- Review | Clive Barker’s Hellraiser: Revival - 17/10/2026
- Review | DYNASTY WARRIORS 3: Complete Edition Remastered - 13/10/2026
- Review | Resident Evil Village Gold Edition - 11/10/2026
Desenvolvedora: Saber Interactive
Publicadora: Saber Interactive
Gênero: Survival Horror | Ação
Data de lançamento: 8 de outubro de 2026
Preço: R$ 203,95
Formato: Digital
Plataformas: Nintendo Switch 2, PlayStation 5, Xbox Series X|S, PC
Análise feita no Nintendo Switch 2 com chave fornecida gentilmente pela Saber Interactive.
Revisão: Juliana Paiva Zapparoli
Se há uma semana alguém me dissesse que o lançamento de um jogo desencadearia em mim um anseio profundo de mergulhar de cabeça em uma franquia de terror dos anos 1980, estaria cético. Afinal, sempre carreguei um medo genuíno em relação à franquia Hellraiser e era tão distante dela, que sequer soube de uma adaptação na mídia de jogos digitais até ser convidado a realizar a presente review.
O resultado não foi apenas mergulhar de cabeça no título em questão, mas também na série como um todo: dos filmes originais ao reboot de 2022 — e se ainda não li os livros de Clive Barker, é apenas porque não fui capaz de achar uma boa oferta nas publicações brasileiras. Portanto, fui conhecendo o universo fantástico ao redor de Hellraiser em paralelo à minha experiência com o jogo. Primeiro, encontrei estranheza; depois, passei a reconhecer familiaridade, recontextualização e, por fim, ampla capacidade de transportar tamanha excentricidade para uma nova mídia.
De antemão, alerto: Hellraiser não é uma franquia qualquer e a nova obra entende bem essa questão. Há representação de violência gráfica intensa e cenas de sexo explícitas a cada momento; por mais que tenha selecionado imagens mais “tradicionais” para o modelo do portal, algumas passagens e descrições podem ser verdadeiramente pertubadoras.
Um Paraíso de dor, um Inferno de prazer
Apesar de Hellriser ser uma franquia reconhecida pela associação entre prazer e dor, Revival é o título que mais tira proveito de tal associação, ao menos comparando com os filmes. Afinal, nas primeiras cenas já vemos a intimidade de um casal que busca apimentar as relações na cama com uma pitada de dor.
As ações vão escalando até Sunny, a parceira romântica de nosso protagonista, apresentar uma esfera com inscrições estranhas. Apesar de aparentar um cubo com propriedades mágicas, fãs já saberão que se trata de uma configuração gênesis, aparato que permite abrir portais para o Labirinto.

Na mitologia de Hellraiser, existe uma dimensão que permeia o mundo material. No Labirinto, corredores infindáveis encontram outros corredores, criando passagens e agrupando almas absorvidas pelo Leviatã, seu deus e eterno observador.
Chamar o Labirinto de inferno é uma redução feita pelos filmes que buscarei evitar aqui. Trata-se de uma dimensão de fato paralela, onde seus visitantes passam por sofrimentos inimagináveis por toda a eternidade: ganchos repuxam os músculos, a pele é descolada do corpo, amálgamas de corpos são remendados… mas a extrema dor carrega, em si, o êxtase.
O Labirinto é guardado por um grupo de anjos chamados cenobitas, criaturas humanoides elevadas pelo mais alto grau da perdição, encontrando assim a existência no ápice do sentir. A lógica desse universo diz que, após cruzar certo limiar de dor, os sentidos são indistintos um do outro e, por isso, o ápice da dor e do prazer seria virtualmente a mesma coisa. Por esse motivo, o Labirinto é desejado e atrai tantas almas, apesar da maioria não ser capaz de sobreviver aos seus temíveis encantos.
A configuração gênesis, enfim, aparece como uma porta para essa dimensão. Uma caixa quebra-cabeça que, quando resolvida, não apenas abre a porta para o Labirinto, como também faz o usuário poder controlar sua configuração. Apenas assim é possível sobreviver à revelação horrível de Leviatã.

Aiden, o protagonista, expõe-se aos horrores do Labirinto ao ir de encontro com sua amada, vivenciando apenas o horror. Em Revival, a dimensão segue o padrão de estranheza do segundo filme, com corredores labirínticos se formando e modificando conforme exploramos o espaço limiar. Sujo, perigoso e escuro: a direção de arte perfeitamente encapsula o desespero e o horror do Labirinto, estimulando a urgência de nos fazer querer sair de lá o mais rápido possível.
Quando finalmente encontramos Sunny e regressamos para o quarto, somos agraciados com a presença dos temíveis cenobitas. Mesmo aqueles que não conhecem a série hão de reconhecer, no líder do grupo, um dos personagens mais icônicos dos filmes de terror da década de 1980: o Sacerdote (vulgarmente referido como Pinhead). Ao proporem a Sunny o ápice do sentir, vemo-la desfazer-se à nossa frente, com ganchos descamando-a, em uma visão tão torpe que apenas a vivência com o Leviatã é capaz de assimilar. E apagamos.

O culto dos prazeres
Ao acordar, Aiden está em uma cela dentro de um estranho culto. Tais cultistas que guardavam consigo a configuração gênesis, que estranhamente foi roubada por uma mulher que buscava certa elevação espiritual: Sunny. A Igreja foi construída a partir do conhecimento da existência do Labirinto, e é por meio dela que o protagonista começa a se familiarizar com a mitologia, meio de notas espalhadas, discursos ensaiados e panfletos nas paredes.

