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Revisão: Manuela Feitosa
Com todo um catálogo de propriedades diversas, é inegável que a Nintendo possui um dos leques mais variados em termos de gêneros de jogos que suas múltiplas franquias abordam. E em termos de jogos de estratégia, é muito provável que duas franquias da Intelligent Systems possam passar pela sua cabeça:
- Fire Emblem
- Advance Wars
Ambas as séries acima possuem semelhanças entre si, como tendo surgido no Famicom (na época era Famicom Wars ao invés de Advance) e terem perdurado até o Nintendo Switch, com Fire Emblem inclusive quebrando um pouco da ideia de “jogo nichado” que tinha antes. No entanto, mesmo tendo sido uma propriedade que chegou primeiro no ocidente e possivelmente foi mais popular nessas bandas por um tempo, Advance Wars tem uma história complicada em seus incontáveis lançamentos.
Desde timings horríveis a falta de um lançamento no Japão, neste texto nós vamos explorar o que foi a “maldição de Advance Wars” e como ela persistiu de seu lançamento original em 2001 até o mais recente remake de 2023. E claro, caso alguém da Nintendo esteja vendo isso, aquele pedido básico para não desistirem da franquia, mesmo com o universo dando a pior carta na mão da mesma.
Vamos dar início ao texto com a simples pergunta de…
O que é a série “Nintendo Wars”?

Originando-se inicialmente no Famicom em 1988, Famicom Wars foi um dos primeiros títulos de estratégia desenvolvidos pela Intelligent Systems, antecedendo Fire Emblem por dois anos! O jogo foi o pioneiro para a base que teriam os jogos posteriores, incluindo Advance Wars, onde temos controle de um exército e de uma determinada quantia de fundos a cada turno, e usando estes turnos precisamos conquistar mais território inimigo ou destruir bases.
O lançamento original de Famicom Wars foi seguido pela série Game Boy Wars (uma franquia que seria desenvolvida pela falecida Hudson Soft, de todas as empresas) e até por um remake no Super Famicom, com o criativo nome de: Super Famicom Wars. Estes jogos foram revolucionários na ideia de RPGs táticos com uma movimentação por grid e mecânicas únicas como o polêmico “Fog of War”, que vemos em jogos mais recentes como Fire Emblem: Engage.

— No entanto, uma curiosidade um tanto irônica dado o destino de muitos dos jogos que falarei depois é de que nenhum deles saiu do Japão.
Durante a virada do milênio, a Nintendo pretendia apostar pesado em suas franquias no ocidente, e isso acabou incluindo a série Wars; mas aí veio uma dúvida cruel: como fazer um marketing de um jogo de estratégia em um mercado onde esse nicho é minúsculo? A resposta veio em trazer um estilo mais brilhante e “fofo” para a série, com um tom de comédia que entrava em justaposição com a temática de guerra da série – muito disso pode ser creditado ao icônico artista da série Ryo Hirata.


Foi aí que tivemos o nascimento de “Advance Wars”, a subsérie que seria a de fato mais famosa dentro da série Wars e que eventualmente ia tomar o espaço dos outros títulos. Mas como que isso viria a causar uma maldição que dura até o seu lançamento mais recente? Para responder essa pergunta, primeiro precisamos analisar a história dos jogos originalmente lançados para um dos mais icônicos portáteis da Nintendo.
A história em Advance Wars
Se passando no fictício mundo de Wars World, onde a guerra é vista como um esporte e a conquista de territórios é algo natural, o jogador controla os oficiais comandantes (ou COs) da pequena nação de Orange Star enquanto a mesma é atacada por uma nação maior, a Blue Moon – guardem essa informação, ela será importante. Mais tarde no jogo, é revelado que essa guerra foi na verdade uma manipulação da Black Hole, a nação antagonista principal da série e que viria a ser a antagonista central da sequência.

