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Revisão: Lucas Ferreira
Aqueles que começaram a acompanhar lançamentos mais nichados de mídia de jogos recentemente podem não perceber a mudança cultural que foi a virada da década dos 2000 para os 2010; a princípio, tinhamos o início da ascensão de popularidade do mercado ocidental e um certo preconceito com os jogos orientais, para que na década seguinte, tal estigma aos poucos tenha sido quebrado. E é estranho falar isso em uma época onde recebemos tantos lançamentos que vem localizados no ocidente, mas nem sempre essa foi a realidade nessas regiões.
De casos clássicos como a recusa de uma localização para Mother 3, a uma certa teimosia em adaptar a versão europeia de alguns jogos para o ocidente, os anos 2000 foram lotados de problemas no lançamento de jogos para o ocidente. Foi na virada da década que o movimento Operation Rainfall exemplificou melhor do que qualquer um o problema que era a falta de localização de certos jogos.
Fundada em 2011, a Operation Rainfall tinha como objetivo fazer a Nintendo e outras companhias japonesas darem atenção a alguns lançamentos do Nintendo Wii que ainda não haviam sido localizados. Neste texto, exploraremos cada um dos lançamentos, o impacto que eles tiveram, a importância da Operation Rainfall nisso, e claro, o legado desse movimento para a indústria e as traduções de jogos.
Então peguem seus guarda-chuvas, porque a chuva não para de cair por aqui.
Os inícios de um movimento
“No início, dois titãs vieram a existência e se travaram em uma batalha interminável, até no fim, apenas seus corpos sem vida sobrarem”; essa era a premissa de Monado: Beginning of the World da Monolith Soft, anunciado na E3 de 2009 e que eventualmente seria lançado sob outro título: Xenoblade Chronicles! No entanto, apesar de ser anunciado em um evento estadunidense e gerar curiosidade genuína de muitos, o jogo não parecia ter planos de ser localizado pela Nintendo of America, o que causou estranheza de certos fãs da empresa.
Tal estranheza ficou ainda mais evidente em janeiro de 2011, com o lançamento de The Last Story, um RPG de ação dirigido pelo criador de Final Fantasy, desenvolvido pela Mistwalker e publicado pela Nintendo, quase um ano após o lançamento japonês de Xenoblade Chronicles, em 10 de junho de 2010. Apesar do apelo crítico de sucesso do jogo e um lançamento decente, a Nintendo of America continuava sem planos para localização deste jogo ou de Xenoblade, mesmo ambos já tendo planos de um lançamento europeu – pontos para o Satoru Shibata nessa.
A ideia de um movimento já se formava, mas a gota d’água veio com Pandora’s Tower, outro RPG de ação, dessa vez desenvolvido pela Ganbarion (Jump Ultimate Stars) e também publicado pela Nintendo no Japão. Mais uma vez, um jogo japonês lançado com um sucesso crítico considerável, mas que ficou de fora do ocidente devido a uma certa hesitação da Nintendo of America para a localização.


E foi neste contexto, somado às intervenções da Nintendo of America contra tentativas da Nintendo of Europe de promover Xenoblade em E3 futuras, que um grupo de fãs resolveu se juntar com uma estratégia: uma chuva de reclamações e pedidos que poderia quebrar o silêncio que a Nintendo guardava sobre esses três JRPGs de sucesso. Oficialmente formada em junho de 2011, a Operation Rainfall já começava a caminhar com um objetivo em mãos.
Em homenagem ao movimento, este texto estará saindo no mês que o mesmo completa 15 anos!
A estranha história de RPGs japoneses no ocidente
A transição dos jogos entre os anos ’90 para os 2000 foi relativamente acelerada em termos de qualidade gráfica, mas ouve também uma virada cultural. Enquanto nos anos ’90, era possível ver uma certa apreciação por RPGs japoneses e jogos similares, – exemplos clássicos sendo Chrono Trigger e Final Fantasy VII da Squaresoft, mas que também poderiam incluir jogos como a série Mana ou Breath of Fire – na virada do século, a cultura de jogos e o público que os consumiam mudaram drasticamente.
Nos anos 2000, os jovens dos anos ’90 que cresceram passaram a consumir outros tipos de conteúdo; o que não é ruim por si só, mas acabou criando um tipo de problema que ficaria evidente com o passar dos anos: um desgosto para qualquer coisa que pudesse parecer “anime demais”. Exemplos clássicos disso envolvem a reação inicial que The Legend of Zelda: The Wind Waker teve, assim como algumas reviews ocidentais que não tinham medo de entrarem em tópicos… estranhos.

Obviamente não estou dizendo que foram estes os motivos pelos quais a Nintendo resolveu não localizar os jogos mencionados antes, porém ainda é um ponto válido a se apontar, pois a forma que a mídia ocidental no geral enxergava estes RPGs japoneses era muito diferente da visão de hoje. Quando até Naoki Yoshida, o diretor de Final Fantasy XIV e XVI, diz que vê o termo ”JRPG” como uma diminuição do que os jogos são, você percebe que isso é algo que os desenvolvedores e artistas japoneses precisaram lidar por um tempo.
Esse foi apenas um dos vários motivos de porque o movimento da Operation Rainfall precisava sair da teoria e virar realidade, e a forma que eles fizeram isso foi muito interessante!
Vocês saberão nossos nomes
Retornando aos inícios do grupo da Operation Rainfall, com um movimento de fãs iniciado, eles precisavam de muitas coisas para que o plano desse certo, mas o ponto principal deles era um: o reconhecimento. Era necessário que pelo menos alguma empresa grande que pudesse localizar os JRPGs solicitados entendesse que existia uma demanda para esses jogos, então dezenas de e-mails foram enviados para muitas empresas, com algumas mais notavelmente servindo de exemplo aqui:
- A própria Nintendo;
- A XSeed Games;
- A Aksys Games;
- A NIS America;
- E até a Atlus, já que na época ela localizava jogos.
