Revisão: Marcos Vinícius (pois o revisor encarregado esqueceu)
“Fire Emblem: The Blazing Blade” ou simplesmente “Fire Emblem” é o primeiro jogo da franquia a ser lançado em outras regiões além do Japão, o que na prática significa que é o jogo que a Nintendo selecionou para ser a introdução da série para o resto do mundo.
Com isso em mente e considerando o fácil acesso a jogos de Game Boy Adavance via Nintendo Switch Online, escolhi o jogo para ser a minha introdução ao passado da série. Minha experiência com Fire Emblem se resume a jogos recentes, joguei Fire Emblem: Awakening, Fire Emblem: Three Houses e Fire Emblem Engage, todos esses bem alinhados com mecânicas mais modernas da franquia, então me bateu a curiosidade para entender melhor a evolução da série e os elementos em comum que aparecem em todos os jogos.
Nesse meu primeiro RetroBoy, quero compartilhar a minha experiência com o jogo e trazer a minha perspectiva de alguém que está experimentando a série ao contrário, indos dos jogos mais modernos para os mais antigos, e no final, responder se de fato a Nintendo acertou ao escolher este game como a introdução de Fire Emblem para o resto do mundo.
Familiar e acessível

Eu confesso que eu estava com um pouco de medo antes de começar a jogar, isso porque muitas vezes ao visitar jogos antigos, o nível de dificuldade e falta de tutoriais pode ser proibitivo, principalmente em alguns RPG japoneses mais antigos com mecânicas complexas.
O que aconteceu foi justamente o contrário, Fire Emblem: The Blazing Blade é bastante acessível e em retrospecto, faz sentido, o jogo é de 2003, nem é tão antigo assim né. De todo modo, fiquei surpreso porquê muitas das batalhas iniciais realmente pegam na mão do jogador e vão ensinando o passo a passo, o que foi um pouco redundante para mim por que eu já conhecia o funcionamento das batalhas, mas não me incomodou e faz todo sentido para um iniciante.
Essa etapa de tutorial deixou claro para mim uma coisa: Fire Emblem é Fire Emblem. O essencial da experiência está todo aqui de maneira muito semelhante aos jogos modernos, até mesmo as classes, as regras de movimentação, os itens, se você é um veterano da franquia, já vai se sentir em casa rapidamente.
Honestamente, mesmo com tantos jogos, faz sentido que esse RPG tático mantenha sua estrutura, não há muitos jogos parecidos na indústria e o loop de gameplay é simplesmente viciante e divertido. O que eu gosto muito particularmente é as muitas possibilidades de se sair vivo de uma batalha, as vezes parece que algo não tem saída, mas mexendo cada peça com muita calma, se beneficiando dos pontos fortes e fracos de cada arma, dá para achar um caminho e vencer.
Todo o padrão esta aqui. O sistema triangular de armas: machado vence lança, que vence espada, que vence machado. Arqueiros tem vantagem grande contra unidades que voam, magos conseguem perfurar armaduras mais resistentes, e dentro dos tipos de magia dos magos, há outro sistema “pedra, papel, tesoura”. Tudo isso se mistura nas batalhas para criar um sistema de muitas possibilidades em cada rodada, e é absurdamente divertido procurar o melhor caminho do seu jeito.

Assim como nos outros jogos, The Blazing Blade é estruturado em capítulos e em cada capítulo temos uma batalha e em cada batalha, novos inimigos, novo cenário e provavelmente novos personagens para o seu time. O ritmo de jogo é constante e o foco é total nas batalhas, nada de exploração pelo mapa ou ficar mexendo em menus. O único momento que o jogador realmente pode decidir coisas é imediatamente antes de começar uma batalha ou durante uma batalha.
Trocar de classes, comprar armas, ganhar níveis no coliseu, tudo isso é feito dentro de cada partida e deixa tudo ainda mais estratégico, por que muitas vezes, além de vencer o inimigo, você precisa considerar o longo prazo, será que vale a pena passar na lojinha agora antes que a arma quebre? Mas e se o personagem estiver longe, compro com outro e depois troco entre eles? É uma perspectiva coerente dentro da dinâmica do jogo que concentra todo seu foco nas batalhas.
Demorei um pouco para me acostumar com tudo isso, afinal em Fire Emblem Engage ou Three Houses sempre tinha um tempinho entre as batalhas para coordenar meu time e fazer atividades extras, mas assim que entendi o funcionamento da coisa, comecei a pensar dentro da lógica do jogo e fui fortalecendo meu time e minha estratégia, é um nível de risco e recompensa bem satisfatórios.
Retrô e charmoso

Sou suspeito para falar por que gosto bastante do visual de jogos do Game Boy Advance, mas achei Fire Emblem super charmoso, há um sprite diferente para os personagens em cada momento, durante os diálogos de história são retratados bem detalhados e expressivos, já durante o mapa da batalha são versões em miniaturas, mas bem definidas de cada boneco, e quando você ataca, ainda há outra versão de corpo todo exibindo toda a habilidade dos guerreiros. Um detalhe que tem aqui e é tradição nos jogos da série, é quando o seu personagem acerta um ataque crítico, a animação do ataque é diferente, mais enfeitada para passar todo o impacto do ataque. Tudo é bem efetivo e sendo honesto não senti falta dos visuais em 3D mais detalhados dos jogos recentes.
A trilha sonora também é na medida certa, mesmo sendo tocada repetidas vezes não irrita e se encaixa perfeitamente em cada momento, seja no campo de batalha normal, durante um ataque nos diversos momentos que a história pede uma trilha de acordo com o que está acontecendo.

