Todo ano, o The Game Awards reúne anúncios, celebridades e jogadores preparados para defender seu favorito como se estivessem disputando a final de um campeonato. Basta sair a lista de indicados para começar a discussão sobre quem merecia estar ali, quem ficou de fora e qual jogo foi parar na categoria errada.

Só que algumas situações vão além da velha briga pelo GOTY. Ao longo dos anos, a premiação acumulou indicações difíceis de explicar, resultados que ficaram para depois e momentos em que os próprios homenageados pareciam estar atrapalhando a programação.
Por isso, separamos cinco gafes e decisões controversas do evento, com duas menções honrosas e uma correção importante sobre uma polêmica bastante conhecida. Afinal, se é pra reclamar, pelo menos vamos reclamar da coisa certa.
Dave the Diver: indie por aparência?

Dave the Diver foi indicado a Melhor Jogo Independente em 2023. Até aí, olhando rapidamente para o visual em pixel art e a proposta de mergulhar durante o dia e administrar um restaurante à noite, muita gente provavelmente nem estranhou. O problema aparece quando você olha quem estava por trás do projeto.
O jogo foi desenvolvido pela Mintrocket, que naquela época funcionava dentro da Nexon. Ou seja, havia uma grande empresa por trás daquele jogo com carinha de produção independente. Em entrevista repercutida pelo AUTOMATON, o próprio diretor Jaeho Hwang afirmou que não considerava o projeto indie e explicou que a equipe não havia solicitado a indicação.
Isso também ajuda a separar as responsabilidades: o estúdio não precisou se inscrever e tentar convencer alguém de que era independente. A escolha veio do processo de indicação da premiação.
A discussão sobre o significado de “indie” pode render bastante, mas fica difícil defender uma classificação que nem o diretor do jogo reconhece. Pixel art é um estilo visual, não um comprovante de independência. Se fosse assim, bastava a Nintendo fazer um Mario em 2D e pronto, mais um pequeno desenvolvedor descoberto.
Megabonk e a estreia que já tinha acontecido

Se definir o que é independente já dá trabalho, identificar uma estreia deveria ser um pouco mais simples. Em 2025, porém, Megabonk apareceu entre os indicados a Melhor Estreia de Jogo Independente, e quem precisou apontar o problema foi o próprio desenvolvedor.
Conhecido como Vedinad, ele explicou publicamente que aquele não era seu primeiro jogo e pediu a retirada da indicação. A organização reconheceu a situação e removeu Megabonk da categoria.
O detalhe torna o caso especialmente curioso: o criador abriu mão de uma indicação porque sabia que ela não fazia sentido. É uma atitude correta da parte dele, mas também expõe uma falha na checagem de quem estava concorrendo.
Claro que corrigir o erro é melhor do que insistir nele. Ainda assim, quando o nome da categoria tem a palavra “estreia”, confirmar se o indicado está estreando parece uma boa ideia antes de divulgar a lista.
Parabéns pelo prêmio! Agora termina logo

Ganhar o principal prêmio da noite deveria garantir pelo menos um momento tranquilo para agradecer à equipe. No TGA de 2023, a pressa para encerrar os discursos virou uma das maiores críticas ao evento.
O exemplo mais desconfortável aconteceu durante a vitória de Baldur’s Gate 3 como Jogo do Ano. Enquanto Swen Vincke dedicava o prêmio a colegas que haviam falecido, o teleprompter já exibia um pedido para que ele encerrasse a fala. A situação foi registrada e repercutida após a transmissão.
Ao mesmo tempo, a cerimônia reservava espaço generoso para convidados e divulgação de projetos. Isso incomoda porque aquelas pessoas estavam ali para receber reconhecimento por anos de trabalho. Agradecer a quem participou disso deveria fazer parte da atração principal.
Depois, Geoff Keighley reconheceu que a música usada para apressar os discursos havia começado cedo demais e afirmou ter pedido à equipe que flexibilizasse o tempo. Isso é diferente de dizer que desligaram o microfone de Vincke, algo que não precisamos inventar para criticar a situação.
E honestamente, se o evento consegue encontrar tempo para mais um anúncio, deveria conseguir encontrar tempo para quem acabou de ganhar o prêmio mais importante da noite.
E o prêmio de Melhor Multiplayer vai para… depois a gente conta

Em 2017, o TGA conseguiu terminar a cerimônia sem anunciar o vencedor de Melhor Multiplayer. O prêmio era de PUBG, mas a confirmação ficou para depois do evento.
A PC Gamer registrou a ausência do resultado e atualizou a cobertura quando o vencedor foi confirmado. Geoff Keighley explicou que houve um atraso, contestando a ideia de que a categoria simplesmente tinha sido esquecida, e pediu desculpas.
A explicação importa, então vale ser preciso: o que podemos afirmar é que o resultado não foi anunciado durante a cerimônia. Já o motivo exato não deve virar uma certeza inventada só porque “esqueceram o prêmio” rende um título mais engraçado.
Mesmo com essa ressalva, a situação continua sendo uma gafe bastante direta. A premiação terminou, os indicados ficaram sem aquele momento e quem acompanhava precisou descobrir o vencedor depois. Imagina esperar a noite inteira para saber o resultado e receber basicamente um “voltamos já” que só termina com o evento encerrado.
Nintendo, pode? Era melhor ter perguntado antes

