Ao longo de seus 30 anos, a franquia Pokémon gerou inúmeros produtos multimídia. Quando falamos dos jogos, a primeira coisa que vem à cabeça geralmente é a mainline de títulos portáteis, mas temos também séries inteiras que buscam explorar diferentes perspectivas. A mais prolífica delas é a linha Mystery Dungeon, mas você realmente conhece ela a fundo?
As origens e o conceito de Mystery Dungeon
O conceito de Mystery Dungeon na verdade surgiu com Torneko no Daibouken, um spin-off de Dragon Quest IV desenvolvido pela Chunsoft e originalmente lançado no Super Nintendo japonês em 1993. No jogo, o comerciante Torneko precisa buscar itens em dungeons geradas proceduralmente, encarando vários perigos no processo. Com o sucesso do formato, a desenvolvedora iria explorar fazer vários outros jogos, incluindo a linha Shiren the Wanderer, que não utiliza IPs de terceiros.

A ideia de Mystery Dungeon acabou se tornando uma espécie de formato replicável, tendo como elementos comuns entre os jogos serem RPGs roguelikes em que o jogador deve explorar dungeons cujas áreas internas são geradas proceduralmente. Enquanto a quantidade de andares é fixo, cada “sala” pode ser bem diferente com um nível de aleatoridade que pode produzir situações variadas, mas, em vez de ser algo totalmente caótico, há uma série de regras que definem como essas áreas devem ser geradas, dando assim o conceito de “proceduralidade” (ser gerado a partir de procedimentos/instruções específicas).
Uma área pode conter vários inimigos e armadilhas que atrapalham o progresso do jogador, mas conter também itens como recompensas para que o jogador vasculhe mais fundo. Para avançar para os próximos andares, é necessário encontrar degraus (ou formas alternativas de descida em alguns casos), mas o jogador pode optar entre avançar e dedicar mais tempo em um andar para poder ficar mais forte, ganhando níveis com a eliminação de inimigos.
Um ponto importante também é a visibilidade. Em geral, os jogos do formato tem uma visão top-down apenas da área do entorno com um minimapa que aponta para coisas que podem ser vistas no quarto atual. Com isso, entrar em uma nova área é uma forma de ter mais noção das recompensas e inimigos visíveis em um lugar ou de poder imediatamente traçar um caminho para o próximo andar.
Os Exploradores Azul e Vermelho
Em 2005, surgiu a primeira parceria da The Pokémon Company com a equipe da Chunsoft (que viria a se tornar Spike Chunsoft no futuro) com o lançamento de Pokémon Fushigi no Dungeon: Aka no Kyuujutai para GBA e o Ao no Kyuujutai para DS no Japão. Os jogos viriam a ser lançados na América do Norte em setembro de 2006 (e na Europa em novembro) como Pokémon Mystery Dungeon: Red Rescue Team e Blue Rescue Team, respectivamente.

O conceito do jogo girava em torno da proposta de colocar o jogador no mundo dos Pokémon e mostrar uma sociedade totalmente diferente da que conhecemos. Em vez de bichos, os Pokémon são aqui mostrados como criaturas inteligentes que se organizam de uma forma bem humana, cuidando uns dos outros e interagindo através de uma linguagem compartilhada que é apresentada para o jogador como uma língua humana.
Em vez do jogador ser um Pokémon de fato, a história gira em torno de um mistério: na verdade, você é um humano, mas foi transformado em uma criatura para ajudá-los a lidar com uma catástrofe iminente. Esse aspecto viria a se tornar central para a maior parte da série, só estando ausente em um único grupo de jogos.
Para definir o personagem que o jogador assume, é feito um teste de personalidade. As opções nesse jogo incluem os iniciais das três primeiras gerações e algumas criaturas populares, incluindo Eevee, Meowth, Psyduck, Machop, Cubone e Skitty. Também cabe ao jogador definir um parceiro que ficará do seu lado na jornada entre os que são iniciais de cada geração, evitando-se também a opção de ser a mesma criatura do jogador para não causar confusão durante a história.




