Review | Mineko’s Night Market

Desenvolvedora: Meowza Games
Publicadora: Humble Games
Data de lançamento: 26 de Setembro, 2023
Preço: R$ 117,45
Formato: Digital

Análise feita no Nintendo Switch com cópia fornecida gentilmente pela Humble Games.

Revisão: Marcos Vinícius

Cozy, hoje, é uma das expressões mais em voga. Em meio a um mundo hostil, onde não temos a certeza do amanhã, tudo o que traz uma sensação de conforto passa a ser valorizado. Não à toa vemos o crescimento de trends em redes sociais voltadas a um modo de vida que tem o mote como norte: perfis se enchem de chá, velas e música lo-fi para falar de livros, gatos e jogos tranquilos. No campo dos jogos eletrônicos, especificamente, o cozy se transformou em categoria, englobando uma estética estilizada, com traços mais suaves e palhetas de cor pastel, envolvendo especialmente jogos farm sim e narrativos.

Coloco-me na categoria de pessoas com apreciação especial a essa categoria. Apesar do potencial alienante de obras criadas com o intuito de fuga, é perceptível que artistas envolvidos na criação de tais obras buscam, no fim, apontar uma relação árcade de fugere urbanus, indicando pestilências sociais que entram em conflito com a essência humana e sua íntima ligação com a natureza, agora perdida.

Além disso, com o incessante conflito entre marcas pela atenção do público, obras que nos fazem desacelerar e refletir, no fim, colaboram na necessária quebra de rotina. Mineko’s Night Market, ao meu ver, é um jogo que apela ao cozy enquanto gênero de mercado, mirando em diversos elementos bem quistos por uma unidade de consumo, mas que apresenta pouco espaço de introspecção ou reflexão. Mergulhemos em sua estrutura.

Lazer e Trabalho

Mineko é uma criança recém-chegada em uma cidadezinha remota, simples. Ao conhecer sua nova casa, descobre também que todo o território é dominado por agentes secretos que estão em busca de uma criatura mística, a qual mitos antigos atribuem milagres de boa fortuna e colheita farta. Com o intuito de cercá-la, tais agentes passaram a capturar pequenos gatos abandonados, além de proibir o acesso a áreas da ilha pela população local. Toda a situação provocou na aldeia impactos negativos, especialmente na tradicional feira noturna dos sábados, que passa a receber cada vez mais menos visitantes.

Premissa apresentada, o jogo nos apresenta o loop. Mineko, que apresenta gosto e habilidade no artesanato, deve abrir um estande na feira que dá nome ao jogo (Night Market) e vender suas criações. Para produzir seus artigos, contudo, é necessário colher flores, madeira, papel, além de outras matérias-prima e receitas DIY. Assim, ao longo do dia fragmentado em dia, tarde e noite, Mineko deve visitar áreas específicas, livrar-se de agentes secretos, colher matéria-prima, produzir artigos, vendê-los para obter dinheiro para abastecer sua energia, que decai conforme realiza atividades, e, por fim, exibí-los ao término da semana, barganhando pelos melhores preços.

Em cima do loop, o jogo ainda garante várias missões secundárias. De longo prazo, o jogo apresenta museus de flores, minérios, peixe e comida para doarmos e atingirmos 100% da coleção. De curto prazo, cada morador apresenta inúmeros pedidos para melhorarem suas casas e, consequentemente, a vila como um todo, dentro de um sistema de relacionamento bem simples, para cumprir tabela, mas que norteia os próximos passos do jogador.

O loop é simples, prático e divertido, especialmente já que o jogo apresenta diversos minigames para otimizarmos o artesanato e a extração de matéria-prima. Dito isso, não é possível esperar do jogo nada além dele. Narrativamente, apesar de pontos de atenção, o enredo não empolga nem evolui para além do esperado, e os demais personagens, salvo raros destaques, comportam-se de forma genérica, com personalidades formulísticas.

Por isso, retomo minha introdução. Cozy, assim como qualquer categoria, gênero ou estrutura narrativa, é apenas mais uma forma de se apresentar um produto. Mirando em sucessos astronômicos de venda, como Animal Crossing e Stardew Valley, o cozy não mira em uma forma de arte, mas sim um tipo de produto. Assim, tudo o que o jogo apresenta parece ser colocado como forma de cumprir requisitos do gênero, e não porque a obra busca apresentar algo novo ou uma abordagem diferenciada. E eis um grande desafio de farm sims, porque no momento em que o lazer se torna estruturado, ele confunde-se com trabalho.

Convenhamos: qualquer jogo que tenha como objetivo o cumprimento de diversas e pequenos objetivos, alcançados pela repetição de uma tarefa de forma constante e sem variação parece se configurar da mesma forma como um trabalho convencional. O jogador assim fica sujeito a investir grande quantidade de horas ao dia para cumprir funções ao invés de jogar para apreciar um jogo, e essa obrigação é perigosa. Quando um jogo acerta na medida – tomemos Animal Crossing: New Horizons como exemplo – o ócio que provoca a sensação de gosto. Imitamos funções de trabalho, alcançamos um objetivo e, no fim, temos um tempo em que não é possível fazer nada mais naquele dia, e o ócio provoca reflexão, introspecção e nos faz olhar para a vida fora da tela.

Stardew Valley já apela mais diretamente ao trabalho e à sua otimização, mas serve como contraste do urbano por valorizar a criação de relacionamentos com habitantes e com a cidade, provocando outro tipo de reflexão. Mineko’s Night Market, contudo, por não apresentar momentos de respiro, torna-se maçante, mesmo com a gameplay se mantendo divertida, porque não oferece nada além de uma sensação de similaridade.

Uma Menção a questões técnicas

Apesar de acreditar ter esgotado o cerne do título, gostaria de destacar alguns pontos técnicos antes de encerrar a análise. Primeiro, é importante destacar o trabalho estético aqui empregado. Artistas de fato se empenharam para desenvolver um mundo lindo, com traços bem típicos e com cores vívidas, que nunca enjoam e ajudam a estender de forma significativa o tempo de vida da obra. O tema “gato” ser tão presente no design também ajuda a torná-lo memorável.

Contudo, a performance ao menos no Nintendo Switch está longe do aceitável. Apesar de patches consideráveis após o lançamento, ainda existem diversos problemas de loading, cutscenes travadas e janelas de diálogo atravessadas, além de músicas se sobrepondo. É de fato uma lástima ver um projeto ser impactado por conta de tais problemas técnicos, e os cito principalmente por terem prejudicado na experiência geral.

Conclusão

Apesar da estética bastante agradável e pela proposta interessante, Mineko’s Night Market não é capaz de destacar-se. Ainda acredito ser uma experiência agradável a quem busca farm sims com foco em DIY, mas não espere nada grandioso, principalmente a nível de customização. Os problemas técnicos afetam de forma significativa a performance no Nintendo Switch, mas em alguns meses o jogo deverá estar bem melhor do que como hoje ele se apresenta.

Prós

  • Designs interessantes;
  • Estética memorável;
  • Loop Divertido.

Contras:

  • Não acrescenta nada de novo ao gênero;
  • Problemas técnicos afetam de forma significativa a performance no Nintendo Switch.

Nota Final:

7

Lucas Barreto
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