Após a primeira etapa de “chuva” de pedidos e reclamações diversas, os participantes do movimento também fizeram algumas ações que serviram para demonstrar não apenas o interesse pelos jogos, mas uma disponibilidade genuína de os adquirir, ao comprar versões japonesas ou europeias de Xenoblade ou The Last Story – que infelizmente não podiam ser jogados devido a trava de região do Wii, mesmo com uma versão “localizada” – e também aderindo a múltiplos abaixo-assinados. O objetivo final era alcançar a localização de alguns desses jogos até o fim de 2012, data que era a “última esperança” de alguns deles, já que o Nintendo Wii seria descontinuado a favor do Wii U, próximo console a ser lançado.
Embora certas empresas se recusassem a mencionar o movimento por nome, a Nintendo reconheceu que alguns dos jogos tinham uma “base vocal” querendo os jogar, com até Reggie Fils-Aimé, presidente da Nintendo of America na época, se impressionando com os abaixo-assinados que haviam alcançado milhares de assinaturas. Sua hesitação em prosseguir com a localização de Xenoblade ainda era evidente, no entanto, com um comentário que ele soltou posteriormente explicando a situação:
“Eu queria trazer Xenoblade para cá. O problema era, quanto de esforço teríamos na localização? Quantas unidades venderíamos, ou se faríamos algum lucro? Nós estávamos tendo este debate enquanto a Operation Rainfall estava rolando; estávamos cientes de que havia interesse no jogo, mas tínhamos que garantir que era uma proposta financeira que tinha certa força…
Eu sou pago para garantir que estaremos seguindo com os negócios adiante – para que vocês entendam a decisão, mas no fim, precisamos fazer o que é melhor para a empresa. O que sabemos [sobre petições] é que 100.000 assinaturas nem sempre significam 100.000 cópias vendidas” ~ Reggie em uma entrevista com a SiliconEra em 2013, refletindo sobre como a Operation Rainfall “não afetou” a decisão de localizar os jogos.
No fim, após quase dois anos de incerteza, Xenoblade Chronicles enfim chegou aos territórios estadunidenses – com um acordo péssimo e limitado pela GameStop, devo acrescentar – em 2012, com localização da própria Nintendo. Já The Last Story e Pandora’s Tower foram localizados depois, mas com uma localização que veio pela XSeed Games, com o caso de Pandora’s Tower sendo lançado após o lançamento do Wii U, o que pode ter prejudicado ainda mais as possíveis vendas do jogo.
De quem foi a culpa?
Por mais que eu queira apontar dedos e falar que o motivo por qual quase não tivemos a minha atual franquia favorita da Nintendo no ocidente foi culpa de alguém em específico (olhando para ti, Reggie, até hoje está devendo o Mother 3), a razão pela falta de localização dos jogos que a Operation Rainfall pedia variava de múltiplas justificativas, desde a própria questão econômica que o Reggie citou, até o fator do Wii já ser um console “morto” que teve uma freada brusca nas vendas de hardware e software.
Há também a questão dos JRPGs da época não terem o “boom” que tiveram de uns anos para cá, com as pessoas que jogavam este tipo de jogo sendo uma minoria ainda menor do que já é hoje; são fatores pequenos, mas que nos fazem entender porque muitos jogos japoneses da época não tiveram uma localização. A Nintendo era de longe a companhia que menos trouxe os jogos para o ocidente. A Nihon Falcom teve jogos naquele período que só seriam localizados anos depois, como Trails from Zero ou Ys vs. Trails, para dar um exemplo melhor – o que é impressionante, já que toda a trilogia Sky havia chegado ao ocidente.
No fim, esta soma de fatores fez com que muitas empresas hesitassem em localizar jogos “japoneses demais”, e por isso é um alívio ver que hoje em dia esse preconceito é algo que diminuiu, embora ainda ajam ocasiões…
— Cadê Bar Stella Abyss, NIS America?
Legado & Despedida
Atualmente mais JRPGs estão chegando às plataformas da Nintendo do que nunca, e o objetivo original da Operation Rainfall foi concluído, então o que aconteceu com eles? Eles não ironicamente tiveram um final feliz: o site da campanha se tornou um portal de notícias não muito diferente do nosso NintendoBoy, continuando com uma audiência de nicho, mas trazendo notícias sobre jogos japoneses e afins constantemente, até tendo um perfil de crítico oficial no OpenCritic para as reviews deles (vocês sabiam que o NintendoBoy está no OpenCritic também?).
Tendo sido responsáveis por uma das campanhas centrais por trás da localização de jogos japoneses e testemunhando até jogos vindo para o Ocidente que membros pediam, mas não faziam parte da campanha, como Fatal Frame IV, eu diria que as pessoas por trás da Operation Rainfall tiveram um final perfeito, com um legado que irá perdurar enquanto a franquia Xenoblade, que quase ficou sem localização, continuar sendo lançada por aqui…
E para encerrar por completo, fiquem com o hino do movimento que eu achei nas minhas pesquisas online sobre o assunto. É um tanto “cringe”, mas é engraçado justamente por isso:
“So we’ll wait day and night for Pandora’s tower,
They’ve got the games, but we’ve got the power!
Another game we want, it’s name is Xenoblade.Until we win, let our messages cascade!
We resolve to fight, we’re bound for glory.We won’t stop until we hold The Last Story”
