Desenvolvedora: Deconstructeam
Publicadora: Devolver Digital
Data de lançamento: 16 de Agosto, 2023
Preço: R$ 54,99
Formato: Digital
Análise feita no Nintendo Switch com cópia fornecida gentilmente pela Devolver Digital.
A magia é percebida de formas diferentes. A princípio, pode ser vista como forma de estudo e manipulação da matéria; em narrativas fantásticas, apresenta-se com um teor etéreo, escapando a materialidade. Quando encarada de forma pessimista, torna-se recurso, movimentando grupos a lutar por sua posse. Isso porque, no fim, magia é apenas uma das múltiplas formas de se perceber a realidade e os elementos que a constituem.
Não à toa, associamos a palavra “mágico” ao praticante do ilusionismo, a uma canção que nos toca ou a uma lembrança agradável. Sentir-se suspenso da realidade, ao mesmo tempo inserido nela; sonhar antes mesmo de ter adormecido. The Cosmic Wheel Sisterhood busca flertar com a magia no sentido fantástico, literário, mas não se esquece da faceta poética ao nunca desassociá-la da forma como enfrentamos o que se põe diante de nós.
Em uma roda eterna que consome a si mesma em busca de respostas a nossas aflições, o jogo se constitui a partir de leituras de Tarot, fazendo-nos construir nosso próprio baralho a partir de nossos anseios e conflitos. Pautada em uma narrativa curta, tem como força as múltiplas possibilidades, sem se afastar da ligação com o jogador. Deixemos de lado os enigmas e passemos a desvendar a obra antes de sermos por ela devorados.
Universo em desencanto
Fortuna é uma bruxa sentenciada a um ano de exílio. Seu crime? Ler nas entrelinhas de seu baralho de Tarot o fatalismo que um dia condenará a irmandade de bruxas da qual faz parte. Isolada por 200 anos, no auge de sua solidão e desespero, ela evoca uma criatura profana a partir de um rito proibido chamado Ábramar. Sem acesso a seu antigo baralho, Fortuna via-se incapaz de contar com sua magia durante a pena; porém, ela logo é capaz de criar um novo, evocando arcanos por contratos com seu recém-criado familiar.

Aqui, a magia é composta por quatro elementos da arché de Empédocles. O ar é compreensão de si; a água, o devir, o lugar entre os seus; a terra é o ser em si; e o fogo é energia, transformação. Ao acessar a força das chamas, contudo, Fortuna deve selar o pacto com um sacrifício que virá a cobrar um alto preço.
Desde os primeiros diálogos em Cosmic Wheel Sisterhood, enquanto prisioneiros, devemos construir um perfil psicológico ao sermos entrevistados por Ábramar. A partir da força mágica extraída de Fortuna, por fim somos capazes de dar vida a cartas, trocando elementos por cenários, personagens e objetos que caracterizam nosso baralho.
O Tarot, afinal de contas, quando despido, revela sua natureza narrativa: cada carta representa um arquétipo, pura e simplesmente, e ao invés de revelar verdades duras e universais, na verdade nos dá a possibilidade de interpretar nossos anseios com o auxílio de uma nova perspectiva.
Assim, a partir de ilustrações, ao construirmos nossas cartas, acabamos por contar narrativas, inseridas no universo aqui apresentado, e formamos arcanos que nos ajudarão a observar distintas situações de formas diferentes.
Dou um exemplo prático: no Tarot, podemos encontrar a carta do Tolo. Ao representar o início de uma jornada, ela pode nos inspirar a observar uma questão a partir do ponto de vista de um ciclo que se inicia, mas também pode nos apontar a um ciclo que deve ser encerrado para começarmos uma nova jornada. De forma semelhante, podemos criar uma carta usando símbolos que nos indiquem o mesmo sentido. Assim, o intimismo da leitura de um baralho se transforma na exteriorização possível apenas quando criamos algo.

