Desenvolvedora:
Publicadora:
Lançamento:
Preço:
Formato:
Gênero:
Plataformas:
P-Studio
SEGA, ATLUS
23 de outubro, 2025
R$ 299,90
Físico (Game-Key Card)/Digital
RPG baseado em turnos | Social Sim
Nintendo Switch 2, PlayStation 5, PlayStation 4, Xbox Series X|S, Xbox One, PC
Desenvolvedora: P-Studio
Publicadora: ATLUS, SEGA
Gênero: RPG baseado em turnos | Social Sim
Data de lançamento: 23 de outubro, 2025
Preço: R$ 299,90
Formato: Físico (Game-Key Card)/Digital
Plataformas: Nintendo Switch 2, PlayStation 5, PlayStation 4, Xbox Series X|S, Xbox One, PC
Análise feita no Nintendo Switch 2 com cópia fornecida pela SEGA.
Revisão: Davi Sousa
Nascido como um derivado da franquia Shin Megami Tensei, da ATLUS, Persona conseguiu, ao longo dos anos, se tornar mais popular do que a franquia que o originou. Mais do que enfrentar monstros, demônios e perigos comuns em JRPGs, o fator social, ou seja, a dinâmica entre os personagens do jogo, tem um peso gigante tanto na narrativa quanto em sua gameplay.
Persona 3 foi lançado no já distante ano de 2006, para PlayStation 2. Segundo Christian Boltanski, não há progresso na arte. Ela é sempre uma reformulação de algo que existe, uma outra interpretação. Cultuado como um dos melhores jogos da série, em 2023, um remake do original chegou para os consoles atuais. Trata-se de Persona 3 Reload. Uma outra interpretação, que concentra tudo que foi aprendido nos últimos jogos da franquia e que chegou agora, no final de outubro, para o Nintendo Switch 2.
Escale o Tártaro
Na história, somos um jovem chamado Makoto Yuki, que se transferiu para a Escola Secundária Gekkoukan. Por conta de um atraso, o desembarque na Estação Iwatodai, em Tatsumi Port Island, acontece tarde da noite. Caixões aparecem espalhados por todos os lados. Sem compreender muito bem, nos dirigimos para o alojamento estudantil. Lá, encontramos uma criança misteriosa que nos faz assinar um contrato e desaparece. Logo em seguida, somos recebidos por Yukari Takeba e Mitsuru Kirijo, que nos acompanham até o quarto, mas não explicam o que está acontecendo.

Como de praxe nos jogos da série, o início é muito lento, nos apresentando, sem pressa, personagens, mecânicas e a própria história. Os antagonistas (Strega), os dramas dos heróis e a trama com um todo demoram a ser explicados. Tutoriais pipocam na tela mesmo depois de mais de 30h de jogo. Se aventurar por P3R requer paciência, mas é extremamente recompensador. Ainda no início, descobrimos que existem criaturas, chamadas de Sombras, que habitam uma torre conhecida como Tártaro. Algumas delas, à meia-noite, no horário conhecido como a Hora Sombria, conseguem escapar e ficam à espreita, afetando a saúde mental das pessoas.

