Desenvolvedora: Jump Over The Age
Publicadora: Fellow Traveller
Gênero: RPG Textual, Simulação
Data de lançamento: 31 de janeiro de 2025
Preço: R$ 73,99
Formato: Digital
Análise feita no Nintendo Switch com cópia fornecida gentilmente pela Fellow Traveller.
Revisão: Manuela Feitosa
O primeiro Citizen Sleeper chamou bastante atenção em seu lançamento por abordar uma temática futurista combinada a críticas sociais contundentes sobre o poder das corporações. No jogo, o jogador assumia o papel de um Sleeper, um ser sintético construído a partir das memórias de outra pessoa, criado para servir a uma megacorporação.
Agora, em Citizen Sleeper 2: Starward Vector, a história segue um novo Sleeper, em uma trama independente, mas ambientada no mesmo universo. Quem jogou o original encontrará algumas referências sutis, mas a narrativa se sustenta por si só. Além de expandir os temas filosóficos e sociais do primeiro jogo—como identidade, passado e futuro—Starward Vector introduz um novo elemento que amplia significativamente a experiência: a gestão de uma nave espacial e de uma pequena tripulação.
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Quando o Futuro Não é um Lugar Melhor
O gênero cyberpunk sempre levanta a questão central: será que o avanço tecnológico realmente melhora a vida das pessoas? Depende de quem controla essa tecnologia e para qual propósito ela está sendo usada. Se estiver a serviço do lucro e do controle, ela pode aprofundar desigualdades e exploração. Citizen Sleeper 2 constrói sua narrativa com base nesse dilema e o desenvolve de maneira brilhante.
O jogo retrata um universo onde civis são afetados por uma guerra da qual não fazem parte, trabalhadores se mobilizam contra gestões abusivas, comunidades alternativas adotam modelos coletivistas para escapar da opressão corporativa, e cidades são tomadas por gangues que cresceram no caos do conflito. No centro dessa realidade estão o Sleeper—protagonista do jogador—e Serafin, seu companheiro, que fogem de uma dessas gangues a bordo de uma nave velha, cercados por uma tripulação de jovens tão ou mais desfavorecidos que eles. E claro, um gato.

Além das críticas sociais, o jogo leva ainda mais longe a metáfora da disforia corporal que já existia no original. Não apenas o Sleeper sente que seu corpo não lhe pertence, mas ele também passa por mudanças físicas que ocorrem de maneira imprevisível, sem que ele compreenda completamente o que está acontecendo.
Outro ponto interessante é que Starward Vector não repete certos desafios do primeiro jogo, permitindo que a história explore novas direções. No original, o protagonista possuía um rastreador que permitia à corporação encontrá-lo e era dependente de uma substância produzida por ela para sobreviver. Aqui, desde o início, o rastreador já foi desativado e essa dependência eliminada, permitindo que o jogo se concentre em outros aspectos da experiência de ser um Sleeper nesse universo.
Jogabilidade Refinada e Melhor Uso da Pressão do Tempo
A jogabilidade mantém a estrutura do primeiro Citizen Sleeper, e com razão—afinal, “não se mexe em time que está ganhando”. O jogo funciona como um RPG narrativo baseado em dados: a cada dia, um conjunto de rolagens é gerado, e o jogador escolhe como alocá-las nas tarefas e desafios que encontra.
Uma novidade interessante é que, em momentos-chave, o jogador não controla apenas seus próprios dados, mas também os de dois membros de sua tripulação, que podem ser escolhidos conforme a situação. Esses momentos ocorrem nos chamados “contratos”, trabalhos que o grupo recebe ocasionalmente.

Uma melhoria significativa em relação ao primeiro jogo é a sensação de urgência. Como o Sleeper e Serafin estão fugindo de uma gangue, precisam se deslocar constantemente, o que adiciona um senso de perigo real. No jogo anterior, alguns eventos com limite de tempo pareciam não ter grande impacto prático, enquanto aqui o ritmo da perseguição é bem implementado (e, em particular, a perseguição do vilão principal Laine se destaca em comparação à da empresa no primeiro jogo). No entanto, o gerenciamento de tempo não chega a ser opressor—na minha experiência, consegui completar todas as missões disponíveis sem grandes dificuldades.
Problemas Técnicos Persistem
Infelizmente, um problema já presente no primeiro Citizen Sleeper continua sem solução no Nintendo Switch: A fonte é extremamente pequena no modo portátil, tornando a leitura desconfortável e, em alguns casos, quase impossível. Algumas letras acabam desaparecendo parcialmente devido ao tamanho reduzido, o que compromete a experiência, especialmente em um jogo tão focado em narrativa e leitura. Esse problema já havia sido amplamente criticado no primeiro jogo, e é frustrante ver que ainda não foi corrigido na sequência. Para quem joga no modo portátil, essa limitação pode ser um fator decisivo, pois afeta diretamente a imersão e compreensão da história.

Além disso, encontrei um bug próximo ao final do jogo que fez o software fechar sozinho no Switch. Embora tenha sido um problema pontual e não tenha corrompido meu progresso, trata-se de um erro crítico que pode comprometer a experiência do jogador.
Uma Nova Vida para um Sleeper, um Novo Marco para a Série
Citizen Sleeper 2: Starward Vector mantém a essência do original, mas a expande de forma significativa, tanto na narrativa quanto na jogabilidade. As novas mecânicas de tripulação e nave espacial adicionam uma camada extra de estratégia, enquanto a história continua explorando de maneira brilhante temas como identidade, exploração e resistência em um mundo brutalmente desigual.
Apesar dos problemas técnicos no Switch, a experiência como um todo é excelente, e o jogo é uma recomendação fácil para fãs do primeiro Citizen Sleeper e para qualquer um que aprecie narrativas envolventes no gênero cyberpunk.
Pros:
- História envolvente e independente;
- Senso de urgência melhor implementado;
- Crítica social bem construída e implementada à trama.
Contras:
- Fonte pequena para o Switch;
- Bug crítico que precisa de correção.
Nota
9