Dentro dessa perspectiva, é fácil confundir previsão com estimativa, ou fato com desejo, e até mesmo de real com ficção. Mas, como eu disse anteriormente, magia é apenas uma forma de se perceber os elementos ao nosso redor. Quando Fortuna tem em mãos um novo baralho, e pela influência de Ábramar é capaz de receber visitas de outras bruxas, suas leituras, que antes adotavam um tom de oráculo, passam a denotar vontades.
Sendo um pouco mais claro, e sintetizando o que eu disse até o momento: olhar para o futuro não é prever o que está escrito nas linhas rígidas do destino, mas sim olhar para o presente, entendendo como chegamos até aqui e quais são as nossas intenções que porventura nos levarão a um caminho que estamos a construir.
A narrativa de The Cosmic Wheel Sisterhood gira ao redor dessa dualidade a todo instante, e se consolida com sua estrutura circular. Ou seja, ao chegarmos aos créditos, percebemos que vimos apenas um futuro que construímos naquele contexto… Mas como seria o trajeto percorrido se agíssemos de forma distinta? A pergunta é tentadora, claro, mas sua execução cobra um preço ainda mais caro que um trato com o desconhecido: a prisão efetiva do tempo, e a imobilidade eterna. Uma cobra que se devora, uma Sherazade presa em mil e uma noites, um baralho que nunca elucida, mas apenas confunde-nos mais.
Um preço sem barganha
The Cosmic Wheel Sisterhood, como pode-se imaginar, funciona a partir de diversas leituras de cartas. Recebemos visitas de bruxas, ouvimos seus problemas ou falamos dos próprios, lemos cartas e, como resultado, ganhamos elementos para construir ainda mais.
O loop nunca é enfadonho, principalmente pela variedade de personagens, mas especialmente pelos cortes secos entre capítulos, que nos levam ao passado de Fortuna, antes de ascender enquanto bruxa, e nos elucidam ao descrever relacionamentos que deixamos para trás. Pelo isolamento, temos a impressão de estar construindo novos relacionamentos, e ao voltarmos, encontramos outras vidas, mas que sempre parecem retomar as escolhas que fizemos ainda alheios de nosso passado, e eis um grande mérito da escrita do jogo.

Pessoalmente, em jogos com tais propostas, prefiro diálogos mais orgânicos, que nos apresentem ao mundo sem pressa e que nos façam nos importar com os personagens. Apesar de alguns momentos mais expositivos, e alguns até exagerados nesse sentido, acredito que o texto em The Cosmic Wheel Sisterhood é cuidadosamente escrito para sempre nos mantermos engajados e termos cautela em não ferir nossas escolhas passadas.
Ele é um bom texto por ir além do texto e se conectar com a proposta da obra. O enredo em si caminha para dois últimos capítulos muito bons em nível de jogo, quando somos testados em nossa capacidade de empatia nas leituras, com uma proposta inusitada mas bem-vinda de caminhos possíveis.
É uma interessante forma de colocarmos à prova nossas convicções, inclusive se optarmos por trapacear ou não ao mexer com o destino. É um jeito elegante de encaixar as peças certas em um ato final que nos convide a repetir a jogatina. A bem da verdade, que o custo que devemos pagar frustra, mas porque deve frustrar de fato, jogando-nos de volta à ideia de uma narrativa circular.
A nível textual, devo destacar as obras interativas que podemos ler em momentos de ócio. São pequenos contos onde podemos moldar o enredo a partir de uma decisão, com textos reflexivos e que nos dão pontos de elemento, a depender de nossas escolhas. É um adicional interessante, mas que se destaca sem dúvidas pela qualidade das obras escritas.

A nível narrativo, penso em alguns destaques, mas que não revelo por temer estragar a surpresa. Por isso, cito apenas um: em determinado momento da narrativa, somos apresentados a certa personagem que devemos customizar pelas cartas. A sequência que nos leva a tal e o diálogo em si cativam de uma forma que sinceramente ainda preciso de tempo para refletir sobre, tamanha a sensibilidade captada pela arte interativa.
Por último, não posso deixar de citar a belíssima composição visual, que possibilita a criação de cartas instigantes, mas também nos convida a entrar na mente de uma bruxa isolada. Com ilustrações estonteantes em pixel art, podemos encarar personagens e de fato nos comunicar com eles, algo que não é sustentado apelas pelo texto. E a música, que sofre alterações com personagens em tela, apresenta arranjos da mais fina ordem, fazendo a solidão ser habitada por uma profusão de cores e melodia.
Conclusão
Recomendar The Cosmic Wheel Sisterhood é tão natural quanto a magia que corre em sua estrutura. Em uma narrativa que se constrói com o jogador, erguida por um texto extremamente competente e sustentado por uma estética impressionante, o título se mostra como excelente para refletirmos sobre nós mesmos. Tenho poucos pontos de crítica negativa, quase irrelevantes, mas a nível técnico devo dizer que encontrei um crash bem no início do último capítulo, obrigando-me a reiniciar o jogo. Além da inconveniência, perdi duas cartas que havia feito, mas nada desesperador.
A equipe de desenvolvedores realmente acertou em cheio ao apostar em uma obra tão íntima, que conversa de forma tão direta com a solidão que vivenciamos bem durante anos recente de pandemia, e se mostra como grande potência ao lado de Blasphemous II, que lança em poucas semanas, como uma potente dupla de jogos de origem ibérica.
Prós:
- As cartas são recheadas de personalidade;
- Personagens carismáticos;
- Estética visual em pixel art e trilha sonora belíssimas.
Contras:
- Por vezes apresenta diálogos expositivos que podem se tornar exaustivos;
- Alguns personagens secundários poderiam ser melhor desenvolvidos.