Esse mal, que também pode funcionar como uma metáfora para transtornos mentais como depressão e ansiedade, é conhecido como Síndrome de Apatia. Aqueles que sofrem da síndrome são chamados de “Perdidos”. Para combater as Sombras, é reunido um seleto grupo de jovens, que passam a compor o Setor Especializado em Execução Supracurricular (SEES). Cada membro do SEES possui o dom de conjurar Personas, entidades que são o espelho da psique humana e representam o espírito de seu portador. A princípio, nossa missão é tentar diminuir ao máximo os casos de Síndrome de Apatia e, para isso, é necessário escalar o Tártaro para lutar contra as Sombras, fazendo uso das Personas.
O design minimalista, por assim dizer, do Tártaro destoa bastante do que é apresentado no resto do jogo. É até estranho um jogo visualmente tão bonito e estiloso não entregar uma identidade visual à altura, numa área tão importante para a história. A título de curiosidade, para quem jogou Persona 5, o Tártaro lembra bastante Mementos, apresentando a mesma estrutura labiríntica e procedural. Conforme progredimos, o visual até muda ligeiramente para nos dar certo senso de progressão, mas é tudo muito simples e nem de longe se compara aos Palácios de Persona 5.
Até o visual das Sombras, que podemos surpreender para o início do combate, é o mesmo. Quase todas as batalhas de Persona 3 Reload se passam neste local. É importante frisar o “quase”, porque mais pra frente algumas Sombras mais poderosas dão as caras em lugares diferentes, em noites de lua cheia.
A polêmica dos evocadores
Persona, em latim, quer dizer “máscara”. A sociedade é movida por valores, alheios à nossa vontade, que indicam o caminho que devemos seguir e ditam a nossa percepção de “certo” e “errado”. Para cada interação, para cada meio que frequentamos, fazemos uso de uma espécie de máscara social que permite nos encaixarmos. Na escola, nos portamos de um jeito, na igreja de outro, com os amigos somos uma pessoa, na frente de nossos pais, outra pessoa. No jogo, as Personas se manifestam quando o seu usuário se desgarra dessas máscaras sociais e se coloca frente a um perigo iminente.

Aí vêm um dos pontos mais polêmicos do jogo original e que foi mantido, para o bem ou para mal, em Persona 3 Reload. Para simular essa sensação de perigo e estresse, os personagens fazem uso de evocadores que se parecem com uma arma de fogo. Simbolicamente, para ativar a sua Persona, eles deliberadamente simulam um suicídio. Apesar do desconforto, pensei muito no sociólogo Èmile Durkheim e em sua tese de Suicídio Altruista quando me deparei com essa situação.
Nas minhas pesquisas para esse review, tentei encontrar, sem êxito, alguma declaração da ATLUS que corroborasse com meu pensamento. Em suma, o Suicídio Altruísta, segundo o sociólogo, acontece quando o indivíduo deseja se desfazer de sua vida em nome de um senso de dever social. Cada um dos personagens em P3R passou ou passa por dramas pessoais ligados à perda e parece não conseguir se encaixar socialmente. Conjurar suas Personas e desbravar o Tártaro é algo penoso, sacrificante. Ou seja, um sacrifício visando um bem maior.
Vínculos sociais e atributos
Um dos grandes méritos da série Persona é conciliar a história e o seu fator social com a gameplay. A nossa interação com os NPCs e personagens tem um motivo. Nada é ao acaso. Estreitar nossos laços através de vínculos sociais melhora nossas habilidades, atributos e desbloqueia novas Personas. Ao longo da aventura, diversos personagens cruzam o nosso caminho, com seus próprios dramas. Um casal de idosos com um apego incomum a um caquizeiro, uma menininha que está passando pelo divórcio dos pais, um empresário com problemas financeiros, as responsabilidades do Conselho Estudantil. Os diálogos são afiados e divertidos em diversos momentos.

Nesse sentido, as ações rotineiras (estudar, trabalhar, namorar, se divertir) são tão ou mais importantes do que a batalha contra as Sombras, no Tártaro. As Personas e esses vínculos são representados por cartas de tarô. Os vínculos, por estarem associados à nossa jornada e ao processo de transformação pessoal e social, são representados por Arcanos Maiores. Nossa interação com cada “social link” torna a experiência com o jogo ainda mais pessoal, fazendo de Persona 3 Reload, tal qual outros títulos da série, quase um slice of life. Particularmente, ri um bocado quando vi que o empresário Tanaka é representado pela carta do Diabo, que no tarô se liga a temas como vícios, obsessões e dependência.

