Star Ocean: First Departure — O primeiro capítulo da saga espacial da Enix

Star Ocean é um nome um tanto quanto ignorado pelos fãs da Square Enix. Seu estilo artístico, valor razoável de produção e a falta de nomes de peso acaba passando uma imagem de ser uma série um pouco menos refinada do que o panteão de franquias famosas sobre o guarda-chuva da gigante japonesa.

A verdade é que, não é errado pensar isso da série. Star Ocean realmente não tem o pedigree de competir com as principais produções da Square Enix. Ainda assim, a franquia ainda tenta de toda forma conseguir se destacar no mercado e parece que sua dona quer que a série seja mais reconhecida, investindo na produção de novos títulos e até mesmo de remakes e remasters.

Star Ocean: The Second Story R é um “remake 2.5D” da segunda aventura da série, de 1998. 

Recentemente, fomos agraciados com o anúncio de Star Ocean: The Second Story R, um remake/remaster do segundo jogo da série que chegará ao Nintendo Switch em novembro. A principal novidade deste relançamento, além de melhorias em sua gameplay, é a utilização de visuais HD-2D, a técnica visual que a Square Enix tem utilizado na hora de relançar alguns de seus clássicos mais importantes de seu catálogo.

Esta adição, obviamente mostra que a Square EnixStar Ocean como uma franquia que vale a pena investir. Para aqueles que se interessaram pelo jogo após ver seu trailer de revelação na Nintendo Direct do dia 21 de junho, o primeiro jogo da franquia está disponível no Switch e hoje lhes trago este texto apresentado-o. Vamos falar de Star Ocean: First Departure R, uma versão atualizada do remake do primeiro jogo da franquia.

Um conto espacial

Star Ocean foi um título lançado originalmente em 1996 no Japão para o Super Famicom, desenvolvido pelo estúdio Tri-Ace e distribuído pela Enix, o game foi o primeiro jogo da Tri-Ace. O jogo foi bem recebido pela crítica e é considerado um dos mais impressionantes da biblioteca do Super Famicom de um ponto de vista técnico. Com gráficos vibrantes, uma introdução narrada com vozes digitalizadas e um sistema de batalha em tempo real em um campo pseudo 3D, o primeiro Star Ocean era algo muito surpreendente, ainda mais vindo de um estúdio tão recente.

A verdade é que, Star Ocean de Super Famicom foi basicamente construído sobre outro título que os desenvolvedores da Tri-Ace tiveram uma participação em sua criação, Tales of Phantasia, lançado um ano antes em 1995 para o Super Famicom. Eu já havia contado um pouco sobre essa história em nosso texto especial, “Um conto pelo tempo: a relação da série Tales Of com consoles Nintendo”, focado na série Tales of.

Yoshiharu Gotanda, o principal programador do antigo Wolf Team, havia escrito Tales of Phantasia como um projeto pessoal que mais tarde foi decidido transformar em um jogo. Originalmente, a Namco concordou em publicar o título, mas após diversas interferências da desenvolvedora, Gotanda e vários outros membros do Wolf Team decidiram abandonar o projeto e criar a Tri-Ace.

Apesar de ter terminado sua relação com a Namco de uma forma negativa, Yoshiharu e o resto da Tri-Ace ainda consideravam Tales of Phantasia como um bom título, mas que ainda tinha espaço para melhorar. Foi com este objetivo que o time começou a desenvolver ideias para um novo RPG e para conseguir os fundos necessários o time entrou em contato com a Enix, que aceitou publicar o título e ajudar financeiramente na produção do mesmo.

Assim nasceu Star Ocean, que utilizou muito do que havia sido desenvolvido para Tales of Phantasia. Engine, visuais e elementos de narrativas, foram re-utilizados pela equipe. Já o sistema de combate, criação de itens e desenvolvimento da narrativa, foram expandidos e melhorados em relação ao título anterior dos desenvolvedores.

Como mencionado anteriormente, Star Ocean é considerado como o jogo mais impressionante tecnicamente do Super Famicom. Utilizando um cartucho de 48 megabits, o chip S-DD1 para compreensão de gráficos e data de todos os mapas, além do Mode 7 para gerar gráficos adicionais, o título levou o console de 16-bits ao seu limite.

As principais melhorias, contudo, estavam nas outras partes do jogo. Quando Tales of Phantasia foi terminado, alguns membros da equipe achavam que certos pontos como a narrativa e o sistema de habilidades e itens era bastante genérico. Como tal, para Star Ocean, os desenvolvedores decidiram expandir os sistemas e introduzir novidades, como o Private Action, que mostrava cenas adicionais entre membros do grupo, expandido a narrativa de novas formas e um rico sistema de habilidades que permitia que os personagens pudessem criar itens, ganhar poderes extras para ajudar nas batalhas e muito mais.

Star Ocean foi o primeiro JRPG com um sistema de craft, onde jogadores podem criar itens diversos para os personagens. Apesar de ser bem básico, o sistema era inovador e ajudava o game a se destacar entre os rivais. Pode-se dizer que o título de Super Famicom deu os primeiros passos que a série Atelier mais brevemente iria trilhar. Além da criação de itens, também era possível criar música, que concedia bônus, pinturas, comida e muito mais, graças ao expansivo sistema de habilidades.

