Desenvolvedora:
Publicadora:
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Preço:
Formato:
Gênero:
Plataformas:
MAGES.
PQube
14 de agosto, 2025
R$ 228,99
Físico/Digital
Visual Novel | Suspense
Nintendo Switch, PC
Desenvolvedora: MAGES.
Publicadora: PQube
Gênero: Visual Novel | Suspense
Data de lançamento: 14 de agosto, 2025
Preço: R$ 228,99
Formato: Físico/Digital
Plataformas: Nintendo Switch, PC
Análise feita no Nintendo Switch com cópia fornecida gentilmente pela PQube.
Revisão: Lucas Barreto
Desenvolvido pela MAGES. e publicado pela PQube, Iwakura Aria chega ao Ocidente após um ano do seu lançamento original em 2024. O título promete uma história romântica com uma pitada de suspense que explora a complexidade e contradição das emoções em relações intra pessoais.
O contraste entre a luz e a sombra de Iwakura Aria
A história de Iwakura Aria se passa na era Showa do Japão imperial, período marcado pelo milagre econômico japonês quando, como o nome sugere, houve um grande crescimento econômico no pós segunda guerra mundial. O jogo acompanha a vida de Ichiko no verão de 1966, um período que iria marcar para sempre a sua vida, seja positivamente ou negativamente.
Ichiko possui um histórico de passagens por vários ambientes abusivos, tendo crescido acostumada a receber maus tratos e todo tipo de abuso físico e mental. No entanto, o seu destino há de virar a partir do seu encontro com Amane, o líder da família nobre Iwakura. Ao perceber o seu talento para pinturas, Amane não hesita em contratá-la para viver uma vida de empregada doméstica na mansão dos Iwakura enquanto é incentivada a perseguir a sua paixão pela arte no seu tempo livre.
Ichiko enxerga o convite como uma oportunidade de ouro — a garota iria finalmente escapar da série de abusos que viveu ao longo da vida para passar a viver em uma casa grande e luxuosa, servindo a um mestre rico, educado e gentil e que a respeita acima de tudo. Por mais que ainda esteja vivendo uma vida de servidão, Ichiko não deixa de nutrir grande admiração e gratidão por Amane, que a salva de uma vida miserável repleta de abusos.

Amane vive uma vida de luxo com a sua filha, Iwakura Aria (que dá nome ao jogo). Não demora muito para que Ichiko se encante pela beleza e mistério que envolve Aria — a garota chega até mesmo a compará-la com uma pintura de Renoir ao vê-la pela primeira vez. De inicio, Aria enxerga Ichiko com total indiferença, visto que a mesma não via a necessidade de contratação de mais uma empregada doméstica.
Porém, após perceber o seu talento natural para desenho e pintura, Aria se encanta por Ichiko e suas habilidades, o que abre uma pequena brecha para a aproximação das duas que vão caindo nos gracejos uma da outra cada vez mais, mesmo que quase tudo esteja entre elas. A partir deste ponto, o jogo vai desenvolvendo o relacionamento entre as duas bem aos poucos, passando por uma relação de servidão, até admiração, amizade, paixão e amor. Ao longo das 15 horas no jogo, o relacionamento de Ichiko e Aria também vai passar pelos mais diversas empecilhos e reviravoltas que envolvem o mistério que cerca Amane, Aria e a sua casa.

Uma característica admirável de Iwakura Aria é que o mesmo não tem medo de ser “tóxico”, exaltando o pior lado das duas em diversos momentos — o jogo busca, sempre que possível, explorar o aspecto irracional, carnal e podre das relações humanas. Mas o que faz com que o jogo não caia em um espiral de desgraça é o quão doce, sútil, puro e palpável o relacionamento das duas pode ser.
Pode-se dizer que a quantidade de luz e sombra que existe em Iwakura Aria é equivalente, o que faz com que o contraste entre os pontos negativos e positivos do relacionamento sejam exaltados. É quase impossível não ficar feliz e sentir aquele quentinho quando a narrativa tende a dar certo, ao mesmo que, quando a montanha-russa pende para baixo, é quase sempre de partir o coração.
Apesar de ambas serem de origens completamente opostas, é muito fácil traçar um paralelo entre a vida de Aria e a de Ichiko, o que nos leva a um dos temas principais do jogo: o que todo tipo de abuso físico e mental pode fazer com uma pessoa e como isso afeta seu relacionamento com os outros. Assim como o jogo não tem vergonha de mostrar o pior lado das personagens, ele também não se contêm muito na hora de falar sobre esse tipo de maus tratos, enquanto ainda flerta com traumas religiosos.