Em 2016, AM2R e Pokémon Uranium apareceram entre os indicados a Melhor Criação de Fãs. O primeiro recriava Metroid II, enquanto o segundo apresentava uma aventura de Pokémon feita por fãs. Os dois tinham chamado bastante atenção, mas acabaram retirados da lista antes da premiação.
Segundo a explicação de Geoff Keighley, repercutida pela GameSpot, o evento precisava da autorização dos detentores das propriedades intelectuais para incluir aqueles projetos, e essa autorização não foi obtida com a Nintendo.
A discussão sobre jogos de fãs e direitos autorais é bem maior do que essa lista. Aqui, a gafe está na ordem das coisas: os projetos foram anunciados como indicados antes de estar resolvida uma condição que a própria organização considerava necessária.
Para quem acompanhava, ficou aquela sequência maravilhosa de ser reconhecido e depois deixar de ser reconhecido na mesma edição. Se a participação dependia de autorização, esse detalhe precisava estar acertado antes de criar expectativa nos desenvolvedores e no público. A Nintendo não costuma ser exatamente uma surpresa nesse assunto, né?
Menções honrosas: ainda sobrou espaço no palco

O convidado que ninguém convidou
No encerramento do TGA de 2022, um intruso acompanhou a equipe de Elden Ring até o palco, permaneceu atrás dos vencedores e conseguiu usar o microfone depois do discurso. Sua fala envolvendo Bill Clinton rapidamente virou meme.
O episódio foi absurdo, mas o problema concreto estava na segurança. Uma pessoa que não fazia parte da equipe conseguiu chegar ao palco e intervir justamente no momento mais importante da noite. A piada se espalhou, só que a falha continua desconfortável quando você pensa no acesso que ele teve aos convidados.
MultiVersus e a segunda chance
MultiVersus venceu Melhor Jogo de Luta em 2022, quando estava em beta aberto, e voltou a ser indicado à mesma categoria em 2024, ano de seu lançamento completo. Dessa vez, quem levou o troféu foi Tekken 8. Portanto, foram duas indicações e uma vitória, não dois prêmios.
A situação chama atenção porque o mesmo título teve duas oportunidades na categoria. Porém, o TGA admite jogos em acesso antecipado e permite que títulos de anos anteriores sejam considerados novamente por conteúdo e melhorias relevantes. Cabe discutir se esses critérios são bons ou claros o suficiente, mas a repetição, sozinha, não comprova uma quebra das regras. Talvez a categoria precisasse de uma telinha de “continue?”.
Bônus: a DLC de Elden Ring não inventou essa história

A indicação de Elden Ring: Shadow of the Erdtree a Jogo do Ano em 2024 gerou uma discussão compreensível: uma expansão deveria disputar o prêmio principal com jogos completos? Só que, no meio dessa conversa, também aparece uma versão dos acontecimentos que precisa ser corrigida.
O TGA não criou uma categoria exclusiva de DLC para favorecer Elden Ring. A expansão concorreu nas categorias existentes, e expansões já tinham sido reconhecidas muito antes disso. Em 2016, The Witcher 3: Blood and Wine venceu Melhor RPG, como registra a própria CD Projekt.
Isso não encerra a discussão sobre o GOTY. Ganhar Melhor RPG e disputar Jogo do Ano são situações diferentes, e dá para defender que expansões deveriam ter um espaço próprio. O precedente só mostra que a presença de DLCs na premiação não começou com a FromSoftware.
Então, se a crítica é à possibilidade de uma expansão disputar o prêmio principal, temos assunto. Se a crítica depende de uma categoria inventada especialmente para ela, aí precisamos corrigir a história antes de continuar.
Pode tocar a música!
O The Game Awards tem espaço para celebrar jogos muito diferentes e dar visibilidade a quem trabalha neles. Justamente por isso, vale cobrar cuidado com os critérios, a conferência das indicações e o tempo dedicado aos vencedores.
É normal discordar de um resultado. O problema fica mais concreto quando um desenvolvedor precisa explicar que não está estreando, uma indicação desaparece por uma autorização que faltava ou o ganhador do GOTY precisa acelerar uma homenagem.
A gente pode continuar esperando anúncios e torcendo pelo favorito. Só seria legal se a parte de premiar os jogos recebesse o mesmo cuidado que o resto do espetáculo. E sim, eu não gosto de toda atenção que dão para os músicos ou atores que não tem participação direta sequer em algum jogo.
