Desenvolvedora: Wired Dream Studio
Publicadora: QUByte Interactive
Data de lançamento: 14 de Outubro, 2021
Preço: R$ 19,99
Formato: Digital
Análise feita no Nintendo Switch com chave fornecida gentilmente pela QUByte Interactive.
Histórias de vingança são tão antigas quanto o próprio conceito de histórias. De Medeia a Kill Bill, é o tempero capaz de apimentar qualquer tipo de conflito, despertando empatia em relação à figura injustiçada e causando reflexão ao longo da jornada. Teria sido todo o sangue derramado ao longo do caminho justificável? Ou seria tudo aquilo apenas um reflexo bárbaro oculto em nossa natureza selvagem? Red Ronin não decepciona ao buscar uma resposta e tais questões.
Red
Tudo começa com uma previsão. Uma figura em vermelho desliza pelo ar, em seus últimos momentos em vida, perguntando-se se tudo havia valido à pena, antes de encerrar seu destino ao encontrar o asfalto. Um corte e a encontramos em seu tempo atual, fazendo-nos conhecer Red: uma espadachim cega por um único objetivo: o de eliminar aqueles que a abandonaram. Auxiliado por Isaac, um drone racionalista e complacente, inicia sua jornada em frente a um prédio — aliás, uma fortaleza — recheado de seguranças que, como a máquina frisa, estão apenas em busca de uma renda para pagarem seus boletos ao fim do mês. Em um primeiro momento, a protagonista aparece apenas como uma criatura em busca de sangue, deslizando pelos saguões, pintando-os em escarlate, sem refletir sobre suas ações, até se aproximar de seu primeiro alvo. Assim passamos a conhecê-la.

A narrativa de Red Ronin é dividida em dois momentos. No presente, sabemos apenas que a assassina está atrás de quatro indivíduos, que de alguma forma estiveram envolvidos em uma operação ao seu lado. Ao término de cada capítulo, no entanto, encontramos uma unidade de memória, que nos leva a uma noite em específico: quando Red fora abandonada à própria sorte por aqueles que considerava amigos, em específico Yellow, sua sensei. Durante o período de seleção de capítulos somos convidados a entrar em contato com um lado mais íntimo da personagem, dentro de seu pequeno apartamento, onde uma televisão, sempre ligada, despeja informações sobre a sociedade decadente da década de 2040, fazendo-nos conhecer tanto ela quanto o mundo em si em que a narrativa está inserida
O Intertexto
Existe um contexto geral criado a partir de textos e do trabalho visual que aprofunda o jogo enquanto um todo. Sabemos que houve uma guerra, e que tal evento resultou em uma grande disparidade social, resultando na criação de um grupo de guerrilheiros, os Leftovers (as sobras da mesa, em tradução livre), que batalham roubando alimentos de grandes redes de mercado para distribuírem aos necessitados, um Robin Hood clássico. O quesito social perpassa cada aspecto do jogo, desde as motivações de cada antagonista até a reflexão inerente causada pelas ações de Red. E os comentários políticos não param com tal relação: vemos ainda a construção de uma forte indústria cultural e uma justificativa do abandono às classes baixas, em uma franca mistura de Admirável Mundo Novo com Blade Runner.
O intertexto de Red Ronin é extenso e fonte de certa originalidade. Afinal, tratando-se de uma produção brasileira, observar críticas locais é muito bem-vindo, porém ao se aliar com releituras de clássicos elas apenas se expandem. Todo o cenário é ainda refinado por uma camada de ironia trágica, debochando tanto de estereótipos do gênero de ficção científica quanto da própria configuração cultural que se apresenta em nosso tempo.
O Combate
Toda a ambientação serve apenas como complemento a um sistema de jogo brilhante. Como havia destacado, Red Ronin não esconde a importância da violência para enfatizar a jornada vingativa da protagonista. Mesmo em gráficos pixelados, o combate apresenta tendências “gore”, ao mesmo tempo suavizadas visualmente e intensificadas narrativamente. Cada capítulo é dividido por uma série de telas de puzzles, onde é possível se movimentar na vertical ou na horizontal até a personagem encontrar um obstáculo. No turno dos oponentes, inimigos normais podem se movimentar apenas um quadrado por vez, com variações a depender dos encontros. O objetivo de cada fase é eliminar cada um dos capangas e se dirigir à saída da sala, até o encontro de chefões.

O level design de cada tela é brilhante. Por mais que se tracem comparações com o jogo Hotline Miami, devo dizer que as comparações terminam no aspecto visual. Afinal, neste existe certa liberdade de movimento e a dificuldade está mais no aspecto de combate direto, quando Red Ronin se trata apenas de movimentação. A fim de se eliminar inimigos, é necessário alinhar-se com eles e traçar uma linha, cortando-os, analisando as consequências futuras ao ativar armadilhas por onde passa, bloqueando outros tipos de movimento. Em meio a espinhos, câmeras e armas, contudo, Red tem acesso a duas habilidades: a primeira congela os inimigos por um turno, incluindo tais armadilhas, já a segunda expande, no mesmo turno, uma linha a mais de movimento, também em cruz.
Combinando a construção de cenário com suas ferramentas, Red Ronin se revela muito mais um puzzle do que um jogo de ação em si, inclusive denominando-se um “Turn-based but fast paced dash ‘n slash” (desliza-e-corta acelerado em turno, em outra tradução livre bem picareta). Nesse sentido, afasta-se de suas inspirações tanto narrativas quanto de jogabilidade para criar algo próprio. O momento de maior liberdade de controle é visto em chefões, mas mesmo assim é necessário criar padrões para se alcançar a vitória, limitando, dessa forma, a quantidade de formas possíveis de se chegar ao fim do capítulo.

Conclusão
Rápido, reflexivo e inteligente: Red Ronin é ao mesmo tempo uma boa história e uma excelente seleção de desafios. O único problema que tive com o jogo, e algo relativamente pequeno comparado a todo resto, é como o fim, ao anunciar uma continuação, deixou a narrativa incompleta. Penso que poderia haver algum tipo de conclusão de arco antes de introduzir novas perguntas, mas saber que haverá uma continuação do que joguei me agrada muito. No fim, os puzzles em si já seriam o suficiente para o jogo ser bom. O ambiente, o visual e a música, frenética e empolgante, entretanto, o fazem ser ótimo.
Prós:
- Narrativa provocante e cenário geral bem desenvolvido;
- Puzzles bem desenhados com soluções criativas.
Contras:
- Limitada liberdade na resolução de telas;
- Conclusão do arco dramático refém da continuação.
Nota Final:
8,5
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