Obviamente, a ambição de Star Ocean possuía seus altos e baixos. Apesar de toda a qualidade visual e técnica demonstrada pelo título, ele deixava a desejar em certos pontos, além de apresentar inúmeros erros e bugs. Uma grande parte do que foi planejado para sua história acabou ficando de fora, enquanto outros elementos não foram expandidos o suficiente para destacá-los, como a área final do jogo, o verdadeiro vilão e principalmente, a parte espacial de seu nome.

Em 2007, a Enix, agora Square Enix, produziu e lançou um remake do game original para o PlayStation Portable. Batizado de Star Ocean: First Departure, o remake utiliza a engine gráfica de Second Story, lançado para o PlayStation 1 em 1999, além de algumas outras melhorias para oferecer uma experiência moderna do título original. Este remake chegou ao ocidente em 2008 e depois foi atualizado e lançado para PlayStation 4 e Nintendo Switch em 2019.

A primeira jornada de Star Ocean

A narrativa de Star Ocean: First Departure ocorre no planeta de Roak e segue a jornada de Roddick Farrence, um jovem espadachim entediado com a tranquilidade de seu vilarejo. Um dia, ele e seus amigos, Millie Chliette e Dorne Murtough, são convocados pelo ancião do local que lhes revela que uma doença misteriosa atacou um vilarejo vizinho e que os moradores precisam de ajuda. O pai de Millie, um renomado doutor, decide ir até o local e após dias sem contato, envia uma carta ao trio revelando que a doença transforma as pessoas em pedra e é mortal.

Após descobrir que o pai de Millie está infectado, o trio decide ir até o topo da montanha mais próxima em busca de uma erva que dizem poder curar tudo. Ao longo do caminho, é revelado que Dorne está infectado, e os amigos decidem se apressar para conseguir a erva. Chegando ao local, contudo, o trio acaba se deparando com o Capitão Ronyx J. Kenny e sua tenente, lia Silvestri, que se teletransportaram em busca de analisar o que está ocorrendo no planeta.

Ronyx e Ilia, dois terráqueos, explicam ao trio que a doença, originária de um vírus, é resultado de uma arma biológica utilizada por outro planeta e os levam até sua nave espacial onde após analisar Dorne, descobrem que a única cura para a doença é utilizando o sangue do hospedeiro original do vírus. Voltando com o trio para a Terra, o grupo recebe contato dos responsáveis por utilizar a arma biológica, a raça de humanos do planeta Lezonian, que lhes revela que um terceiro grupo os forçou a utilizar o vírus e que seu hospedeiro original era um Rei Demoníaco que existiu há 300 anos atrás em Roak.

Com a Terra decidindo abandonar Roak, Rony desobedece ordens e resolve utilizar o portão temporal localizado no planeta de Styx para poder viajar no tempo e encontrar o Rei Demoníaco. Com Dorne sendo deixado para trás, Roddick, Millie, Ronyx e Ilia viajam até o planeta, onde após conseguir permissão do portão para viajar pelo tempo, Roddick e Ilia são separados de Millie e Ronyx. Agora, o quarteto, preso 300 anos no passado, precisa se reunir e conseguir encontrar uma forma de enfrentar o Rei Demoníaco.

Como é possível observar pelo resumo acima, apesar de conter certos elementos sci-fi e viagem no tempo, a narrativa de Star Ocean: First Departure pode quase ser considerada uma história medieval. Este talvez seja um dos principais pontos negativos do jogo, o fato de que há uma premissa muito interessante, viagem espacial e elementos sci-fi, que não é utilizada. Tirando o ínicio, a parte futurística da história só retorna no finalzinho do jogo, quando somos enviados em uma missão para outro planeta de forma a impedir o grupo misterioso que forçou os Lezonians a utilizar o vírus em Roak.

A narrativa em si é bem simples e é possível perceber como as limitações do Super Famicom e o resultante cortes realizados para o jogo caber no cartucho afetou o resultado final. Existe muito backtracking para locais já visitados, um dos principais problemas do título que é aliado à alta taxa de encontro de inimigos, e alguns pontos da história acabam não sendo bem explicados ou expandidos para atrair a atenção do jogador. Tome o terceiro grupo misterioso, por exemplo. Após ser mencionado no início da jornada, temos apenas uma cena no meio da história que implica na existência do grupo e então eles só voltam ao foco no final, quando sua identidade é descoberta e os protagonistas são enviados para o planeta Fargett para lidar com o líder do grupo, Jie Revorse. Tal planeta em si, só possui duas áreas exploráveis e fica disponível por no máximo uns 30 minutos antes da aventura se encerrar.

O remake seria o momento ideal da Tri-Ace de incorporar elementos descartados e adicionar ainda mais conteúdo à história de forma a destacá-la. Infelizmente, algo que precisa ser mencionado sobre First Departure é que ele é um remake extremamente fiel ao original. Enquanto ele atualiza bastante mecânicas e visuais, nos outros pontos, ele é exatamente o título de Super Famicom, sem pôr e nem tirar, o que é um grande problema, pois a narrativa de First Departure precisava de uma melhorada.

