Desenvolvedora:
Publicadora:
lançamento:
Preço:
Formato:
Gênero:
Plataformas:
Gust
Koei Tecmo
9 de novembro, 2021
R$ 351,84
Físico/Digital
RPG | Slice of Life
Nintendo Switch, PlayStation 4, PC
Desenvolvedora: Gust
Publicadora: Koei Tecmo
Gênero: RPG | Slice of life
Data de lançamento: 09 de novembro, 2021
Preço: R$ 351,84
Formato: Físico/Digital
Plataformas: Nintendo Switch, PlayStation 4, PC
Análise feita no Nintendo Switch com chave fornecida gentilmente pela Koei Tecmo.
Admito que sou um assíduo fã de animes envolvendo o tema Mahou Shoujo. Clássicos como Sailor Moon, Magic Knight Rayearth e Cardcaptors Sakura fizeram parte da minha infância e, até mesmo na vida adulta, me vejo acompanhando coisas do tipo. No entanto, uma coisa que notei foi como nos dias atuais houve uma tentava de subversão no gênero — quero dizer, Mahou Shoujo hoje não necessariamente é sinônimo de transformistas que “lutam pelo amor e pela justiça.”
Claro, há obras mais conservadoras voltadas para crianças como PreCure, que ainda se mantém relevante com dezenas temporadas, ainda assim é perceptível que existe uma tendência em oferecer aos jovens abordagens mais realistas ou sombrias, onde entendemos melhor a situação na qual nossas heroínas estão, lutando não apenas contra o mal, mas para manterem a sanidade mental diante da responsabilidade enquanto toca em temas mais delicados.
Isto só foi possível graças a influência do clássico moderno Puella Magi Madoka Magica, que subverteu a nossa percepção do que é mahou shoujo que, embora muito provavelmente não tenha sido o pioneiro, popularizou o subgênero dando início a era de “Mahou Shoujo Dark Fantasy.” Um exemplo disso é Yuki Yuna Is a Hero, que transparece até demais isso, colocando adolescentes em uma realidade cruel e um destino no qual não pode ser mudado; estão ali para cumprir o seu dever como Garota Mágica independente de sua vontade, se estão ou não preparadas para a morte.
Mas onde diabos os videogames entram nisso? Bem, jogos com temática Mahou Shoujo não são estranhos, no entanto, a grande deles são feitos para um nicho bem específico, normalmente trazidos à vida em forma de jogos bishoujo, não tão focado no público feminino, já que temos exemplos como Shoujo Mahou Gaku Little Witch Romanesque, que nada mais é que um eroge com traços delicados passando a impressão de ser algo voltado para mulheres. Mas e aí, o que sobra para quem busca por jogos voltados a esta demográfia?
Eis então que chegamos ao cerne desta longa introdução, onde falaremos de Blue Reflection, um RPG escolar com o tema Mahou Shoujo que recentemente se tornou uma franquia cross-media após a chegada de Blue Reflection: Second Light e o anime Blue Reflection Ray. Para melhor contextualizá-los, Blue Reflection é originalmente um jogo de 2017, fazendo parte do universo de franquias da Gust — a mesma por trás da série Atelier —, que desde meados dos anos 90 busca trazer experiências focadas majoritariamente em aventuras protagonizadas por garotas capazes, às vezes até flertando com yuri.
No caso de Blue Reflection, ele se encaixa no âmbito de Mahou Shoujo inspirado em animações/Light Novels modernas que buscam retratar um lado realista pontuando a individualidade de cada personagem e as consequências de estarem lutando por algo, enquanto traz uma carga dramática maior e atmosfera não tão leve. O game do qual irei falar neste caso é de seu sucessor Blue Reflection: Second Light, que tem como foco narrativo mostrar a importância de nossas lembranças e sentimentos, um tema bem característico da franquia como um todo.
Um pouquinho de contexto não faz mal a ninguém
Apesar de unir um cast original com personagens retornantes do título de 2017 junto ao anime, Blue Reflection: Second Light não pressupõe que o jogador tenha conhecimento prévio das outras mídias. Enquanto inicialmente eu pensava que a abordagem tinha a ver com uma realidade alternativa, o jogo mostrou que eu estava totalmente errado.
O jogo dá um contexto bastante plausível às suas aparições dando até continuidade em seus respectivos backgrounds, além de compartilhar o mesmo conceito de mundo. Devo pontuar também o cuidado da Gust em entregar informações dos personagens de outras obras sem prejudicar o jogador iniciante — é ótimo para despertar o interesse de ir às outras mídias após Blue Reflection: Second Light, ao mesmo tempo, o jogador veterano que jogou Blue Reflection de 2017 e/ou assistiu ao Blue Reflection Ray são muito bem servidos com conteúdo canônico.