Juntos, o jogador e seu parceiro que se torna seu primeiro amigo nesse “novo mundo” montam uma equipe de resgate para ajudar outros Pokémon em meio a diversos desastres e situações complexas que tem acontecido. Em suas várias aventuras, os dois terão que realizar missões variadas, ganhando reputação, dinheiro, itens e novos aliados.
Um ponto importante do jogo é que além da dupla, o jogador também pode recrutar novos aliados derrotando-os em combate. Porém, não é qualquer Pokémon que é recrutável de forma imediata, sendo necessário primeiramente desbloquear Friend Areas adequadas para aquele aliado específico. Essa limitação não é parte dos outros jogos da série exceto pelo remake Pokémon Rescue Team DX lançado no Switch em 2020.
De forma geral, a linha Rescue Team estabeleceu os pilares da franquia, seja herdando elementos de Mystery Dungeon (como a “fome” como uma barra de stamina para ficar atento durante a exploração) ou tentando apresentar seus próprios mecanismos, como o sistema de recrutamento e as Gummis que afetam a inteligência e outros atributos de aliados.
Os exploradores do tempo, das trevas e dos céus
No DS, a franquia expandiu com o que se tornou um dos favoritos dos fãs, a linha Explorers composta por Pokémon Mystery Dungeon: Explorers of Time, Darkness e Sky. Enquanto os dois primeiros foram lançados em 2007 no Japão (2008 no Ocidente), o terceiro jogo foi lançado no mundo todo em 2009 com uma expansão considerável de conteúdo.

Desta vez, o jogador acorda em uma praia e se junta à guilda de exploradores do Wigglytuff para fazer uma função similar à das equipes de resgate do primeiro jogo. Com uma série de novos personagens, os jogos trazem grandes reviravoltas e momentos dramáticos, reforçando o papel da trama como um ponto atrativo da franquia.
Em termos de iniciais, o teste de personalidade agora passa a permitir que o jogador assuma a forma de um dos iniciais da quarta geração e Munchlax, mas remove Psyduck, Machop, Cubone e Eevee no processo. A versão Sky traz de volta Eevee, além de adicionar Vulpix, Phanpy, Shinx e Riolu ao pacote, tendo Meowth e Munchlax exclusivamente disponíveis como opção de parceiros.




De forma geral, os jogos trouxeram novas áreas e Pokémon e a eliminação das Friend Areas junto com várias mudanças de qualidade de vida tornaram o processo de explorar e obter mais aliados muito mais confortável do que no primeiro título.
Os aventureiros exclusivos do Japão
Embora a linha Pokémon Mystery Dungeon tenha um público cativo no Ocidente, o que poucas pessoas sabem é que existe um jogo de Wii apenas lançado no Japão. Trata-se da linha “Boukendan” (algo, como esquadrão da aventura em português), que inclui Pokemon Fushigi no Dungeon: Susume! Honoo no Boukendan (“Blazing Adventure Squad”), Ikuzo! Arashi no Boukendan (Stormy Adventure Squad) e Mezase! Hikari no Boukendan (“Light Adventure Squad”).

Lançados exclusivamente via WiiWare em 2009, os jogos foram os primeiros Mystery Dungeons a trazer os personagens com modelos 3D, utilizando como base os modelos da linha Rumble. Sua principal diferenciação em termos de mecânica foi a possibilidade de criar torres com os aliados empilhando um em cima do outro para que todos possam usar golpes consecutivos e se mover juntos.

Na história, este é o único jogo da franquia até o momento em que o protagonista não é um humano transformado em Pokémon. A escolha de personagem do jogador é feita em uma lista em vez do tradicional quiz e a lista de cada jogo é diferente baseada na temática de tipo, deixando uma tendência maior de “iniciais” de fogo no Honoo, água no Arashi e elétricos no Hikari.
Uma tentativa de evolução
Em novembro de 2012, com o 3DS já lançado, a Chunsoft (agora Spike Chunsoft após uma fusão com a Spike de Danganronpa) lançou Pokémon Mystery Dungeon: Gates to Infinity no Japão, trazendo-o para o Ocidente em 2013. Tendo como foco a quinta geração dos monstrinhos, o jogo teve uma recepção bem negativa, especialmente no Ocidente.

No jogo, acompanhamos um humano que se vê transformado em Pokémon e que forma um forte laço de amizade com um parceiro que sonha em criar um paraíso em que os Pokémon podem conviver. Essa é a área central do jogo, que evolui com o tempo, adicionando mais funcionalidades e NPCs para interagir, incluindo minigames variados.
Conforme a dupla principal e seus aliados exploram as dungeons, a história evolui para mostrar os desafios de vários outros Pokémon e uma grande calamidade. Um detalhe que diferencia significativamente o jogo de outros é a forma como ele inclui algumas dungeons com estrutura fixa e puzzles como forma de contraste com as áreas geradas proceduralmente que aqui aparecem como os portais “Magnagate”.