À primeira instância, Iwakura Aria me chamou mais atenção por parecer muito mais um jogo de suspense do que um romance em si. No entanto, essas expectativas foram (felizmente) quebradas, visto que o jogo foca muito mais em como é o dia a dia de Ichiko e na progressão do seu relacionamento com Aria. De qualquer forma, o aspecto suspense do jogo ainda é forte, apesar de só se tornar presente em momentos muito específicos da narrativa.
Iwakura Aria é dividido em 5 capítulos, cada um praticamente contido em si mesmo no que diz respeito ao estado do relacionamento das duas. Intercalando com os momentos mais slice of life, Ichiko vai ser levada pela sua curiosidade e olhar afiado, que a faz descobrir aos poucos os segredos que cercam Amane e Aria e que consequentemente implicam em uma reviravolta que muda completamente a dinâmica entre as duas. No geral, é seguro afirmar que os maiores dotes do jogo estão na sua progressão narrativa e na sua escrita. O jogo dosa bem a quantidade de cenas mais cotidianas, com o mistério e romance fazendo com que nenhuma parte da história permeie a narrativa por muito tempo.

Iwakura Aria possui uma extensa gama de finais baseado nas escolhas que o jogo oferece em determinados momentos. O jogo possui um total de 10 finais, sendo 5 desses precoces, que podem ser alcançados antes do final do jogo. É muito comum que jogos do gênero visual novel tenham vários desfechos, no entanto não são todas as obras que conseguem fazer com que essa característica funcione ao seu favor. Pode-se dizer que Iwakura Aria consegue entregar uma série de finais que são narrativamente satisfatórios (que fazem sentido) por mais que a grande maioria não seja nem um pouco feliz.
No entanto, cada rota não é muito diferente uma da outra. As escolhas que o jogador toma que o levarão a diferentes rotas, por muitas vezes, não são escolhas significativas, o que faz com que o jogo acabe falhando em dar um peso às decisões tomadas pelo jogador. Isto é, é possível entender que a forma como Aria é tratada por Ichiko, possivelmente levaria ela a realizar ações X ou Y. Até aí tudo bem, mas o jogo usa ações muito sutis e que não necessariamente tem um impacto lógico de causa e consequência para a progressão narrativa que a direcionará para um final bom ou ruim — tudo parece depender mais do acaso do que uma ação da personagem.

Isso se aplica tanto aos finais principais tanto quanto os finais precoces. No entanto, muitas das escolhas que levam a finais precoces não são muito diferentes das que levariam a história a seguir o rumo principal, o que dá aquela sensação de que parte dos finais precoces estão ali muito mais para dar algum estado de falha pro jogador do que qualquer outra coisa.
O que ainda me faz dar uma colher de chá para o jogo, nesse sentido, é que baseado na vida das garotas não é difícil entender que os eventos do jogo as levariam a maioria dos finais que o jogo oferece, o problema se dá na forma com que esses finais é atingido e a forma com que tudo isso parece meio arbitrário.
A representação de um amor não tão cotidiano
A arte conceitual por trás de Iwakura Aria é feita por Hyakunen, que tem a sua arte conhecida por pinturas surrealistas que buscam emular digitalmente uma estética mais tradicional. Em Iwakura Aria seu estilo de pintura está um pouco mais perto de algo mais sóbrio, aproximando-se de algo mais voltado para o rococó francês, mas ainda com aquela pegada bem mais voltada para arte tradicional, onde é possível sentir a textura dos pincéis nas ilustrações e, claro, com estilizações e proporções caracteristicas de anime.
É fácil esquecer que Iwakura Aria se passa no Japão, visto que passamos quase que 100% do jogo dentro da mansão que muito mais parece uma casa de luxo europeia do que uma casa típica nipônica. É nessa estética que a abordagem adotada por Hyakunen cai como uma luva e serve muito bem a toda ambiência quanto a natureza gótica da história.
Não só pela ilustrações dos personagens e CGs, mas a arquitetura e os moldes da casa em si, toda a decoração, móveis e vestimenta dos personagens remete muito a uma estética clássica ocidental. A própria Ichiko tem como uniforme de trabalho uma roupa que lembra bastante a vestimenta de empregadas francesas.

Algo notável no que permeia a arte de Iwakuria Aria é que tudo, apesar de ser extremo alto nível, o jogo ainda trabalha em cima de um escopo bem reduzido. Isto é, os retratos dos personagens, ilustrações, cenários, até interface são extremamente bonitos e bem trabalhados, mas ao mesmo tempo a quantidade em que eles aparecem é bem reduzida.
O jogo por exemplo, se passa quase que inteiramente dentro da mansão, o que por si só já limita bastante a quantidade de cenários presentes no jogo; o fato de que Iwakura Aria também só tem retratos para Ichiko, Aria, Amane e Sui (cozinheira da casa) enquanto não chegamos a ver o resto de praticamente nenhum personagem além desses. Tudo isso acaba contribuindo para essa sensação de escopo reduzido, mas que ao mesmo tempo pode ser lido como um reflexo de que o jogo apresenta uma jornada mais intimista, que não vai desviar muito do foco da história que quer contar.
De qualquer forma, o que mais me fez falta em toda jornada com o jogo foi a quantidade limitada de CGs que o jogo apresenta. Iwakura Aria é marcado por momentos tocantes no relacionamento entre Aria e Ichiko, no entanto, são poucos esses momentos que foram agraciados com uma arte grande e especial que ocupa a tela inteira e que nem de longe deixam a desejar — Iwakura Aria tem possivelmente algumas das CGs mais bonitas que já vi em um jogo do gênero. Porém, o problema se dá a partir do momento que são todas muito espaçadas entre si, e existem diversos momentos que pediam por uma CG mas acabaram não recebendo, como é o caso do primeiro beijo entre as duas, que acabou ficando só para a imaginação do jogador mesmo.