Mas indo para a história em si, o jogo nos coloca na perspectiva de Ao Hoshizaki, uma estudante que vivia uma vida normal e estava indo à escola para aulas de reforço, até que ela é involuntariamente transportada para um mundo onírico, no qual é representado por um colégio vazio cercado por água sob um céu azul penetrante do verão. Há muito mistério no ar aqui, principalmente o fato de Ao estar junto de outras jovens que compartilham o mesmo destino, mas que estão naquele mundo sem suas memórias, apenas lembrando de seus respectivos nomes e equipadas com um anel capaz de torná-las em Reflector — uma transformação como nos animes de Garotas Magicas.
Enquanto presas naquela escola, Ao e as demais devem buscar respostas de como chegaram naquele mundo, além de recuperar suas respectivas lembranças e encontrar o caminho de volta para casa. Para isso, elas deverão ir atrás dos Fragments espalhados pelos Heartscapes: mundos projetados a partir das memórias de cada personagem aparecendo ocasionalmente conforme progredimos no jogo.
Estes Heartscapes funcionam como dungeons que devem ser exploradas, apresentando cenários contemporâneos misturando com o fantasioso, normalmente cheio de cores vivas e uma música de fundo que dá ao jogo uma atmosfera melancólica se juntarmos estes elementos com o tom da narrativa. Devemos coletar Memories Shards que mostram trechos de um determinado acontecimento e, ao coleta-los, somos recompensados com a conclusão daquela memória perdida. As memórias recuperadas também dão pistas de como as meninas confinadas naquele mundo se tornaram Reflector, bem como descobrimos que uma espécie de evento apocalítico esta acontecendo no mundo real.
O nível de complexidade narrativa no entanto não me permite ir mais à fundo nos detalhes nesta análise. Para poupa-los de spoiler não irei expor detalhadamente acontecimentos da história ou no desenvolvimento das personagens, pois estão inteiramente interligados com o plot do jogo. Contudo, o que posso dizer é que Blue Reflection: Second Light oferece uma narrativa engajante repleta de mistérios, com o pacing consideravelmente bom em contraste com o jogo de 2017, onde o jogador pode aproveitar mais de um relaxante e descontraído fator slice of life, mas também chegar aos twists da história sem se cansar do fluxo de eventos.
Os personagens que compõem a trama são o ponto forte do game também. Todas as garotas apresentadas possuem algum backstory que é repassado para o jogador de forma não tão expositiva. Blue Reflection: Second Light é interessante por explorar a individualidade de cada uma das meninas, expondo problemas que normalmente guardamos para nós mesmos mas sem parecer insensível ou invasivo demais.
Novas funções, melhorando o que já era bom
Como disse antes, elementos de slice of life encontram-se presentes em Blue Reflection: Second Light tal como em Atelier. Ele busca instigar o jogador a realizar sidequests ou side events. Nessas seções você pode ter uma proximidade maior com as meninas realizando missões que remetem o dia-a-dia das delas enquanto não estão se aventurando pelo Heartscape — mas além dele temos um outro tipo de interação que estreita ainda mais os laços sestes personagens: o Dating.

Introduzido no primeiro jogo, o Dating chega na sequencia mais aprimorado, permitindo você convidar as meninas do game para um, pasmem, encontro, desde que um símbolo em formato de coração possa ser visto por cima delas. Quando o Dating é ativado, você e a convidada devem ir até um local específico para que uma cena interativa aconteça. A partir daí percebo como interação entre personagens é algo crucial para a experiência de Blue Reflection: Second Light, afinal, por mais descontraídos que sejam estes elementos, é uma forma natural para que o jogador se senta mais aproximado do personagem, consequentemente aumentando a imersão.
O jogo ainda oferece um sistema de Craft ainda mais refinado comparado com Blue Reflection de original. Nele é passível criar itens ou guloseimas que recuperam HP, curam Status negativos, além de buff e debuffs. O Craft também oferece uma mecânica de Desenvolvimento da Escola, onde construímos instalações nos arredores da escola que, além de garantirem bônus de stats durante a batalha e outras funcionalidades convenientes como o modo de Treinamento, é uma das formas que faz com que a memória de um personagem seja sucumbida resultando na aparição de novos personagens, que por sua vez, dará andamento na história do jogo.

A este ponto, se jogou algum título da série Atelier já deve ter percebido que muito da progressão da história de Blue Reflection: Second Light esta ligado ao seu sistema de Craft, seja criando itens ou construindo instalações na escola. No entanto, posso dizer que o Craft é ainda mais simplório que o Synthesis em Atelier. Concluindo tarefas ou indo a encontros, tudo culmina para o jogar ganhar Fragments equipáveis ou Pontos de Talentos que são usados para desbloquear outras habilidades das personagens.

