- Review | The Legend of Heroes: Trails from Zero - 09/10/2026
- Para a CyberConnect2, a transição dos jogos físicos para totalmente digitais é “positivo” para os desenvolvedores: “não têm como competir em termos de conveniência” - 06/10/2026
- Com ‘Ninjala 2’, a GungHo aposta na longevidade da série: “quero que dure por 10, 20 anos, ou até mais” - 05/10/2026
Desenvolvedora: Nihon Falcom
Publicadora: NIS America
Gênero: RPG de turno
Data de lançamento: 10 de setembro de 2026
Preço: R$ 209,99
Formato: Digital/Físico (Game-Key Card)
Plataformas: Nintendo Switch 2, PlayStation 5
Análise feita no Nintendo Switch 2 com cópia fornecida gentilmente pela NIS America.
Revisão: Davi Sousa
Cansado de viver aventuras por áreas fantasiosas e locais mágicos? Sua vida precisa de um pouco de normalidade em um mundo que está constantemente evoluindo tecnologicamente? A resposta é simples: volte para a cidade grande e comece sua nova jornada “do Zero”!
The Legend of Heroes: Trails from Zero, lançado em 2010 para PSP no Japão, foi o quarto da série Trails/Kiseki. O jogo foi o pioneiro de algumas coisas que definiriam títulos futuros da franquia, como:
- O primeiro Trails a fugir do elenco central introduzido em Sky;
- O primeiro Trails a se passar numa área que não fosse Liberl;
- E, por fim, o primeiro Trails a permitir interação de combate fora do combate.
Apesar do nome “Zero”, Trails from Zero não é uma história anterior ou que começa uma história nova, mas sim uma sequência direta de Sky the 3rd que, apesar de não exigir conhecimento prévio de jogos passados da franquia, é mais que bem-vinda no contexto em que nos encontramos. Com o lançamento de ambos Zero, Azure e o novíssimo remake 2nd Chapter, encontramos a oportunidade perfeita para voltar a falar de Trails aqui no NintendoBoy!
Quanto a Trails in the Sky 2nd Chapter, meu colega Erick Figueiredo fez uma análise excelente, que vocês poderão ler abaixo:
Não querendo prolongar isso (que será a primeira parte de uma longa review dupla), peço para me acompanharem em meu discurso sobre como a duologia da SSS foi essencial para representar a vastidão do mundo de Zemuria em Trails, assim como também expor os seus maiores pecados. E que forma melhor de iniciar uma análise sobre esta nova cidade do que alguns de seus habitantes, não?
Bem-vindo a Crossbell
Seguindo a premissa da ideia de termos diferentes histórias contadas pelo continente de Zemuria na série Trails, nossa história com Zero começa em um trem que está indo da república de Calvard, um dos exemplos raros de democracia em Zemuria, em direção à cidade-estado de Crossbell. No trem, um jovem detetive que acabou de atingir as condições necessárias para se tornar um policial de fato está a caminho do local onde viveu por boa parte de sua vida, a própria cidade de Crossbell, capital do estado.
É em Crossbell que nosso jovem, Lloyd Bannings, tem uma surpresa instantânea ao entrar oficialmente nos ranques policiais: ele foi enviado de imediato para uma estranha divisão, a Special Support Section (SSS), que, ainda que seja parte da polícia, age por regras e missões externas a ela. É através dessas circunstâncias que Lloyd encontra seus companheiros, mas, antes de continuarmos, deixe-me introduzir o resto da SSS aqui!
Lloyd Bannings
C.V.: Tetsuya Kakihara
Nosso protagonista de 18 anos é um detetive recruta que se formou com sucesso na academia de polícia. Lloyd buscou ser um policial se espelhando em seu falecido irmão mais velho, Guy Bannings, mas acabou sendo arrastado como o líder da estranha Special Support Section de Crossbell. Suas armas de preferência são tonfas não-letais.


Randy Orlando
C.V.: Shinichiro Miki
O membro mais velho da SSS, com 21 anos, Randolph era um guarda das fronteiras de Crossbell que acabou envolvido na polícia por problemas femininos. Apesar de parecer descontraído e viciado nos prazeres da carne, é um oficial dedicado em serviço e grande amigo de Lloyd. Em combate, ele se arma com uma alabarda super pesada.
Elie MacDowell
C.V.: Aya Endō
Uma jovem de 18 anos novata na polícia de Crossbell que foi enviada à SSS por seu desempenho nos testes escritos e em práticas de tiro. Uma garota amável que parece esconder algo em suas origens, Elie é alguém que se importa muito com os problemas que infestam a sua cidade. Ela usa uma arma orbal durante combates.


