Desenvolvedora: Atlantis Studio
Publicadora: Atlantis Studio
Gênero: Terror isométrico | Co-op
Data de lançamento: 22 de outubro de 2026
Preço: R$ 89,90
Formato: Digital
Plataformas: Nintendo Switch 2
Análise feita no Nintendo Switch 2 com cópia fornecida gentilmente pela Atlantis Studio.
Revisão: Lucas Barreto
Vocês se lembram do Wii U, certo? O console de oitava geração da Nintendo que tentou levar a experiência de duas telas dos portáteis, como o DS e o 3DS, para os consoles de mesa. Não é exagero nenhum dizer que a proposta não teve o sucesso esperado, tendo em vista que o Wii U é lembrado como um dos maiores fracassos da centenária história da Nintendo, mas o conceito acabou rendendo sim algumas ideias bastante interessantes.
Uma das minhas favoritas era a possibilidade de jogar multiplayer local utilizando as duas telas: enquanto um jogador usava a tela do Wii U GamePad, o outro jogava diretamente pela TV numa perspectiva diferente. Uma ideia simples, mas que abria espaço para experiências bem diferentes das que estávamos acostumados a ver nos consoles de mesa.
Não sei se o fracasso da Nintendo chegou a servir como inspiração, mas Beyond the Dark: Nightwatch chega para o Switch 2 com uma proposta parecida com o que o Wii U oferecia: utilizando-se do Game Share para conectar dois consoles Switch, enquanto uma pessoa joga no modo portátil, a outra tem uma perspectiva completamente diferente do game na TV e precisam cooperar para superar os desafios do jogo.
Essa é uma ideia tão característica do Wii U que acabou sendo até um pouco chocante ver algo assim lançando no ano de 2026 para o Switch 2. Mas meramente uma ideia interessante não garante um bom jogo. Afinal de contas, como tudo isso foi executado?
Preso em uma casa com uma entidade misteriosa
Beyond the Dark começa meio que literalmente do nada: você acorda em uma casa misteriosa, sem muito direcionamento do que fazer ou do que está acontecendo no lugar, tudo que te é explicado é que existe uma “Entidade” misteriosa perambulando pelo local e que seu objetivo é escapar dali antes que ela te encontre.

A partir daí, toda e qualquer lore é contada por meio de objetos e notas que você encontra pelo lugar. A casa é bem extensa e cheia de itens pra interagir e descobrir mais sobre “A Entidade” e as pessoas que antes estiveram ali acaba por criar um cenário bem interessante.
A atmosfera escura e assustadora da casa acabou me lembrando bastante a Casa Baker de Resident Evil 7. Agora, é claro que aquele tem um escopo e orçamentos muito maiores que Beyond the Dark, mas a vibe é um pouco parecida sim: o jogo conseguiu me deixar tenso em vários momentos e em especial quando a “Entidade” estava me perseguindo; saber que aquela coisa estava perambulando por aí, me procurando, e depender apenas de mensagens da pessoa que estava jogando comigo para saber onde ele estava me deu um pouco de pânico, admito.
Tudo volta ao Wii U Gamepad
Bem, a mecânica principal de Beyond the Dark é bem simples: um jogador, usando a TV, jogará numa perspectiva de primeira pessoa enquanto explora a casa, coleta itens, resolve puzzles, etc. Enquanto isso, o segundo jogador em um segundo Nintendo Switch fica responsável por monitorar a casa por meio de câmeras, distrair a “Entidade” com sons e utilizar o inventário. A ideia é interessante, e na prática tudo funciona como deveria: colaborar com o segundo jogador é sim bastante intuitivo e gera algumas situações engraçadas, e ter alguém monitorando e tentando distrair o monstro acaba sendo útil em mais de uma situação. Monitorar as câmeras por si só não é tão chato quanto parece, tendo em vista que você realmente deve ficar atento ao que está acontecendo em cada um dos cômodos da casa e avisar ao outro jogador. A comunicação é essencial pra coisa dar certo.
Na “segunda tela” (vamos chamar a visão do segundo jogador enxerga assim, pra facilitar), você verá uma “Barra de Tensão”. Essa barrinha vai sendo preenchida conforme o primeiro jogador faz barulhos durante a exploração: ações como correr, derrubar objetos pelo cenário, pisar em brinquedos ou outros objetos: tudo isso vai causar barulho.
E quando a barra estiver totalmente preenchida e em vermelho, a “Entidade” irá aparecer e começar a te procurar, e nesse momento é importante que o jogador na primeira se esconda o mais rápido possível e que o jogador com a segunda tela faça o máximo possível para distrair o monstro criando barulho em outros cômodos da casa. Hora ou outra, a barra de tensão vai diminuir e o monstro desaparecerá, recomeçando esse “loop”.