Habilidades, o charme de Star Ocean

O sistema de combate de Star Ocean: First Departure R é basicamente uma versão pseudo 3D de um jogo de luta. Sprites 2D se movendo em um campo tridimensional, podendo atacar normalmente com suas armas ou usar ataques especiais com L e R. Diferente do encontrado em Tale of, o sistema aqui ainda utiliza bastante os estilo criado pela Tri-Ace na era Super Famicom de ambas as séries, ou seja, os ataques especiais só podem ser usados a uma certa distância do inimigo e existe o famoso spell pausing, a ação é pausada sempre que um feitiço que afeta mais de um personagem é utilizado.

Honestamente, eu não curto o sistema de combate de Star Ocean: First Departure R. Acho ele uma versão piorada do Linear Motion Battle System de Tales of 2D. Sprites 2D em um campo 3D não funcionam muito bem, com algumas coisas bizarras acontecendo durante as lutas, como personagens subindo um em cima do outro.

O charme de Star Ocean: First Departure R está na verdade em seu intrigante sistema de habilidades. Como mencionado anteriormente, existe um complexo sistema de habilidades que permite a criação de itens e outros buffs para ajudar o grupo a enfrentar os diversos desafios da aventura.

Star Ocean: First Departure R possui 14 personagens jogáveis. Roddick, Millia, Ronyx e Ilia são os únicos obrigatórios, com todo o resto sendo opcional e apenas cinco podem ser recrutados, totalizando uma party de nove personagens. Cada um requer certos requerimentos para serem recrutados, com decisões ocorrendo em certos casos que podem determinar se alguém se junta ao grupo ou não. Sendo assim, existe um grande valor de ” replayabilidade” no título, pois é possível jogá-lo várias vezes com novas composições de equipe.

Além de possuir seus próprios estilos de combate, cada personagem também possui seus talentos únicos que afetam as habilidades que podem ser aprendidas. Craft, Alquimia, Cozinhar, Pintura, Escrever livros, são algumas das habilidades que podem ser ensinadas aos personagens, com alguns sendo melhor em certas coisas do que outros. Cada habilidade serve para criar algo que pode ser útil na aventura, como equipamentos e itens que oferecem buffs. Possuindo as habilidades certas, é possível facilmente quebrar o jogo criando equipamentos extremamente poderosos, o que é muito divertido.

Star Ocean: First Departure R recompensa quem explorar suas mecânicas. O sistema de habilidade é único e fornece uma ótima forma de fazer os jogadores se interessarem pelos personagens. Obviamente é possível fazer com que todos aprendam as mesmas habilidades, e você consegue pontos suficientes para aprender todas as habilidades ao longo da jornada com os level ups, mas os talentos ajudam bastante a diferenciar uns aos outros, especialmente porque o resultado das habilidades é determinado por RNG. Além disso, também existem habilidades que todo o grupo podem realizar, e elas são habilitadas conforme você vai adquirindo certas habilidades individuais de cada membro da party.

Poder experimentar e ser recompensado por um sistema tão interessante como este faz com que Star Ocean: First Departure R seja uma boa experiência para os fãs de JRPG. Não há muitos jogos, especialmente RPGs japoneses, com um sistema tão robusto que permite que o grupo possa criar itens variados que oferecem bônus e outras melhorias, além disso, o jogo incentiva experimentação, com itens e materiais diferentes que dependendo do personagem escolhido, pode resultar em algo totalmente inesperado e único. Diga, qual outro JRPG permite montar uma banda, tocar uma música especial e invocar um superboss que te mata em poucos hits?

Uma aventura para o futuro

Star Ocean: First Departure R tem alguns problemas de pacing em sua narrativa, além de uma alta taxa de encontro aleatórios, cortesia de sua raiz como um título 16-bits. Backtracking é algo que acontece demais, forçando o jogador muitas vezes a retornar para uma região que não passa nenhum desafio, a única forma de totalmente reduzir o encounter rate é através de um item adquirido após completar uma sidequest com uma personagem opcional, que requer backtracking para a porção inicial do jogo enquanto o jogador está na rota final da aventura e um outro item que pode ser facilmente perdido.

First Departure deixa a desejar em certos pontos, ele poderia ter expandido a história e planetas, especialmente no final. O combate também poderia ter sido melhorado. Spell Pausing faz com que magos sejam extremamente ruins de se utilizar no endgame, além de esticar demais as batalhas a cada pausa realizada.

Mesmo assim, o título tem seus pontos positivos. O já mencionado sistema de habilidades é bastante interessante, a trilha sonora, composta por Motoi Sakuraba, possui algumas boas melodias e o jogo está dublado nas suas principais cenas, incluindo duas dublagens japonesas diferentes, uma com os dubladores do remake e outra com os originais da versão de Super Famicom.

Para aqueles que desejam conhecer a série, ou querem se preparar para Second Story R, vale a pena experimentar First Departure R. É sempre bom ver a Square Enix dando uma chance a jogos antigos de seu rico catálogo.

Erick Figueiredo