Tio Plato
C.V.: Kaori Mizuhashi
A mais jovem do grupo, com 14 anos, Tio é uma funcionária da Fundação Epstein (os líderes em tecnologia de Zemuria) que foi enviada para a polícia de Crossbell para realizar testes de equipamento. Um gênio nato e habilidosa em tecnologia orbal, a garota infelizmente não é boa socializando. A arma que Tio usa é o cajado orbal, ainda em testes na Fundação.
Sergei Lou
C.V.: Unshou Ishizuka
O [não jogável] chefe da SSS, Sergei é um velho detetive que, apesar do renome na polícia de Crossbell, é constantemente reduzido por lá. Foi um dos fundadores da iniciativa SSS e, apesar de parecer distante de Lloyd e sua equipe, sempre dá conselhos que ajudam os jovens policiais.

Tendo apresentado Lloyd e seus colegas, a história do jogo começa a se desenrolar por volta da SSS, mas nunca escondendo muitos dos temas sobre as “sombras” que habitam Crossbell. Inicialmente uma cópia da Guilda Bracer, a SSS precisará demonstrar ser mais do que isso para fazer com que o povo da cidade não apenas a veja de maneira diferente, mas volte a ter esperança no sistema policial e no próprio governo de Crossbell.
Eu vou tentar evitar spoilers maiores para a história, apenas comentando sobre como estes elementos são integrados na gameplay, mas é necessário enfatizar que ambos Zero e Azure possuem juntos uma das narrativas mais amadas da série Trails, mas, claro, com alguns probleminhas no meio do caminho – o pacing do início pode levar algumas pessoas à insanidade, mesmo sendo um jogo relativamente curto para um JRPG.




Zero é o Trails que fez eu me interessar pela franquia, ainda que numa época em que eu não a conhecia direito. A forma como a ambientação totalmente urbana, os protagonistas policiais, e a narrativa em geral se misturam foi o suficiente para atrair o meu eu jovem. Dessa mistura, existe um tópico da gameplay que acho válido apontar, que são as missões e a forma como elas se encaixam no contexto em que são ambientadas.
Uma boa copaganda ainda é uma copaganda
Quando comecei a jogar muitos RPGs, eu notei que existe um padrão que se repete, no qual os protagonistas ou a maioria de uma população são contra uma figura de autoridade. Seja um governo, um império inimigo ou literalmente um deus, você dificilmente vai encontrar um RPG que tente simpatizar uma figura autoritária. Pensei que Trails from Zero seria um estranho caso onde isso ocorre, dado que os protagonistas são policiais.
Foi para minha surpresa que o jogo revelou suas verdadeiras cores: ele é extremamente crítico à polícia de Crossbell, ainda que tente ir na narrativa dos “poucos policiais bons”. Nós vemos como a SSS é vista como uma forma que o departamento de Crossbell achou para melhorar a reputação péssima da polícia deste mundo – e o plano em questão é literalmente copiar o que a Guilda Bracer de Zemuria já fazia há anos!

Tem muito que eu posso falar deste aspecto social de Crossbell na história, mas a forma como isso se aplica na gameplay é ainda melhor: assim como a trilogia Sky fornecia formas de aumentar a reputação Bracer de Estelle e companheiros com as missões que a faziam render BP (Bracer Points), Zero oferece a opção de realizar missões com a recompensa de DP (Detective Points). Sendo o sistema de sidequest que o jogo incentiva o jogador a experimentar, as missões não variam muito das que vemos em outros JRPGs deste tipo, mas o que quero destacar, novamente, é que este contexto de ser literalmente uma copaganda é certamente único de Zero e Azure.
Somado ao contexto do seu uso em gameplay, o espaço contido da cidade de Crossbell por si só é um diferencial que esta duologia possui. Cada distrito e região de Crossbell é segmentado de uma forma onde não apenas é impossível você se perder, como também se torna prático utilizar outros recursos do jogo para benefício tanto da gameplay quanto de aspectos menores que não vão afetar o jogo final, como minigames ou passatempos.