A força feminina no Combate
Claro que não posso deixar de citar a batalha entre os principais sistemas de Blue Reflection: Second Light. Aqui, você verá as meninas em ação mostrando todo seu potencial como Reflector. Por isso, há várias coisas que preciso explicar, pois é um dos sistemas mais complexos do game na minha opinião.
Blue Reflection: Second Light adota o estilo ATB, que nada mais é que uma variação do sistema de batalha baseado em turnos onde nele usa-se uma Timeline indicando a vez do jogador ou do inimigo — mais parecido com o combate semi realtime apresentado em Atelier Ryza: Ever Darkness & the Secret Hideout. Quando chega a vez de um membro da sua party, você tem acesso a um menu de opções onde o tempo congela até que você tenha selecionado a ação adequada; isso também funciona para o suporte da party, embora haja tempo de espera até que possa usa-lo novamente. Esse estilo é bastante diferente do apresentado em Blue Reflection original, embora os veteranos sintam-se mais à vontade devido a similaridade na sua interface.

Explicando melhor suas características, novamente, há uma Timeline no canto inferior direito da tela no qual o ícone dos personagens da party deslizam por ela, ao passar pelo indicador de Ether Points o jogador poderá realizar suas ações, porém tais ações são limitadas ao Gear Level que designa o número máximo de Ether Points que elas podem acumular. Por exemplo: normalmente você dará início a batalha com todos os personagens com Gear Level no 1, portanto apenas habilidades que requerem o mínimo de 1000 Ether Points podem ser usadas; caso esteja com seu Gear Level acima do 1, será capaz de usar habilidades que exigem mais Ether Points. Você aumenta seu Gear Level conforme vai utilizando suas habilidades, e ao chegar no Gear Level 3 seu personagem poderá se transformar em Reflector.
Outra característica interessante neste sistema é que você pode realizar um combo caso dois ou mias membros da party estiverem alinhados quando passarem pelo indicador de Ether Point, resultando em um dano massivo. O segredo da vitória estão nos ataques sucessivos resultando no aumento em um medidor de combo, que por sua vez multiplica o dano que o jogador causa no inimigo por meio de um multiplicador que aumenta junto ao combo, mas cuidado que os inimigos podem reinicia-lo.
O jogador também pode atrasar a vez do inimigo tendo a chance de causar um Knockdown, que o atordoa, deixando-o incapaz de se mover durante um tempo, além de perder o Ether acumulado e a velocidade do tempo de recuperação de Ether — o inverso também acontece a você e suas aliadas. Não posso deixar de mencionar o Ether Tides, que funcionam como uma skill suprema consumindo 3000 Ether Points enquanto estiver no Gear Level 3. Requer também que o combo esteja acima de 15 então não será necessariamente “spamável”, mas garante uma coreografia gratificante de se assistir enquanto finaliza o inimigo. Sim, tudo muito burocrático, mas é bem mais divertido na prática.

Durante a luta contra Chefes, as coisas mudam um pouquinho de figura. Desta vez, o jogador precisa se preocupar com o “Danger”, um estado no qual o Chefe se prepara para causar um grande dano, portanto, esteja preparado pois o dano causando pode deixar a sua situação crítica já que ele também pode resetar a cadeia de combo da sua party, isso quando não resulta num insta-kill. Também é possível entrar num modo Mano-a-Mano durante as batalhas contra Chefes — inédito em nesta entrada —, que ocorre quando você destrói as barreiras que aparecem após causar um Knockdown.
Neste modo, um dos membros da party entra em um combate solo em uma corrida de dano similar ao combate de Atelier Ryza 2: Lost Legends & the Secret Fairy, aqui exigindo mais da agilidade e reflexo do jogador, já que os comandos podem ser realizadas em tempo real com apenas um cooldown de uma fração de segundos. Vale mencionar que o Chefe também pode dar início a um combate mano-a-mano, obviamente deixando o jogador em desvantagem.

O dinamismo que as batalhas de Blue Reflection: Second Light apresentam fazem ele ser superior ao que vimos em Blue Reflection original, sendo especialmente mais divertido. No entanto, mesmo neste título o jogador pode não se sentir muito desafiado, já que em muitas ocasiões as batalhas dão a impressão de serem fáceis demais, mesmo em certas batalhas contra os chefes.
Talvez o maior desafio seja gerenciar todos os recursos apresentados na tela, e não vacilar para perder um aliado por hit-kill pela falta de atenção, embora as coisas sejam ainda mais simples de se fazer se colocar no modo automático onde apenas um personagem precisa ter suas ações gerenciadas enquanto a IA cuida das outras duas meninas no campo. Contudo, até entendo que o foco na narrativa e acessibilidade prevalecem como prioridade na experiência do game, e que no geral as coisas são bem mais elaboradas que em seu antecessor, mas acredito que por conveniência o modo MUST DIE — que eleva a dificuldade nas batalhas — deveria já estar no jogo base em vez de via atualização de pós-lançamento.
What a pretty game, its gorgeous

Uma das coisas que mais se destacam na série Blue Reflection é sua direção de arte. Para o design de personagens, Blue Reflection original já era bastante chamativo convertendo as ilustrações de estética distintas do artista Mel Kishida (a.k.a mellco) para modelos 3D. Blue Reflection: Second Light traz as mesmas vibrações de seu antecessor com as meninas cheias vida e personalidade, o traço suave remetendo a uma ilustração de mangá shoujo de romance juvenil com garotas de olhos esbugalhados parecem funcionar muito bem com proposta de Blue Reflection. Eu amo isso.