Acho importantes destacar esses detalhes para expor o quão acessível o jogo pode ser mesmo para quem está acostumado com o nível de produção dos jogos mais recentes. Fora que, por ser um jogo construído para um portátil, é uma delícia de se jogar em qualquer lugar, fazendo um capítulo aqui e ali ou mesmo parando no meio de uma batalha, mas sempre conseguindo avançar um pouco quando abre o jogo.
Guerra, familia e amizade
Gosto muito de como Fire Emblem se destaca em relação a franquias da Nintendo na forma como ele é escrito e The Blazing Blade é uma ótima amostra disso. O game mistura uma perspectiva otimista de mundo ao mesmo tempo que é realista com uma série de acontecimentos trágicos durante a jornada dos personagens, trazendo um grau de maturidade e sensatez nos diálogos que torna tudo muito gostoso de se ler.

A História se divide entre 3 protagonistas: Lyn, Eliwood e Hector. Sendo que, a divisão com certeza não é igual. Eliwood é o protagonista na maior parte do jogo, Lyn é a protagonista do primeiro terço e Hector tem uma campanha que é desbloqueada depois que você zera o jogo uma vez, trocando a perspectiva de Eliwood pela de Hector. De todo modo, durante a maior parte do jogo, os 3 lordes estão juntos.
A história de Lyn no ínicio do jogo, apesar de menos épica, é um amor de acompanhar e tem uma conclusão bonita. É importante destacar que tudo aqui se passa em um contexto medieval, de reinados, vilas, cidades e regiões próximas, a retratação dos personagens e desse mundo é bastante romantizada e individualista, mostrando o ponto de vista específico dessas figuras privilegiadas e deixando de lado problemas sociais ou políticos desse tipo de governo. Tendo em mente que esse contexto é ignorado pelo jogo, é inegável que a retratação desses personagens, dos seus familiares e amigos, é muito carismática e funciona bem como uma maneira de “transportar” o jogador para aquele mundo fantástico e romântico.

Diferente da história de Lyn, quando Eliwood assume o protagonismo seguimos uma fórmula mais clássica de bem contra o mal, com a evolução do herói que é destinado a derrotar o vilão. Novamente, o elenco toma os holofotes e carregam a narrativa, as relações familiares e de amizade se destacam e trazem toda uma empatia com a situação que cada figura está passando.
Morte, traição, jogos de poder, tudo aparece aqui e não tem como não prender o jogador que está acompanhando. Cada capítulo parece um episódio de uma série, há sempre coisa nova, lugares diferentes, novos personagens, o mundo apresentado pelo jogo é rico e expansivo, nunca o jogador sente que já conhece tudo naquele mapa, dando um maior realismo para aquele universo.
É importante destacar que aqui já temos um sistema de suporte, conforme personagens ficam um do lado do outro, é possível desenvolver o nível de proximidade e liberar diálogos exclusivos entre eles. Não é um sistema que toma tanto do jogo como o supports em jogos mais recentes, mas já é uma aplicação bem divertida com bons momentos.

Preciso confessar uma coisa…
Preciso confessar que trapaceei um pouco enquanto jogava, diferente dos jogos mais recente, Fire Emblem: The Blazing Blade não tem nenhum sistema de “voltar no tempo” durante as batalhas…, mas o Nintendo Switch Online tem. Com o sistema de morte permanente, eu nunca consigo aceitar a morte de algum personagem, e aí toda vez que isso acontecia, não tem jeito, voltava algumas jogadas para ver o que podia fazer para evitar.

Sei que não é a maneira correta de se jogar o jogo, afinal de contas não é uma função que poderia ser utilizada ao jogar em um gameboy, mas para minha experiência confesso que achei melhor utilizar. Já ouvi de amigos que perder algumas unidades durante as batalhas de Fire Emblem é normal e faz parte do design do jogo, afinal de contas qual é o motivo de ativar a morte permanente se ninguém morrer? Principalmente nas últimas batalhas do jogo, as coisas começam a ficar mais complicadas e é um pouco difícil garantir que todos os personagens tenham uma boa defesa, daí tragédias podem acabar acontecendo.
Na prática, utilizo a morte permanente em Fire Emblem como um modo mais difícil, um desafio para mim mesmo em vencer todas as batalhas sem perder ninguém. Talvez um dia eu consiga jogar aceitando a morte de alguns personagens que, como em toda guerra, não conseguiram sobreviver.
Um belo exemplar

Com essa confissão feita, me sinto satisfeito para encerrar este texto. Fire Emblem: The Blazing Blade é divertido do início ao fim e uma amostra perfeita do quão efetiva a fórmula da franquia é, a história e a progressão de dificuldade mantêm a atenção do jogador a cada minuto e me deixaram ainda mais ansioso para conhecer outros jogos da série.
No final das contas, parece que a Nintendo acertou em escolher o game como introdução a franquia, afinal de contas tudo aqui é realmente explicado como se você estivesse jogando pela primeira vez. Só há um problema: enquanto joga, a história parece completamente separada de outros jogos da franquia, mas a surpresa vem logo no final: a história termina com um gancho. Fui pesquisar um pouco na internet e descobri que este game é uma prequela de Fire Emblem: The Binding Blade, jogo este que nunca lançou fora do Japão até hoje! Ora, que pegadinha de mal gosto, o jogo encerra com uma cena que indica uma continuação da qual eu nem tenho como jogar legalmente.
Eu não sei o quanto isso é um problema para os jogadores no geral, me chateou um pouco, mas não afeta tanto assim, 90% do jogo ainda funciona como uma história independente e que se sustenta sozinha sem maiores problemas. Acho que Fire Emblem: The Blazing Blade é uma recomendação perfeita independente de quais jogos da série você já jogou ou se não jogou nenhum, acessível e divertido, é um ótimo exemplar dentro da franquia.
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