Apesar do conhecimento prévio não ser necessário para jogar Revival, fui identificando inúmeras referências aos filmes em minha jogatina, e aposto que há ainda muitas outras dos livros. A obra é uma carta de amor às criações de Clive Barker e o fã se emocionará em encontrar tanto valor ao longo da experiência.
A partir da fuga de Aiden, encontramos nossa maior missão: resgatar Sunny do Labirinto e escapar do culto BDSM, sádico, perverso, pervertido ou qualquer outro adjetivo que se encaixe. Para libertar a alma de nossa amada, inclusive, precisamos realizar o mesmo ritual dos dois filmes originais: oferecer carne no local em que a vítima foi levada ao Labirinto, o que é um aceno muito bacana.
Evito dar spoilers a partir daqui. Em termos narrativos, saiba apenas que Revival é uma grande adaptação para a mídia, sendo capaz de mesclar o horror com a galhofa natural de um universo tão exagerado. Os inimigos que de fato enfrentamos são grotescos, mas ainda da nossa dimensão, sempre colocando os cenobitas em um plano elevado que somos incapazes de acessar ou até compreender.
Assim, temos uma história possível dentro do universo sem impactar negativamente na mitologia, e a conclusão da trama (onde podemos tomar uma escolha), deixa clara a distinção entre Labirinto e nossa realidade.
Uma obra de arte com problemas técnicos
Preciso destacar quão bela é a direção de arte em Revival. Mesmo os quadros ao fundo do cenário deixam nossa mente pertubarda, os inimigos (embora repetitivos) são verdadeiramente horripilantes e, toda vez em que entramos no Labirinto, o desespero corre em nossas veias.

Agora, se tivesse de caracterizar o gênero do título, encontraria certa dificuldade. Não se trata nem de um survival horror clássico, embora tenhamos de gerenciar recursos, espaço no inventário e, de vez em quando, precisamos buscar chaves em espaços contidos, nem de um jogo de tiro em primeira pessoa mais convencional, visto que a munição é extremamente limitada. É uma mescla de ambos os tipos, ofertando um arsenal robusto de armas e permitindo-nos controlar objetos com auxílio da configuração gênesis.
Mas não devo mentir: existem muitos problemas técnicos em Revival. Alguns são releváveis, como glitches visuais esporádicos, outros são tão graves que nos forçam a reiniciar o software. Por certa vez, uma cutscene deixou de carregar o diálogo e não se encerrava, entrando em um loop de vídeo mudo que me forçou a carregar um save slot. Por outra, e esse é o exemplo mais grave que encontrei, o jogo simplesmente deixou de salvar. Para resolver essa questão, precisei apagar saves antigos, visto que nem o auto-save conseguia subscrever os saves anteriores.
A falta de polidez é o que infelizmente impede Revival de ser um dos meus jogos favoritos de 2026. Alguns bosses são truncados (em um deles, meu personagem não conseguia parar de correr, o que me impedia de mirar), o combate nunca parece liso (em mortes stealth, às vezes o input para execução silenciosa não aparece) e algumas armadilhas no Labirinto são tão escuras que, por vezes, nem somos capazes de identificar o que nos matou.

Por fim, em relação aos controles, no Nintendo Switch 2, Revival permite a utilização do Joy-Con como mouse, o que sempre é bem-vindo, mas particuarmente preferiria uma opção de movimento para deixar a mira mais confortável. Nada disso, contudo, faz de Revival uma experiência ruim; pelo contrário!
Acredito que temos aqui uma das melhores adaptações de IP para a mídia de jogos digitais (a meu ver, fica empatado com Alien: Isolation) e não tenho dúvidas que muitos de meus problemas serão resolvidos com um patch ou dois. Um ponto, contudo, que acredito não ser possível de ser consertado é a voz de Aiden.
Apesar do dublador ser bom, sua performance é um tanto abafada por parecer estar sussurrando, o que não condiz com sua personalidade (lê-se: um Ethan Winters debochado e com frases de efeito). Por vezes, é bom o personagem deixar sua voz ser ouvida para o jogador sentir a empolgação em conjunto.
Por quem você iria ao Inferno?

Clive Barker’s Hellraiser: Revival acertadamente traz para sua narrativa o mito de Orfeu e Eurídice, que serve como base para os melhores jogos de terror: Silent Hill 2, Signalis, Resident Evil 7 biohazard, entre muitos outros. A maior diferença aqui, talvez, seja que em nenhum momento o título tenta nos convencer que Sunny é uma pessoa que vale a pena o esforço (pelo contrário, por sinal).
Essa dicotomia permite uma boa reflexão sobre a natureza de nossa jornada, e o fim da trama coloca tal percepção em xeque. Estaria Orfeu errado ao olhar para trás em sua jornada no Hades? Não seria no terror extremo que encontramos formas de refletir sobre quem buscamos do nosso lado?
Independentemente da resposta, sei que Revival nos faz pensar, o que por si só já faz a experiência valer. A beleza do horror no meio do caminho é apenas um bônus — e que senhor bõnus!
Prós:
- Direção de arte nos transporta para a mente perturbada de Clive Barker;
- Narrativa respeita a mitologia das obras originais enquanto a apresenta em novos contextos;
- Ampla variação de combate e excelente mescla de cenários.
Contras:
- Problemas de glitches e bugs mais graves fazem a experiência ficar menos imersiva;
- Combate truncado é afetado pelas arenas mais fechadas e corredores estreitos.
Nota
8
Nota
8
