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Desenvolvedora: doinksoft
Publicadora: Devolver Digital
Gênero: Ação | Roguelike
Data de lançamento: 22 de junho, 2026
Preço: R$ 37,49
Formato: Digital
Plataformas: Nintendo Switch, PC
Análise feita no Nintendo Switch com cópia fornecida gentilmente pela Devolver Digital.
Revisão: Juliana Paiva Zapparoli
Do mesmo estúdio por trás de Gato Roboto, Dark Scrolls cria uma aventura side-scroller que se mostra muito consistente. Como padrão em diversos indies, características retrô marcam presença no jogo por si só: uma belíssima pixel art que moderniza a arte de muitos jogos de NES, GBC e arcade, além de emular alguns aspectos que faziam parte da dificuldade de vários títulos daquele período — diferente de outros jogos que optam por não agregar isso ao produto final.
O sarcasmo presente no título é uma bela sacada, referenciando a série Dark Souls em seu nome, e utilizando “scrolls” para remeter ao aspecto side-scroller do jogo e à dificuldade que o game almeja, também presente em diversos games retrô. Tal qual nosso belo jogo, vamos “scrollar” diretamente para nossa review e entender o que Dark Scrolls faz de interessante (ou o inverso disso).
Direto ao ponto: sobreviva ao “scrolling“
Dark Scrolls é um daqueles games que chamamos popularmente de “zerando em uma sentada”: rápido, prático e divertido. No entanto, jogá-lo muitas vezes não dá essa sensação devido a uma questão: embora mire em ser uma experiência curta de jogar, repetir runs, aprender com seus erros e desbloquear melhorias (como qualquer roguelike/lite), o título opta por colocar o jogador para testar o jogo sem nem um pequeno tutorial de cinco minutos nos dois primeiros mapas, algo que não costumo ver em outros indies muito venerados, mas que é mais comum no gênero metroidvania.

No entanto, em decorrência da tamanha simplicidade de Dark Scrolls, eu diria que os desenvolvedores optaram por fazer como um jogo arcade de seu tempo: sem instruções claras, você testa os três botões na hora, enquanto faz e se frustra na tentativa e erro. Eu e muitas pessoas não temos problemas com isso, por não se tratarem de mecânica que exijam tanta explicação para entender, mas sei que essa ausência causa um estranhamento em muita gente.
Além disso, é um jogo no qual, tentativa após tentativa, erros idiotas que cometemos desde o princípio não dão uma sensação de progresso como deveriam e tornam o ato de persistir um pouco mais frustrante que o usual, mesmo falando de roguelikes. Um exemplo de jogo indie muito popular e fácil de entender meu ponto em comparação é Dead Cells, que propõe a mesma coisa que Dark Scrolls, mas de uma maneira mais focada em um mapa de metroidvania em vez do risco de morrer com o scrolling do mapa.
Porém, a diferença principal em Dead Cells que, pelo menos ao meu ver, torna esse processo algo mais fácil de se viciar do que em Dark Scrolls, é o progresso que não coloca o risco de morrer por coisas tão banais nos minutos iniciais, te dando uma sensação mais prazerosa com a tentativa e erro dos reinícios.
Dark Scrolls faz algo muito presente em alguns jogos de NES: erros de atenção muito bobos nos punem com muita frequência desde o princípio, o que faz com que a sensação de evolução não seja algo tão viciante a curto prazo (o que é relativamente importante para conquistar jogadores).
Acredito que a palavra-chave para descrever a produção da doinksoft seja, de fato, “paciência”. Com um processo mais lento até chegar na sensação maravilhosa que um videogame te proporciona de estar evoluindo. Por ser mais punitivo desde cedo, dentro da nossa cabeça, isso passa a sensação de que o tempo está passando mais devagar do que deveria — e essa sensação em videogames geralmente é bem desconfortável, levando em conta o motivo pelo qual gastamos nosso suado dinheiro em um Nintendo Switch.