Com o monstro longe, o objetivo vira resolver o máximo de puzzles o possível e adquirir o máximo de dicas possíveis. Agora, se o monstro conseguir te matar, você irá sim recomeçar do zero, mas dicas que havia encontrado antes de morrer continuarão em sua posse, o que significa que o processo pra chegar no resultado dos puzzles fica bem mais curto e direto ao ponto do que antes, já que você meio que já saberá o que fazer. O próprio jogo explica que “morrer é parte do processo de investigação”.
O grande problema é que morrer depois de fazer tanto progresso ainda assim é frustrante, tendo em vista que você terá de refazer puzzles, já que alguns deles podem mudar algumas coisas de ordem ou padrão. Por exemplo: no começo do jogo, existe todo um puzzle de encontrar animais de madeira com números encravados neles.
Depois de algum sufoco, eu e minha companheira de jogo conseguimos concluir e pegamos uma chave para um elevador que nos levou para um área completamente nova… mas o jogo não é muito bom em apontar o que fazer ou para onde ir, deixando isso muito às custas do jogador, então nós ficamos explorando o novo andar meio sem rumo, morremos e quando voltamos tivemos que fazer tudo que já havíamos feito mais uma vez.

Entendo que Beyond the Dark é um jogo curto e não leva muito tempo para ser completado, mas esse tipo de experiência é frustrante e transformou o que poderia ser um jogo de terror bem competente e criativo em algo bem mais monótono. Assistir a mesma cutscene inicial e resolver os mesmos puzzles uma, duas, até três vezes é OK, mas fazer bons avanços, ficar perdido, morrer e ter que refazer meus passos do zero não foi uma experiência extremamente agradável.
Não ajuda muito que despistar a “Entidade” não é uma tarefa exatamente rápida: o jogo diz que caso a barra de tensão fique completamente preenchida, o ideal é se esconder até que o monstro desapareça, mas até ele sumir demora de 2 a 3 minutos. Foram 2 ou 3 minutos parada esperando o jogo liberar a exploração novamente! Entretanto, para ela aparecer é rápido, basta alguns poucos passos e você já terá que se esconder de novo. Encarar a Entidade não é tão simples também, pois ela se move rápido demais e te mata só de encostar em você, ou seja, a recompensa de tentar “dar um perdido” na Entidade não compensa o risco da criatura te matar e você ter que começar tudo do zero.

Não acho que esses seriam problemas tão graves caso o jogo te punisse menos por cada morte. Uma solução fácil para esses problemas seria acrescentar alguns save points conforme você vai progredindo pelas “áreas”, mas sem isso as coisas acabaram ficando monótonas e frustrantes rápido demais.
O silêncio também assusta
Beyond the Dark nos apresenta uma ambientação bem escura e silenciosa. Os corredores são iluminados por uma mera lanterna e o jogo não tem tantas músicas, deixando o som ambiente e o silêncio fazerem o trabalho na maioria das vezes, e devo dizer que é funcional.
O jogo assusta e deixa tenso se utilizando dessa “falta” de iluminação e trilha sonora, com você conseguindo ouvir os passos e grunhidos da “Entidade” ou coisas quebrando em outros cômodos, mas sem conseguir enxergar muita coisa por conta do ambiente escuro, o que me causou um sentimento de incerteza. Quando as músicas começam a tocar, entretanto, elas costumam ser boas e corroboram para o ambiente sinistro que o game quer passar.

A minha crítica aqui é que o jogo às vezes pode ser escuro até demais. No print acima, por exemplo, eu não conseguia enxergar nada do que tinha em minha frente pois a minha lanterninha não estava dando conta do recado, então fui só batendo de parede em parede até encontrar o caminho certo. Não é algo que acontece com tanta frequência assim, mas foi mais comum na segunda área do game do que eu gostaria que tivesse sido.
De resto, a apresentação visual é tão boa quanto se espera de um jogo deste calibre. A escuridão ajuda bem a disfarçar os “defeitos” que os visuais tem, criando um jogo bem coeso e agradável de se olhar no momento a momento.
Entre a criatividade e a frustração

Beyond the Dark: Nightwatch acabou me deixando um tanto quanto dividida. Se por um lado, a ideia de utilizar o Game Share do Nintendo Switch 2 para criar uma experiência assimétrica de terror similar ao que jogos da época do Wii U faziam é bastante criativa, por outro, a execução não acompanhou todo esse potencial que existia, com uma progressão repetitiva, punições excessivas para morte e, num geral, uma experiência que não me atingiu no ponto certo.
Consigo enxergar o valor no que o game tenta fazer ainda assim, e quando a coisa funciona ela funciona bem: se você tiver alguém para jogar junto e estiver em busca de uma experiência coop um pouco mais diferente do que a de jogos como Orbitals, It Takes Two ou Split Fiction, talvez você aproveite Beyond the Dark bem. Com alguns ajustes no sistema e na progressão eu consigo imaginar a ideia funcionando, mas do jeito que está, as coisas claramente precisavam de um pouco mais de cuidado para brilharem.
Prós:
- Proposta criativa de multiplayer assimétrico;
- Cooperação intuitiva e momentos divertidos entre os jogadores;
- Ambientação sombria que cria uma atmosfera de tensão;
- Uso do silêncio e dos efeitos sonoros para gerar medo.
Contras:
- Recomeçar a fase do zero após morrer torna a experiência repetitiva e frustrante;
- Falta de direcionamento durante a exploração;
- Perseguições demoradas;
- Iluminação insuficiente em alguns trechos, dificultando a exploração;
- Não está em português brasileiro.
Nota
6