Para os cenários, a apresentação é impecável, não houve um lugar onde eu não me senti motivado a bater uma foto. Enquanto a parte da escola busca remeter ao máximo a realidade com muito cuidado nos detalhes e efeitos de iluminação de cair o queixo. Os Heartscapes, por sua vez, brincam mais com cenários de temas variados, coloridos e distorcidos com uma trilha sonora relaxante e/ou melancólica — ouça um highlight da OST do game aqui. E falando na exploração, não posso deixar de mencionar como funcionam de fato; sendo a escola onde as meninas passam maior parte do tempo, e os Heartscapes:
- A escola no qual as personagens estão confinadas servem como a HUD do jogo. Você pode explorar cada canto dela, desde algumas salas como enfermaria, cozinha e bibliotecas, até os corredores, pátios e outros lugares comuns que se veem numa escola. O jogador também tem acesso um fast travel que o leva até os principais locais como a área de seleção dos Heartscapes, o vestiário e a sala focada no Craft e no Desenvolvimento da Escola. É na escola também que as aproximações entre as meninas ocorrem através do Dating ou outras mecânicas ocorrerão, além de algumas batalhas inesperadas;
- Os Heartscapes são os principais mundos para exploração e onde a ação ocorre de verdade. Apesar de terem uma ótima apresentação, o jogador além de utilizar as gimmicks daquele mundo, terá que enfrentar monstros que rodeiam por lá. Porém é possível passar despercebido por quase todos eles se estiver no modo stealth, que como o nome sugere, é possível passar na sorrateiramente pelos monstros desde que não passe pelo seu campo de visão que é mostrado enquanto estiver neste modo. O modo stealth é ainda mais explorado em side quests.

Eu arrisco dizer que Blue Reflection: Second Light é um dos RPG’s mais bonitos do Nintendo Switch. A Gust realmente conseguiu entregar um trabalho muito bom. No modo portátil no entanto, claramente houve um pouco dificuldade para conversão, já que exitem muito mais efeitos de blur para contornar as texturas de baixa resolução e serrilhados que algumas vezes me incomodaram. De qualquer forma, mesmo que provavelmente no PC ou no PlayStation 4 os detalhes sejam ainda mais nítidos, Blue Reflection: Second Light no Switch ainda é um bom negócio, ele é facilmente um dos jogos third-party mais bonitos que já tive o prazer de jogar em um console da Nintendo.

Mahou Shoujo dramático e delicado
Blue Reflection de 2017 foi um game cheio de problemas em seus sistemas, sobrando apenas a beleza visual, um enredo interessante e uma boa lore. Ademais, a Gust extraiu todos seus pontos positivos aprimorando-os em sua sequencia, fazendo de Blue Reflection: Second Light, na minha opinião, a experiência definitiva da série. O game traz um enredo bem construído com uma carga dramática muito grande e um ótimo desenvolvimento de personagens, combinando com elementos de slice of life representados por mecânicas como o Dating que tornam o andamento entre um capítulo e outro menos monótono.
No Nintendo Switch, qualidade visual e desempenho não foi muito prejudicado devido a sua limitação de hardware, quase não obtive momentos de queda de FPS durante momentos mais movimentados nas batalhas, e os loadings entre as transições de cenários são bem suaves. No entanto, mesmo pela vantagem de sua natureza híbrida, eu não recomendo jogá-lo o tempo inteiro no modo portátil pois perde parte da fidelidade visual que é vista jogando na TV. Junto a ótima conversão para um hardware inferior e uma excelente direção de arte e trilha sonora, o resultado é um dos jogos mais lindos e relaxantes que pude pôr às mãos em 2021.
Pros:
- Enredo bem elaborado;
- Convidativo para quem consumiu outras mídias da série, mas sem afastar o jogador iniciante;
- Personagens bem aproveitados com um bom ritmo no desenvolvimento;
- Elementos de slice of life ajudam na imersão;
- Sistema de batalha dinâmico;
- Excelente direção de arte e trilha sonora.
Contras:
- Pode não ser muito desafiador para jogadores mais exigentes;
- Conversão não muito boa no modo portátil.
Nota
9