A campanha do jogo é curta por si só, e as missões não demoram muito tempo para ser realizadas, então minha recomendação inicial é não ignorar essas missões (mesmo com o jogo dizendo que isso pode ser feito). Creio que, em termos de horas jogadas, realizar todas as missões disponíveis só vai render algo de 5 horas a mais de gameplay; logo, os benefícios superam o pouquíssimo tempo extra, ao meu ver.
O esforço inevitável!
Além do fato de eu estar jogando um jogo que tem “Trails” estampado em seu nome, alguns aspectos adicionais sempre me fazem perceber que: é, este jogo é definitivamente um Trails. Estes aspectos seriam os três abaixo:
- A narrativa começa a escalonar de algo simples para aspectos mais absurdos. Um jogo que se inicia como uma simples investigação contra a máfia pode acabar virando uma narrativa sobre como um culto sombrio está controlando a cidade;
- Cutscenes que se estendem de uma forma constante em certos pontos – muito perceptível no Switch portátil, já que você pode notar que a tela vai escurecendo conforme você não faz nenhum input nos controles ou na própria tela;
- Um sistema de gameplay que permite um alto nível de customização de quartz e orbs, mas que é relativamente fácil de entender e complexo de dominar, uma vez que o jogador possui a base para prosseguir com os combates in-game.
É sobre este último aspecto que eu gostaria de levantar diversos pontos, já que o sistema de combate presente em Trails from Zero é uma evolução do que veio antes, mas pode ser um tanto mais robusto para aqueles que já estão acostumados com iterações posteriores do sistema de Trails.

O combate segue um sistema de turnos baseado em ordens que podemos ver como seguirá no canto superior da tela. As ordens de ataques seguem padrões que envolvem a velocidade e alcance dos personagens, mas podem ser alteradas com buffs e debuffs aos quais todo personagem pode ter acesso com os Orbments corretos. Não vou adentrar muito nestes aspectos porque não há muito o que explicar fora isso; quem já jogou um jogo da série Trails vai se sentir familiarizado com os sistemas de Zero, por eles serem muito simples e viciantes como em outros Trails.
Porém, até nas “mesmices” do combate o lançamento original do jogo introduziu sistemas novos, como os Support Crafts para personagens que não estão na party ativa (algo que seria carregado em iterações futuras), além de ataques como o Team Rush, que funcionam de forma similar aos Chain Crafts de Sky SC e são essencialmente o All-Out Attack do jogo em determinados momentos do combate.

Não diria que Zero é um jogo difícil se você estiver jogando numa dificuldade normal, mas também não é o tipo de RPG que você pode encarar sem preparo em um combate e achar que vai ter uma experiência fácil. Preste sempre atenção ao seu equipamento, Orbments e especialmente nos bônus que certas Arts e Crafts oferecem, sobretudo em momentos onde o jogo vai te colocar contra hordas de inimigos que, às vezes, conseguem se curar.
Mais suave do que o jazz de Crossbell
É necessário dizer que, apesar dos meus elogios a essa versão de Trails from Zero, ela não precisava necessariamente existir – mas que jogo precisa, não é mesmo?! Mas os maiores adicionais dessa versão são dois pontos que servem de base para o que irei comentar aqui:
- Relançamento nativo: ao invés de aproveitar a retrocompatibilidade de consoles como o Nintendo Switch 2 com o Nintendo Switch, ficou claro que o que a Falcom queria uma versão nativa dos jogos de Crossbell para essas plataformas mais poderosas.
- Correção principal: e por fim, creio que o maior motivo dessas versões em específico foi o seu lançamento em novos consoles anteriores ter vindo lotado de erros ou empecilhos gráficos que diminuíam um pouco a experiência final (para contexto, a versão de PS4 rodava numa resolução menor que a de Switch inicialmente).

