizada e atemporal. Dessa forma, certos momentos quando se deve analisar a expressão facial de personagens o jogo lembra L.A. Noire, com sua mecânica envelhecida e cômica com os parâmetros atuais. Ainda assim, nada disso fica no caminho das investigações, nunca sendo algo essencial. De forma geral, no entanto, nada se destaca aqui, inclusive quando se é analisado o design de Holmes e Watson, genéricos e sem personalidades.

As dublagens dos personagens, por outro lado, ainda se sustentam e auxiliam a construir o mundo onde as histórias se inserem. São vários pequenos detalhes que sustentam o corpo central da obra, com pequenas introduções feitas ao longo do tempo para compor um quadro maior e mais dramático, prometido a todo instante do jogo, por mais que fique esquecido em alguns momentos. Agora, porém, ao nos depararmos com a execução de tal promessa, devemos interromper nossos passos, à beira do precipício. Sem dúvidas, o sistema de jogo é competente e interessante, e mesmo em momentos maçantes existe a possibilidade de pular quebra-cabeças, sempre valorizando a história. E é nela que tudo parece ruir.
Crime e Castigo
Crime e Castigo é um romance de Fiódor Dostoiévski, publicado em 1866 e que, desde então, vem desafiando seus leitores a um angustiante exercício moral. Nele, o estudante Raskólnikov, em meio ao frio e a de São Petersburgo, questiona seu papel enquanto agente moral. Em sua percepção, extraída das ideias filosóficas vigentes, existem dois tipos de pessoa: as ordinárias, que devem seguir as leis impostas sem questionar ou sem forças de romper a tradição, e as extraordinárias, os que criam as próprias normas. Movido por sua certeza de não ser apenas mais um escravo das vontades sociais, arquiteta um assassinato, tirando a vida de uma velha pensionista, fazendo-o perder a sanidade, iniciando seu longo trajeto pelo vórtice da loucura até desejar uma punição, livrando-se de seus demônios.
No jogo aqui discutido, é este mesmo livro que abre as primeiras cenas, com Watson compenetrado em suas páginas. Da mesma forma, Holmes o lê nas demoradas telas de loading. Além disso, é possível ver o retrato do escritor russo no quarto do detetive, destacando a todos os instantes a importância da trama de Raskólnikov. Enquanto intertexto, sua presença serve para criar um sistema de consequência moral: ao término do caso, o jogador pode não apenas escolher a quem condenar, mas também de que forma, absolvendo ou condenando o sujeito. Nesse sentido, em cada caso Holmes amplia seu perfil psicológico e moral, visto que o detetive se coloca enquanto uma entidade fora das regras éticas de burocracia e sistemáticas.
Meu incômodo com o sistema reside na contradição criada com o restante da proposta da obra. Afinal, a figura de Holmes se esvaí, servindo apenas como um molde qualquer para o jogador que nele se insere. Suas deduções não chegam à metade dos exageros criados por Conan Doyle ou por outras obras inspiradas no personagem, e certas decisões criam nele uma colcha de retalhos desinteressante. Nada disso seria um problema se os casos fossem um pouco mais curiosos e criativos, porém nada é original ou espalhafatoso, servindo como uma coleção de crimes sem os absurdos característicos.
Há também o esvaziamento do peso moral carregado pelos perpetuadores dos crimes. Ora, se Crime e Castigo é uma história do peso moral de se cometer um assassinato, por que isso não se reflete em assassinos? É possível argumentar que, caso Holmes sirva de carrasco e condene-os à forca, ele está seguindo os caminhos de Raskólnikov, certo? Bem, pela possibilidade de sempre desprezar a pena de morte, Holmes pode nunca passar por tal processo, esvaziando uma vez mais a temática. E ao fim, o ápice é um anticlímax difícil de ser engolido, especialmente com um diálogo a respeito da obra russa raso e descolado de seu verdadeiro propósito, com citações sem contexto e que nada acrescenta no plano geral.

Conclusão
Enquanto um jogo de investigações fáceis e sem muitas enrolações, Sherlock Holmes Crimes and Punishments é um jogo interessante de se experimentar. Os casos são distintos o suficiente para manter o interesse do jogador e rende algumas horas de diversão. No entanto, se você procura uma obra com uma boa caracterização de Holmes, com mistérios bizarros e deduções incríveis e com uma mensagem moral que deixa uma profunda marca no espírito… recomendo que procure The Great Ace Attorney.
Prós
- Puzzles e investigações bem navegáveis e recompensadores;
- Crimes rápidos e fáceis de serem resolvidos com múltiplos finais.
Contras
- O sistema moral não funciona;
- A temática não é bem explorada;
- Fraco intertexto apesar do claro desejo de absorvê-los.
Nota:
7
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