Desenvolvedora: Square Enix
Publicadora: Square Enix
Gênero: ADV | Mistério Sobrenatural
Data de lançamento: 19 de fevereiro, 2026
Preço: R$ 142,50
Formato: Digital
Plataformas: Nintendo Switch, PC, Android, iOS
Análise feita no Nintendo Switch com cópia fornecida gentilmente pela Square Enix.
Revisão: Lucas Barreto
Paranormasight: The Seven Mysteries of Honjo foi um jogo muito bem recebido quando lançado lá em 2023, tornando-se um herdeiro digno do legado de adventures da Square. Naturalmente, era de se esperar que o jogo recebesse uma sequência em algum momento, mas muita coisa na gestão da empresa mudou entre o lançamento do primeiro título e sua sequência.
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Quando a SquareEnix anunciou que estaria mudando o foco dos seus projetos para produções maiores, os fãs acabaram temendo por algumas séries que trabalhavam com orçamentos e equipes menores. Dado esse contexto, o anúncio repentino de uma nova entrada da série Paranormasight pegou todo mundo desprevenido, surpreendendo todos os fãs de maneira positiva.

Paranormasight: The Mermaid’s Curse traz de volta a mesma equipe responsável pelo jogo anterior, com Takanari Ishiyama na direção, Gen Kobayashi na arte e Hidenori Iwasaki na trilha sonora, o que com certeza contribui bastante para esse ar de familiaridade com o novo jogo.
Sereias, mistérios e maldições
The Mermaid’s Curse se passa na prefeitura de Mie, localizada na península de Shima, mais especificamente em uma ilha chamada Kamashima, que fica sob a administraçâo da cidade chamada Toba — alô, quinta série. A ilha é famosa por possuir uma cultura muito forte dedicada ao mergulho e à pesca, muito devido ao fato de que a cidade é banhada pela baía de Ise.
Por ser uma ilha pequena, com uma população de cerca de 900 moradores, parte de suas lendas são bem populares entre os habitantes que respeitam sua cultura e levam suas supertições bem a sério. No entanto, a região ainda guarda sua fatia de mistérios que foram esquecidos pelo tempo que a história voltará a trazer a tona.
O jogo nos apresenta logo de cara os personagens Yuza e seu melhor amigo Azami. Ambos estão em uma jornada pessoal de encontrar uma sereia que Yuza acredita estar relacionada com um desastre marímito que matou seus pais e diversos outros moradores da cidade, tendo deixado somente o garoto ainda bebê como sobrevivente. Os dois ainda vão acabar envolvendo suas amigas Tsukasa e Sato que estão também vivendo seus próprios dramas.

No entanto, não demora muito para ficar claro que os dois não são os únicos da península de Shima que estão atrás de uma sereia. Por diversos motivos, outros personagens irão surgindo como Arnav e Circe que estão em sua própria jornada pessoal, além de Yumeko e Sodo que viajaram até Toba para investigar acontecimentos sobrenaturais na região, como o aparecimento de um cadáver na praia.
A partir das perspectivas de Yuza, Sato, Yumeko e Arnav, o jogo vai desenrolar a suas histórias de maneira isolada mas que eventualmente vão trazer um ou outro personagem pra dentro de suas aventuras que vão desencadear no entendimento completo no grande mural de histórias que é Paranormasight: The Mermaid’s Curse.

O que há de novo e o que se manteve igual
Paranormasight: The Mermaid’s Curse não requer de forma alguma qualquer conhecimento prévio para o aproveitamento da história que aqui é contada. No entanto, o próprio jogo ainda sugere que o primeiro seja jogado antes, se possível, pois o título ainda guarda alguma surpresinha ou menção aqui e ali sobre acontecimentos do primeiro jogo, mas nada que seja lá de fato muito crucial.
No geral, diria que Paranormasight: The Mermaid’s Curse não reinventa muito a roda no quis diz respeito ao que já foi apresentado no primeiro jogo. Os pontos altos continuam sendo os mesmos assim como os pontos negativos. No risco de me tornar um tanto redundante, o jogo assim como o seu antecessor, ainda faz pouquíssimo uso de suas mecânicas de point and click focando muito mais no aspecto visual novel da coisa, avançando a sua narrativa de forma mais direta sendo necessário pouco input do jogador.

Desta forma, recomendo fortemente a leitura do review do primeiro jogo disponível aqui no site, visto que muito que foi descrito lá também se aplica a esse título em questão.
Ainda no que se refere ao que foi herdado do seu antecessor, The Mermaid’s Curse ainda opera com uma linguagem metanarrativa muito proeminente. Em diversos momentos, personagens da história vão notar a interferência do jogador em suas ações e brevemente isso volta a ser um ponto de discussão dentro da própria narrativa por si só.

Não só a questão metanarrativa como um todo, mas o fato de que The Mermaid’s Curse ser um videogame é crucial para a história do jogo. Pode não parecer claro desde o inicio mas algumas reviravoltas interessantes também só são possíveis por Paranormasight operar dentro das regras e linguagem de um videogame.
Assim como no primeiro jogo, The Mermaid’s Curse ainda tende a abordar alguns dos mesmos temas presentes em seu antecessor, como discussões sobre a mortalidade humana e obviamente ocultimo, com uma grande ênfase em lendas do folclore japonês.