No entanto, eu não acredito que isso seja ruim de maneira alguma, pois é proposital. A visão do jogo almeja esse fator e mira em jogadores que genuinamente gostam dessa sensação. A lentidão temporal dentro de nossas cabeças se dá por como videogames modernos são e como um jogo com esta proposta se apresenta na era das redes sociais.
Mesmo nós, dos anos 1990, nos tornamos desabituados com a paciência que os games daquela época exigiam. Acabamos criando a famosa nuvem de nostalgia romântica ao falar de jogos de SNES, Mega Drive e PS1, fazendo parecer que o processo de aprendê-los não tenha sido frustrante (variando caso a caso).
Dentro dessas repetições, vamos descobrindo como quebrar o jogo com os personagens iniciais, até finalizarmos o game pela primeira vez. Depois disso, repetir uma run inteira passa a ser um padrão para desbloquearmos os poucos extras de Dark Scrolls. Ainda assim, essa sensação de dificuldade se dá muito mais ao experimentar as repetições em single player, pois a experiência no modo co-op acaba por ser muito mais leve e fácil.
Chama os seus “parça” pra “scrollar” junto com você, saia da solidão, parceiro (logo eu falando isso…)
Junto com meu “parça” Ivanir, “scrollei” pelo co-op deste jogo. As horas que levei em single player me fizeram chegar ao chefe final diversas vezes e não derrotá-lo, me marcando demais pela experiência da dopamina da persistência (divertido, porém frustrante). No entanto, jogar com uma ou mais pessoas não é tão “caótico” como o jogo promete e diminui a dificuldade proposta de maneira absurdamente rápida.
Ao testar várias runs com todos os personagens por muitas horas, meu tempo de vida e minha especialidade em apanhar me fizeram desenvolver alguns métodos particulares de utilizar um ou dois personagens visando ir mais longe, mas a minha dificuldade no boss final foi completamente anulada com a ajuda de um amigo que estava testando o game pela primeira vez comigo (obrigado, Ivanir, você é o rei dos games). Claro que a experiência prévia contribuiu diretamente para isso, mas com alguém ao seu lado, mesmo jogando pela primeira vez, a tarefa de limpar o mapa fica muito mais prática, ainda que seu parceiro morra antes de você.

Além disso, tudo o que aprendi com o personagem inicial — que eu sabia que possuía mecânicas que “quebravam o jogo”, mas não achei que dava essa sensação jogando sozinho de maneira alguma — tornaram possível vencer a dificuldade de Dark Scrolls com um amigo sem dificuldade alguma. É bem cômico destacar, por exemplo, que com apenas cinco runs acompanhado, ser derrotado no boss final parou de ser problema: eu e Ivanir simplesmente platinamos o mapa todo em um período muito curto.

Há uma questão na relação cooperativa entre os dois jogadores que particularmente não me incomoda, mas incomodou meu parceiro de gameplay: os dois personagens disputam espaço no mapa e isso atrapalha a movimentação em momentos onde o cenário se estreita ou a hitbox de seu parceiro bloqueia sua passagem.
No entanto, eu acredito que esta questão seja proposital, com o intuito de obrigar ambos a cooperarem de um jeito que o manuseio de espaço se torna uma importante parte do processo. Junto com a possível vantagem de poder utilizar seu parceiro como plataforma de pulo para atingir lugares mais altos, e um trabalho em conjunto na eliminação dos inimigos do mapa, acredito ser exatamente aqui onde Dark Scrolls brilha e mostra o pico do cuidado em seu desenvolvimento, embora esse tipo de questão seja muito particular de cada pessoa.
Os extras escondidos pelo caminho
Personagens desbloqueáveis e extras interessantes são questões escondidas nos mapas do jogo, embora bem intuitivas de perceber. Às vezes, aparecem como uma tarefa extra em um boss que você jamais derrota com as mãos nas costas, em outras, em diálogos com lojistas nos trechos de transição entre fases, etc.
No entanto, as únicas questões desbloqueáveis realmente interessantes são novos personagens, que são naturalmente mais fortes e intuitivos que os iniciais, e cosméticos com as quais não me importo muito, como emojis (se, em vez de “scrollar” na Escuridão eu fosse um tio que “scrollasse” nas redes sociais, talvez eu gostasse mais disso, devo ter um péssimo gosto).

Por outra perspectiva, mesmo os extras não levam um tempo absurdo a ponto de ser um daqueles jogos que tomam conta de sua vida caso queira platinar. Afinal, nem todos querem que o videogame se torne um segundo emprego.
“Scrollando” em uma sentada ou mais?
Dark Scrolls não é o primeiro a fazer o que faz — Roguelike/lites, embora exista uma reclamação acerca de uma saturação do gênero, não continuam a sair com tamanha frequência por acaso, afinal — no entanto, é muito bem-executado e ótimo nisso. Sem contar que co-op caótico já virou algo costumeiro em jogos famosos popularmente por destruir famílias, como Overcooked (parece exagero mas, tem seu fundo de verdade).
Embora eu curta, Dark Scrolls não é para todos, mesmo para quem aprecia outros indies desafiantes. Para aproveitar o que há de melhor no jogo, é necessário tolerar o lento aprendizado e a sensação menos prazerosa que outros games, tornando-se um prazer de longo prazo.
O game faz tudo o que se propõe muito bem, e seu preço na eShop justifica muito bem seu pequeno escopo. Sem contar que isso o torna um ótimo título de incentivo para um amigo seu jogar com você, principalmente no período de uns dois anos, quando o jogo baratear e ficar a preço de jogos velhos no Steam em época de Summer Sale.
Prós:
- Consistente e bem executado em sua proposta;
- Desafiador na medida certa;
- Mais divertido se estiver jogando em modo cooperativo;
- Direção de arte pixelada belíssima.
Contras:
- Não traz nada novo (o que não exatamente é um defeito).
Nota
9