Além de Aria e Ichiko, o jogo também possui alguns personagens secundários, apesar de que a grande maioria não chega nem mesmo a ter retratos e aparecem somente em caixas de texto e nos momentos da história que são apresentados em forma de HQ. Esses momentos são marcados por uma arte mais rudimentar, onde cada quadro é pintada em um estilo de aquarela monocromática. Também é a forma que o jogo encontrou para retratar alguns dos momentos simbólicos (especialmente de suspense) para não se apoiar completamente em descrições.
Como um todo, Iwakura Aria é um daqueles jogos que é tão bonito que quando a tela do Switch apaga e você olha o seu rosto no reflexo da tela, você se sente a pessoa mais feia e asquerosa do mundo.
Pinceladas visíveis e imprecisas
Quanto à jogabilidade, Iwakura Aria não é muito diferente de outras visual novels. O jogo adota convenções mais óbvias como um botão que pula diálogos já lidos, além de opção para pular todo o texto, lidos e não lidos; um botão para avançar automaticamente além de configurar a velocidade da passagem do texto.
Algo que me fez falta foi uma opção de sinalizar texto que já foi lido. Por mais que o jogo ainda dê a opção de pular diálogos lidos, não existe nenhuma sinalização para tal, como mudar a formatação de textos já lidos, por exemplo. Isso me gerou até uma dúvida em certo momento, onde estava avançando um diálogo sem saber se havia utilizado o botão de pular todo o texto ou somente textos já lidos.
Ainda assim, existem algumas particularidades do jogo que são dignos de uma chamada de atenção, como é o caso do fato de que o jogo não possui muitas opções de acessibilidade. Um exemplo disso é o tamanho da fonte, que não é editável e por padrão é muita pequena, sendo claramente feita para telas maiores, que em uma TV é completamente legível e justificável sem problema algum. A coisa muda de figura quando o jogo é apresentado em telas portáteis como a do Nintendo Switch. Particularmente, até prefiro uma fonte menor, mas o jogo se encontra na beira para não passar a se tornar um problema para mim, então é muito fácil imaginar que muitos jogadores vão se incomodar com esse ponto em questão.

Outro pequeno detalhe que pode incomodar um nicho especifico é o fato de que Iwakura Aria não possui nenhum suporte a tela tátil do Nintendo Switch. No geral, eu sou do tipo que prefere jogar deitado de lado na cama utilizando o touch screen para avançar diálogos e selecionar opções; então quando uma visual novel não vem com essa opção isso acaba me chateando um pouco, considerando que me incomoda um pouco ter o meu dedão direito marcado por ter ficado muito tempo apertando A para avançar diálogos.
O jogo também não possui nenhum fluxograma que mostra onde a narrativa se bifurca, o que tem se tornado cada vez mais comum em obras do gênero e que seria bastante útil para identificar onde exatamente desbloquear cada final precoce e quais decisões podem levar a diferentes rotas. Por sorte, o jogo já tem vários guias online que detalham bem essas particularidades.
Fadadas pela narrativa

Com uma beleza angelical digna das pinturas impressionistas de Renoir, Iwakura Aria cria um contraste forte entre a sua luz e sombra; entre os horrores e amores de um relacionamento conturbado por traumas causado pelo abuso. Curiosamente, tudo que pode ser dito sobre Iwakuria Aria como um jogo também pode ser dito sobre a personagem Iwakura Aria. É um jogo belo, mas imperfeito, seus temas abordados são o que define, além de ser muito mais profundo do que a superfície demonstra e recheada de camadas. No fim do dia, o que sobra de Iwakuria Aria é uma experiência sólida e balanceada que tem muito a dizer.
Pros:
- Arte imersiva que conversa bem com a temática do jogo;
- Ritmo narrativamente agradável;
- Profundo e tematicamente rico.
Contras:
- Carece de algumas convenções do gênero;
- Alguns momentos muito importantes poderiam ter CGs;
- Algumas decições que levam a determinados finais parecem demasiadamente arbritárias.
Nota
9,5