Se essa proposta deu certo, porém, é uma questão complicada. Para todos os propósitos, não seria difícil pegar um jogo de PSP e dar um upscale nas texturas e taxa de quadros para rodar em 1080p – 120 fps, que foi a minha escolha em um modo portátil do Switch 2.
— Mas, como verão em um tópico posterior, esse upscale não veio sem seus problemas
No fim, acredito que essa versão da duologia Crossbell é mais do que bem-vinda, pois adiciona uma certa fluidez a certos momentos do jogo e não atrapalha aqueles que já eram fluidos no console anterior, sendo possível uma transferência de save logo de cara… aprende aí, Square!
Um agradecimento à Geofront
Eu queria dedicar uma parte do meu texto para falar da Geofront. Não estou me referindo ao sistema subterrâneo que conecta a cidade toda e que serve como uma rede de atalhos, filtração de água e esgoto (além de segredos revelados em Azure), mas sim à equipe de fanslation que foi responsável pela tradução por fãs da duologia Crossbell e que foi chamada para auxiliar a NIS America na localização OFICIAL dos dois games.
Fica bem claro que a equipe da Geofront possui um amor genuíno pela série Trails, e a forma como o jogo é localizado reflete isso, seja por coisas menores como o uso de termos que a franquia mudou de vez em quando. por conta da mudança de equipe de localização, ou pelo meu favorito: os textos em baús já abertos.
Para contexto, os baús abertos nos lançamentos japoneses da trilogia Sky e duologia Crossbell não possuem nenhuma informação ao interagirmos com eles novamente; no entanto, na versão em inglês da XSEED, esses baús carregam mensagens e piadas da equipe de localização, que dão um charme a mais ao jogo. E eu fico feliz de dizer que a Geofront conseguiu colocar este tipo de mensagem numa dose de fanservice ideal durante os diversos momentos onde achamos tesouros espalhados pelo mapa de Crossbell.

Queria também deixar aqui meus respeitos a Daniel Scott Tijerina (KillScottKill), um dos chefes na edição de toda a Geofront e que, embora tenha vivido o sonho de lançar uma localização oficial de uma franquia que adora, infelizmente veio a falecer pouco tempo depois do lançamento global de Zero. Que este segmento do meu texto sirva para continuar o legado de Scott, que, conforme ele mesmo diz, amava essa franquia que também viemos a adorar.
Empecilhos menores em nossa investigação

Infelizmente, como em tudo que analisamos aqui, é necessário apontar os pequenos detalhes que poderiam ser considerados os empecilhos finais do jogo. O equivalente a uma pedra nos sapatos de nossos adoráveis detetives da SSS, mas que, no fim, são só problemas bobos.
Para essa comparação, não irei mencionar que a narrativa “demorar para ficar boa”, pois é algo que já comentei antes, mas vale apontar que este é um jogo de Trails, e, a esse ponto, este é um aspecto que ainda prejudicava os primeiros jogos da franquia. Se você aguentou o começo do Sky original, essa reclamação vai parecer idiota, mas como muitos lendo aqui provavelmente vieram dos remakes, é um ponto válido a se apontar.
Minha reclamação maior é mais específica: o port do jogo é muito bom, e as opções gráficas ajudam na forma como eu escolhi jogar, mas notei que não importa a especificação gráfica que eu escolhesse, pois o jogo tinha sempre o mesmo problema onde certas texturas não eram carregadas em transições de cena ou sob o efeito de certas partículas, causando efeitos onde áreas inteiras – ou o próprio céu – ficariam negros.

É uma reclamação menor, e eu já sabia que bugs semelhantes a este já aconteciam na versão de Nintendo Switch lançada em 2022. É por isso que, no fim das contas, não acabo ligando muito para esses erros; apenas os aponto pelo seu aspecto não intencionalmente cômico.
Nos vemos novamente no Azul!
Uau, este texto foi provavelmente uma das minhas maiores reviews já escritas, se não acabar sendo a maior. Tudo isso é significativo de como Trails — em especial a duologia Crossbell — é importante para mim no sentido de que moldou os meus gostos e vontades quando pego um JRPG moderno.
Seguindo a premissa de um RPG policial que procede Sky the 3rd, Trails from Zero é uma iteração curiosa da série que vai ter seus fãs e haters, mas, em geral, é uma das joias da Falcom que, mesmo 16 anos após seu lançamento original no PSP, ainda pode ser apreciada por todos. Seus sistemas de gameplay, sua narrativa e (a maioria de) seus personagens conseguem emocionar e cativar aqueles que veem esta aventura.

Não gostou do jogo e quer reclamar com alguém? Acione a SSS!
Prós:
- Um dos melhores elencos da franquia Trails, assim como uma das melhores narrativas;
- Combate altamente viciante e fácil de entender;
- A ambientação contida de Crossbell deixa o jogo mais direto ao ponto;
- Dose certa de fanservice para a trilogia Sky.
Contras:
- Apesar de todas as qualidades na história, ela demora para engatar de fato;
- Erros visuais que ocorrem em pouquíssimos momentos.
Nota
9

