Review | Voice of Cards: The Beast of Burden

Desenvolvedora: Alim
Publicadora: Square Enix
Data de lançamento: 13 de Setembro, 2022
Preço: R$ 159,90
Formato: Digital

Análise feita no Nintendo Switch com cópia gentilmente cedida pela Square Enix

Revisão: Marcos Vinícius

Em pronunciamento recente, e bastante revelador a respeito dos bastidores da indústria, a Square Enix revelou o balanço financeiro negativo decorrente de seu investimento na produção do jogo referente à franquia Marvel dos Vingadores [via DualShockers], implicando que seus esforços passariam muito mais a estar voltados a produções de menor escopo.

Basta dar uma pequena verificada no catálogo recente da Square Enix para perceber que tal política está, de fato, instaurada na mentalidade geral da publisher, encabeçando projetos como HARVESTELLA, The DioField Chronicle e Various Daylife, que ganham mais destaque que Forspoken, por exemplo.

Nesse sentido, a franquia Voice of Cards representa um movimento muito interessante da empresa, criando um sistema simples de produção e entregando a Yoko Taro, um de seus maiores diretores, lançando três títulos em pouco mais de um ano. Com isso em mente, ao encarar o novo título Voice of Cards: The Beasts of Burden levei em consideração dois importantes pontos: de que forma Yoko Taro poderia disponibilizar sua essência aqui, e o que esse terceiro título pode nos dizer sobre o estado da indústria de jogos em si?

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Primeiro, às cartas

Para quem está habituado à proposta da franquia, acredito que aqui encontrará uma familiaridade confortável. Apesar da temática das cartas, o jogo não se trata de um deck builder, sendo na verdade um RPG clássico, com dungeons labirínticas de puzzles fáceis e diversos encontros aleatórios ao longo do mapa.

O grande diferencial da série Voice of Cards é que tudo, desde o mapa até itens e personagens, está contido em cartas, compondo um jogo lúdico que, bem verdade, remonta board games modernos. A sensação de jogo analógico se intensifica com a presença de uma narradora, a única voz das cartas (daí o título), acompanhando o jogador e fornecendo vida ao universo apresentado.

Se, nos títulos passados, víamos cartas com cores, apesar de histórias melancólicas, em The Beast of Buden um senso de desesperança passa a tomar a obra, com uma sensação de aridez do cenário, em uma paleta monocromática que pode facilmente desinteressar de imediato, apesar de trazer uma interessante proposta.

Aqui, vemos um mundo onde monstros dominam a superfície, e a protagonista vive uma vida de pouco conforto no subterrâneo, buscando subsistência. Quando, em um ataque catastrófico, ela perde suas motivações, cabe a um personagem externo levá-la para fora de sua realidade vivenciada, uma literal e direta relação com o escapar da caverna de Platão. Mistérios, então, são criados, e um clima de tensão e de vingança passa a se estabelecer pelas escolhas do jogador.

Logo de início somos apresentados a todos os sistemas, desde a exploração pelas cartas, aos poucos revelando o que trazem sobre o verso, até o combate em si, composto por turnos. Um pequeno diferencial nessa versão é que, após derrotar monstros, a protagonista pode conseguir uma carta representativa deles, utilizando-as como habilidades possíveis caso cristais, fornecidos ao início de cada turno, possam pagá-las.

A direção de arte das cartas é bastante intrigante, com monstros e personagens sempre ilustrados de forma competente. Ainda assim, a escolha por um cenário muito mais desolado e com cartas de cores muito parecidas com a superfície da mesa onde elas se encontram pode causar rápida saturação, já que os cenários demoram para se diferenciar. A narrativa, por outro lado, que poderia ser muito bem mais uma das composições intrigadas e reflexivas de Yoko Taro, deixa a desejar, com uma história geral ao longo do jogo e pequenos núcleos explorados em capítulos individuais, mas que sempre caem em um espaço de RPGs genéricos.

A grande questão é que não vejo essa questão como algo negativo, e sim como uma adequação de expectativas, visto que o jogo claramente simula um RPG de mesa / board game, com momentos em que devemos tomar certas decisões que podem afetar a narrativa ou simplesmente modificar o diálogo para estabelecer uma personalidade distinta à personagem, fazendo-a se relacionar de diferentes formas. Além disso, devido a sua duração relativamente curta, uma aventura familiar e agradável pode vir a agradar um pouco mais, em especial.

Conclusão

Retomando um pouco o ponto de partida do texto, agora volto-me à percepção da existência da obra em si. De acordo, diversos títulos da mesma franquia lançados em um curto intervalo de tempo podem invariavelmente causar o desgaste da fórmula, e pouco a pouco os jogos podem simplesmente ser confundidos em uma massa homogênea, ao invés de destacarem-se por seus diferenciais.

Em contrapartida, desenvolver um sistema de jogo para simplesmente não o reaproveitar parece ser mero desperdício, e Voice of Cards revela uma interessante proposta de lançar jogos semelhantes, mas diferenciando-se sempre pela história e pelos personagens, como campanhas distintas de um mesmo jogo analógico. Baratear o desenvolvimento não implica na produção de jogos piores e menos complexos, e sim de um fluxo de trabalho mais eficiente, com maior espaço criativo dentro de limitações já conhecidas, e sem dúvida tal postura pode ser percebida com certo louvor.

Em suma, o título reúne elementos que muito agradam fãs de jogos analógicos, e gostariam de vivenciar a experiência de um jogo narrado por um dungeon master de forma virtual, ao mesmo tempo em que pode decepcionar aqueles que buscam uma experiência mais complexa (para algo do tipo, recomendamos aguardar o lançamento do port de NieR: Automata para o Nintendo Switch, já no mês que vem). Em todo caso, o título se apresenta como um bom divertimento e uma boa forma de relaxar entre jogos mais densos.

Prós:

  • Direção de arte instigante;
  • Simulação de jogos analógicos muito agrada.

Contras:

  • Tom monocromático pode gerar incômodo;
  • Loop de gameplay repetitivo.

Nota Final:

7,5

Lucas Barreto
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