Tendo um foco central nos personagens carismáticos e na forma que os mesmos agem como COs durante a pressão de um combate, a história de Advance Wars não é levada a sério em nenhum momento em ambos os jogos do GBA, no entanto, isso não impediu alguns péssimos timings de ocorrer em lançamentos da franquia.
O que começou como uma ideia simples de transformar o gênero de jogos de estratégia em algo mais acessível e “marketável” para o ocidente acabou dando um enorme tiro pela culatra na primeira coincidência amaldiçoada do primeiro jogo: a data de lançamento.
Muita coisa aconteceu em 2001…
Anunciado junto com o próprio Game Boy Advance na Nintendo Space World 2000 – a mesma apresentação icônica que nos deu a tech demo do Link enfrentando o Ganondorf com os gráficos do Gamecube – Advance Wars ou Game Boy Wars Advance foi anunciado para sair no ano seguinte, pouco após o lançamento formal do novo portátil.
Porém, quando chegou a hora de definir um lançamento para Advance Wars, a Nintendo decidiu lançar primeiro para as Américas, já que o público alvo inicial era de lá. Logo, uma data final foi dada assim que o jogo estava com o desenvolvimento completo, e o jogo oficialmente lançou nas regiões ocidentais no dia 10 de setembro de 2001…
— Eu realmente preciso dizer o quão desastroso foi o timing deste lançamento?
Dado os ataques terroristas do dia seguinte e as tensões crescentes em conflitos do Oriente Médio, o primeiro jogo da série ficou preso por um tempo no ocidente (e por um milagre não ter sido supostamente proibido, considerando o tipo de arte que o governo estadunidense estava barrando naquele período). Embora um lançamento nos territórios europeus e da Austrália tenha sido possível, um lançamento no Japão não veio tão cedo.
Black Hole Rising, o segundo Advance Wars, não teve um azar tão grande em seu lançamento, mas também lançou em uma época controversa, já que 2003 foi o período que a Guerra do Iraque começou de fato. Mais uma vez, o Japão não veria o lançamento de um jogo da série Wars tão cedo, a Nintendo parecia firme na ideia de manter esse jogo para os públicos americano e europeu.

Um lançamento japonês tanto de Advance Wars quanto de sua sequência acabou ocorrendo em 2004 com Game Boy Wars Advance 1+2, um compilado de ambos os jogos que permitiu ao público japonês os jogarem pela primeira vez.
Uma repetição do drama
Embora a série tenha conseguido ficar fora de um drama relacionado a guerras nos dois lançamentos mainline posteriores: Dual Strike e Days of Ruin, a série não iria mais ter nenhum problema em geral porque entraria em um hiato de mais de 10 anos! No entanto, este hiato foi quebrado em junho de 2021, durante a Nintendo Direct da falecida E3, a última que a Nintendo faria, inclusive.
— Seria a morte da E3 uma outra consequência da maldição de Advance Wars?
Na Nintendo Direct em questão tivemos um anúncio deveras interessante, não só de que Advance Wars iria voltar com um remake que engloba os dois jogos de GBA, como seria um jogo feito pela equipe da WayForward, famosos devs por trás de Shantae e por desenvolver jogos menores como Contra 4 e a série River City Girls. Este remake deles tomou a forma de “Advance Wars 1+2: Re-Boot Camp”. O jogo estava com um lançamento original marcado para dezembro de 2021, mas precisou ser adiado para o ano seguinte; não seria exagero falar que este adiamento, por si só, matou o jogo.

Agora com uma data “final” para março de 2022, o jogo encontrou um timing horrível e não premeditado: a Rússia começou uma guerra para invadir a Ucrânia, resultando em uma conflito que persiste até hoje. Dada a bizarra semelhança entre os eventos atuais e à história do primeiro jogo presente no remake (especialmente considerando que a Blue Moon é inspirada na Rússia/União Soviética), a Nintendo tomou a decisão difícil, porém compreensível de adiar o jogo.

O jogo chegou a lançar eventualmente em 2023, embora com um marketing praticamente não existente, mas, repetindo o que aconteceu com os primeiros jogos: até hoje o Japão está sem esse remake, por bem ou por mal. Com mais uma infeliz coincidência amaldiçoando o destino da franquia, muitos começaram a apontar a cruel ironia do destino e por isso a “maldição de Advance Wars” virou um termo real.
O que temos no futuro?
Com a Nintendo investindo em propriedades menores de tempos em tempos, como podemos ver este ano com o retorno de Tomodachi Life e Rhythm Heaven, eu particularmente acredito que um novo Advance Wars é possível, já que assim como Fire Emblem, é uma das melhores representações que o nicho de estratégia tem no ecossistema Nintendista. Dito isso, não serei cego a ponto de não apontar que as chances estão todas contra Advance Wars neste quesito.
Tendo dito isso, o que nos resta fazer é torcer para que a série tenha um pouco do amor que merece, e quem sabe a Nintendo até deixe a WayForward cuidar de novo da IP (dessa vez com um jogo novo em pixelart, por favor). A guerra é infelizmente um dos pontos inevitáveis da humanidade, e até o dia que chegarmos numa sociedade onde a simulação da mesma é apenas um esporte amigável como no mundo de Wars World, ironias cruéis assim continuarão acontecendo.
Finalizando o texto, só queria lembrar a todos que Advance Wars pode ser uma franquia dormente, mas seu legado é ativo até hoje! Diversos indies se inspiram nesses jogos para moldar o seu estilo de gameplay, e caso queiram testar alguns deles, seguem abaixo as minhas recomendações:
- Tiny Metal
- Wargroove

Espero que vocês continuem gostando desses jogos de estratégia, pois é assim que podemos mostrar que essa dita “maldição” não passa nada mais do que um timing ruim do destino. Até termos um Advance Wars novo, espero que vocês continuem guerreando, soldados da Orange Star!