Apesar de um excelente trabalho na construção dos personagens que convivem na história principal, algumas escolhas de gameplay acabam deixando a experiência aquém de seus antecessores. Um dos principais problemas em comparação com os anteriores é o fato do jogador só poder fazer uma missão por vez, não podendo aceitar múltiplas de uma mesma área para resolver de uma vez. Assim, o processo de avançar acaba sendo mais cansativo, em vez de algo otimizável.
Outro ponto que pode ser um forte fator negativo para algumas pessoas é o fato de que o jogo tem menos Pokémon disponíveis do que os Explorers, sendo apenas 144 no total. O foco da experiência é nas criaturas de Unova tendo apenas alguns aliados das gerações anteriores como Pikachu, Eevee, Marill e Pelipper.
Retorno à forma
Em 2015, o 3DS recebeu um novo jogo da franquia com Pokémon Super Mystery Dungeon, cuja estrutura parece ser pelo menos em parte uma resposta às criticas do seu antecessor. O jogo inclui ao todo 720 opções de Pokémon jogáveis, que eram na prática todos os Pokémon disponíveis até o seu lançamento, deixando apenas o Volcanion da sexta geração de fora por ser revelado meses depois.

No jogo, assumimos a figura de um humano que assume a forma de uma criança Pokémon que foge de um ataque de Beheeyems e acaba indo parar na Serene Village, onde irá conhecer seu parceiro também criança. Juntos, os dois começam a estudar em uma escola enquanto sonham em se tornar aventureiros da Expedition Society. A história então acompanha o desenvolvimento deles desde esse ponto até a resolução de mais uma grande catástrofe iminente.
Em termos de gameplay, o jogo introduz sistemas de golpes combinados chamados Alliances e o uso de equipamentos chamados Looplets capazes de equipar gemas especiais obtidas como benefícios temporários dentro das dungeons. A principal novidade, porém, fica por conta do sistema de recrutamento baseado em conexões, mudando totalmente como a obtenção de aliados funciona.




Em vez de conseguir novos aliados por probabilidade após derrotar um inimigo, o jogador deve resolver missões especiais, tendo várias criaturas conectadas até automaticamente por estarem ligadas a outras recém desbloqueadas. O resultado é uma dinâmica diferente de todos os outros jogos da franquia, embora alguns jogadores possam preferir o formato mais tradicional.
Vivendo de nostalgia
Desde 2015, a franquia Pokémon Mystery Dungeon não teve mais nenhum lançamento inteiramente inédito, mas isso não significa que ela sumiu totalmente. Em 2016, os jogos Red Rescue Team, Blue Rescue Team e Explorers of Sky foram adicionados ao Virtual Console do Wii U, dando aos jogadores uma nova forma de acessá-los.

Em 2020, tivemos o lançamento mundial do primeiro e único remake da franquia: Rescue Team DX no Nintendo Switch. A edição reimaginava o clássico jogo que deu origem à franquia tendo um estilo de arte único em que as texturas e cores dos modelos remete a livros de história infantil. Além do aspecto visual, o jogo trouxe diversas funcionalidades de jogos posteriores para criar uma experiência atualizada enquanto mantinha a estrutura original com aspectos que se tornaram únicos do jogo, como as Friend Areas.

As principais novidades ficam para os Pokémon shiny, inimigos mais poderosos e o sistema de qualidades raras como bônus passivos para os aliados, mas há várias adições como o Auto Mode e um autosave por turnos. Com o lançamento dele, fãs especularam que um remake de Explorers poderia vir futuramente, mas isso infelizmente não aconteceu até o momento. Vale destacar também que o Mystery Dungeon: Red Rescue Team também está disponível no Switch como parte dos jogos de GBA do Nintendo Switch Online.
Infelizmente, desde então, a série não teve mais nenhum lançamento de nenhuma forma. Para fãs da franquia, como eu, é um tanto triste ver que ela acabou sendo deixada de lado apesar de seu enorme potencial, ainda mais em um mercado atual no qual há tantos jogadores familiares e interessados em experiências em estilo rogue, algo que na época de sua estreia era incomum. Fica a expectativa que possamos viver de mais do que nostalgia em novas aventuras pelo mundo das dungeons misteriosas de Pokémon.