Estabelecer alguns desses vínculos sociais e explorar de forma livre o mundo à nossa volta está ligado ao quão fortes estão alguns de nossos atributos. Eu não posso chegar numa menina se meu atributo de Charme denota timidez. Em P3R, esses atributos estão divididos em Charme, Coragem e Intelecto. Estudar melhora o nosso intelecto. Responder uma pergunta de forma correta em sala de aula chama a atenção dos colegas de classe pra gente, melhorando o Charme. Dormir no meio de uma aula chata de História requer Coragem. Esses são só alguns exemplos, mas o jogo te dá uma gama de situações para que você possa melhorar tais atributos.
A progressão de Persona 3 Reload é ditada, tal qual seus antecessores (ou sucessores, depende do ponto de vista), por um calendário. Na verdade, foi justamente Persona 3 que inaugurou isso. Durante boa parte do jogo, as nossas manhãs são passadas dentro de sala de aula, mas o que fazemos no período posterior à aula e à noite, cabe ao jogador decidir. Melhorar o vínculo social? Investir no aumento dos atributos? Desbravar o Tártaro? Todas as ações diárias precisam ser bem pensadas. Durante o dia, por exemplo, eu buscava melhorar os vínculos sociais; na primeira noite, escalava o Tártaro até onde desse e depois fazia atividades diversas para melhorar os atributos.
Os membros do SEES
O elenco conta com personagens variados e com personalidades bem distintas uns dos outros. Seja um bobo, mulherengo e atrapalhado, como Junpei Iori; um jovem órfão e aspirante a boxeador, como Akihiko Sanada; uma menina tímida que sofria bullying, como Fuuka Yamagishi; ou um cachorrinho fofo que perdeu seu antigo dono, como Koromaru. A forma como cada membro é selecionado e como eles abraçam a causa, sem maiores questionamentos, é o mais puro suco de videogame. A presença de alguns, no entanto, dada a forma como se evoca a Persona, me causou ainda mais desconforto.

De toda forma, as características de cada personagem é refletida em suas respectivas Personas e na forma como se portam em combate. Sem querer entrar muito em detalhes sobre a trama – para não estragar surpresas — todos carregam dramas pessoais e familiares que envolvem perda e aceitação. Em combate no Tártaro, a party pode ser composta por até quatro integrantes e um navegador. Quem assume o papel de navegador, no início, é a riquinha da família Kirijo, Mitsuru, mas logo Fuuka assume o comando de forma fixa. A exploração do Tártaro e o combate, inclusive, ganham novas camadas quando a personagem se junta ao grupo.

Todos os personagens conseguem controlar uma única Persona, mas Makoto, misteriosamente, consegue evocar vários. A quantidade que podemos carregar aumenta conforme subimos de nível. As cartas com novas Personas são adquiridas, ao final do combate, de forma aleatória. Eu não consigo ver isso com bons olhos, pois tira desnecessariamente o nosso poder de escolha. No entanto, essas cartas podem ser fundidas, dando origem a outras, com Igor e Elizabeth, na Sala de Veludo. Aliás, visitar a Sala de Veludo e desbloquear Personas mais poderosas é crucial para o sucesso de nossa missão. Se agarrar, de alguma forma, a certas Personas não é recomendado.
Essas cartas, representam Arcanos Menores, e podem garantir, além de novas Personas, um acréscimo de dinheiro, experiência, recuperação de pontos de vida (PV), entre outros, ao final do turno. Ao longo da exploração do Tártaro, cartas de Arcanos Maiores também podem aparecer ao final das batalhas. Elas podem ser acumuladas, garantindo melhorias especiais temporárias nos atributos da party, durante toda a atual run no Tártaro. Mas, assim que encerramos a exploração do dia por lá, elas perdem efeito e todo processo tem que ser começado do zero na próxima visita à torre das Sombras.
O sistema de batalha
O combate segue a clássica estrutura por turnos, comum em JRPGs, mas a fórmula criada e aperfeiçoada pela ATLUS torna Persona 3 Reload especial. Quem está habituado a outros títulos como Persona 5, Shin Megami Tensei V ou Metaphor ReFantazio irá se sentir em casa. As batalhas são fluidas, rápidas, inteligentes e, acima de tudo, performaticamente belas. Nada de abrir menu e submenu para decidir a próxima ação. Está tudo lá, estampado bem na nossa cara, ao apertar de um único botão no controle. As animações dos golpes de Teurgia, da evocação dos Personas e do Ataque Total, por exemplo, são belíssimas.