Assim como no primeiro jogo, temos a volta de The Storyteller como sendo o guia do jogador nessa história. Além de funcionar como uma espécie de guia para essa narrativa não linear. Esse personagem misterioso ainda pode fornecer dicas e observações relevantes sobre a história, dando insights e foreshadowings. No geral, diria que o mesmo é tão importante quanto qualquer outro personagem que esteja dentro da história para a progressão narrativa, visto que os momentos em que aparece para interromper a história são de fato muito bons.
E nisto se dá um dos maiores trunfos de Paranormasight: The Mermaid’s Curse: a escrita do jogo mostra um alto nível de conhecimento e domínio do folclore e cultura não somente japonês, mas também traça paralelos com representações dos mesmos mitos e lendas no ocidente. Constantemente é discutido no jogo as diferenças entre sereias no ocidente e os diversos tipos que existem no oriente.

Uma verdadeira sequência dos sete mistérios de Honjo
The Mermaid’s Curse ainda assim funciona em cima do mesmo design narrativo de The Seven Misteries of Honjo. Temos diversos personagens com seus pontos de vista, e seguimos a história de cada um deles até certo ponto para, depois, alternamos para outro personagem, com esse novo pedaço da história estando localizado ou no passado ou no futuro daquele acontecimento que vimos a princípio.
Dessa forma o jogo segue uma narrativa completamente não linear e usa muito bem desse artificio para apresentar reviravoltas. No geral, esse vai e vem cronológico entre personagens é extremamente bem trabalhado e muito mais complementa a experiência do que a atrapalha, sendo este possívelmente o maior mérito do jogo. A forma como The Mermaid’s Curse lida com diversas histórias intercalando entre si, de maneira não cronológica com diversas ramificações que podem levar o jogador a resoluções diferentes requer um domínio do lore, personagens e da cronologia do jogo que é realmente digno de elogios.

Para que o jogador consiga acompanhar a progressão narrativa de maneira eficiente, o jogo possui um fluxograma que mostra detalhadamente onde cada capítulo de cada personagem se passa e onde está localizado na cronologia dos fatos. Em determinados momentos, algum capítulo vai aparecer em algum ponto do fluxograma, ainda que por vezes necessitará de alguns pré-requisitos para ser desbloqueado de fato — muitas vezes esses pré-requisitos são apenas conclusões de certos capítulos em específico.

Ainda assim, nem tudo são flores e vale ressaltar que nem sempre esse aspecto do jogo é muito bem utilizado. Em determinados momentos o jogo pareceu forçar demais essa mecânica, o que acabou muito mais atrapalhando a progressao narrativa do que acrescentando a ela de fato.
É difícil elaborar sobre esse aspecto do jogo sem dar spoilers, mas algumas vezes o mesmo usa de artifícios clichês para isso, como propositalmente não mostrar um diálogo entre personagens no momento em que estamos jogando para voltar a esse momento posteriormente — o que por si só não seria um problema se não fosse tão levianamente utilizado ao longo da aventura.

Ainda em relação à história e a forma em que ela é contada, eu diria que consigo identificar um outro ponto em que o jogo não foi tão bem executado quanto gostaria e isso diz respeito a uma das rotas em especifico, no caso a que se refere ao personagem Arnav.
Arnav é um dos personagens de ponto de vista e dentre os quatro é o mais deslocado de todos. Mesmo tendo um motivo plausível para ter se envolvido com a história, a maioria dos seus capítulos são puramente expositivos e com um desfecho bem cedo, muito antes do clímax do jogo.

O que é jogado ao mar uma hora volta à superfície
Nesses poucos dias que fiquei com Paranormasight: The Mermaid’s Curse eu devo dizer que eu o suguei com um canudo de milkshake a ponto de não conseguir parar de jogar até chegar na conclusão da história. Não somente porque eu tinha que fazer isso, mas porque eu quis. O jogo me deu motivos para continuar e me entregou uma experiência um pouco além do que eu esperava em um título do gênero.

No fim de todas as coisas, The Mermaid’s Curse é uma grandiosa história sobre pertencimento, finitude da vida e encontrar o seu lugar no mundo que é extemamente fácil recomendar pra qualquer fã de adventures e uma boa história de suspense.
Prós:
- História extremamente sensível e emocionante para um adventure de mistério sobrenatural;
- Grande elenco de personagens com personalidades diferentes que criam dinâmicas interessantes;
- História muito bem trabalhada, amarrando bem todas as suas rotas e ramificações com maestria;
- Mecânicamente simples, porém eficaz.
Contras:
- O jogo nem sempre lida bem com o vai e vem da cronologia e por vezes fica parecendo forçado;
- A rota do Arnav termina de maneira abrupta, com um arco insatisfatório, operando com muitos diálogos expositivos;
- Não evolui muito mecânicamente em relação ao primeiro jogo.
Nota
9