Compreender a fraqueza do inimigo e explorá-la é crucial para a vitória. Atingi-la garante que o turno continue do nosso lado. Nesse caso, ou podemos golpear mais uma vez ou passar o turno para alguém da party (Trocar) continuar atacando. Quando todos os inimigos são derrubados, podemos encerrar o turno com um Ataque Total, causando um dano extra em todos. É importante destacar que a mesma lógica de exploração de fraquezas se aplica aos nossos personagens. Portanto, a montagem da party e as nossas ações tem que levar em consideração não só as fraquezas dos inimigos, mas também as nossas.
Particularmente, sempre gostei de combates por turno em RPGs. Os títulos da Square Enix, por exemplo, sempre tiveram espaço cativo no meu coração, mas essa é uma experiência pessoal minha. Pelo que tenho visto, parece haver certa resistência por parte da comunidade a esse tipo de combate. O modelo ocidental, voltado para a ação, tal qual o visto em títulos como The Witcher 3: Wild Hunt, tem mais popularidade. É interessante ver argumentos que colocam Clair Obscur: Expedition 33 como o responsável por dar novo fôlego ao gênero no que tange ao combate por turnos. Digo isso porque o que o excelente título da Sandfall Interactive faz é replicar, à sua forma, os excelentes combates por turnos de títulos mais recentes da ATLUS.
Visual, trilha sonora e acessibilidade
Falar do quão bonito é Persona 3 Reload seria chover no molhado. Os cenários, os momentos de batalha e até mesmo os menus do jogo são lindíssimos. Praticamente todos os diálogos do jogo contam com dublagem e todo o conteúdo foi traduzido e localizado para o nosso idioma. Quer um energético? Tome um Red Boi! O port para o Nintendo Switch 2 está muito competente, rodando com uma resolução de 1080p a 30 fps. A sensação que fica é que dava pra melhorar o framerate e que faltou um pouco mais de empenho da ATLUS, até porque a versão de PlayStation 4 roda a 60 fps.

A trilha sonora, seja do alojamento, da escola, do Centro Comercial Iwatodai ou das batalhas, é simplesmente incrível. De você querer procurar na rede para montar uma playlist e ouvir quando não estiver jogando. Em particular, eu simplesmente amo Want To Be Close, que é a música tema que toca quando estamos na escola. As músicas de batalha, Its Going Down Now e Mass Destruction, também dão o ritmo e contagiam. Um espetáculo!
Persona 3 Reload é um dos JRPGs mais acessíveis da atualidade. Dentre tantos, o jogo facilita a nossa movimentação pelos cenários apresentando um mapa de fácil navegação; indica em qual lugar existem NPCs para aumentar o nosso vínculo social; indica mensagens, no celular, de estabelecimentos ou personagens, sugerindo ações com vistas a melhorar os nossos atributos; nos dá a opção de diminuir ou aumentar a dificuldade a qualquer momento; de retroceder um pouco no progresso caso tenhamos feito besteira; de acelerar as batalhas e diálogos; indica com o apertar de um botão a fraqueza do adversário; e já te mostra o golpe ou item que pode ser usado para explorá-la.
A força para lutar
Toda vez que um novo jogo da ATLUS é anunciado, é certeza de que o que será entregue é uma obra de grande qualidade.
O visual e as melodias de Persona 3 Reload são incríveis. A harmonia entre as lutas e os momentos de slice of life cadenciam a aventura sem torná-la enfadonha. A história se desenrola sem pressa, apresentando, no seu ritmo, não só os personagens que fazem parte do SEES, mas pessoas comuns e seus dramas. Pessoas que ajudam a construir uma grande teia de relações que impactam diretamente na missão dos jovens heróis. Não é só batalhar contra monstros: é criar laços! Pois são, justamente, esses laços que nos dão força para lutar.
Prós:
- Narrativa instigante;
- Direção de arte e trilha sonora incríveis;
- Sistema de batalha fluido;
- Dinâmicas sociais misturadas à gameplay;
- Localização em PT-BR.
Contras:
- Visual minimalista do Tártaro;
- Falta de sensibilidade com a forma que se evoca os Personas;
- Apesar de estável, a performance poderia ser melhor no Nintendo Switch 2.
Nota
8,5
- Review | Metroid Prime 4: Beyond – Nintendo Switch 2 Edition - 17/12/2025
- Review | Mortal Kombat: Legacy Kollection - 19/11/2025
- Review | Persona 3 Reload - 21/10/2025
