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Revisão: Davi Sousa
A nossa capacidade de expressão, verbal ou não verbal, é algo singular no processo de comunicação. A linguagem, segundo o linguista francês Emile Benveniste, em seu estudo Da subjetividade na linguagem, “ensina a própria definição do homem”. Já o filósofo alemão Martin Heidegger – longe de atribuir juízo sobre o seu posicionamento político -, em seu livro O Ser e o Tempo, diz que a linguagem “é a casa do Ser”. Mais singular ainda é a sonorização da linguagem através da arte sonora: a música.
O compositor e teórico musical italiano Paschoal Bona vê a música como “a arte de manifestar os diversos afetos de nossa alma mediante o som”. O homem sempre enxergou a melodia como uma dádiva. Eram usadas em rituais diversos como nascimento, casamento e morte. Na Antiguidade, ela era vista como uma maneira das pessoas se sentirem mais próximas das divindades que veneravam, tamanha sua relevância no imaginário social e coletivo. Com ela, podemos inserir discursos, definir pensamentos, imprimir uma ideia.
A transformação da linguagem

Em muitos casos, a transformação da linguagem em melodia adquire fins pedagógicos, já que ela facilita a absorção de uma ideia que se deseja transmitir. Diversos grupos humanos, através da tradição oral, buscavam recitar ou cantar suas narrativas para facilitar a assimilação e transmitir o seu conhecimento e cultura para gerações futuras. Grandes obras da literatura, que engrandeciam os feitos de um povo ou civilização, eram poemas, como é o caso de obras como as de Homero (A Ilíada e A Odisséia) ou Luís de Camões (Os Lusíadas).
Podemos encarar essa transformação, então, como uma ferramenta que facilita a absorção de uma ideia que se deseja transmitir. Para João P. Furtado, “a música (…) pode ser considerada um objeto interessante (…) por seu grande alcance junto a largas camadas da população e por sua inerente capacidade de despertar, o que não é prerrogativa exclusiva sua, emoções e sentimentos que agregam afetiva e momentaneamente que não se conhecem por vínculo direto” (FURTADO, 1997, p.124-5). Ela é capaz de despertar, em pessoas distintas, se não o mesmo sentimento, algo muito parecido, tornando esse tipo de linguagem quase que universal.
Ditando o ritmo de uma obra

Em mídias como o cinema e os videogames, as músicas dão o tom daquilo que devemos sentir. Ela dita o ritmo da obra e nos transporta para àquele mundo fictício, agregando um peso gigantesco ao senso de imersão que é construído. Em Child of Light, por exemplo, toda a narrativa é transmitida não em prosa, mas em poesia, enriquecendo a sensação de estarmos jogando um conto de fadas interativo, tornando a experiência memorável. A trilha sonora de títulos como Halo, Super Mario, God of War, The Last of Us, NieR Automata, Xenoblade, Persona e tantos outros é indissociável de suas obras. Ela ajuda, acima de tudo, a construir a sua identidade. As composições estabelecem um fio narrativo, criam a atmosfera e ajudam a contar a história.
Boa parte do impacto emocional da trama sobre vida, morte e luto de Clair Obscur: Expedition 33 se dá por conta da sua excelente trilha sonora. O ritmo das batalhas em Persona 3 é ditado por Mass Destruction e It’s Going Down Now. O clima sombrio, mas ao mesmo tempo esperançoso de Ori and the Blind Forrest e Ori and the Will of the Wisps é potencializado por sua composição orquestrada. O tema de abertura de Xenoblade Chronicles é um prelúdio de sua grandiosa aventura. Uma boa obra está, portanto, diametralmente associada a uma boa trilha sonora, e isso até mesmo nas ausências. A timidez da trilha de The Legend of Zelda: Breath of the Wild tem um sentido narrativo.

A inocência dos pacíficos robôs que tentavam imitar o comportamento humano, em NiEr Automata, é representada pela música tema da vila de Pascal. A cavalgada final, de Arthur Morgan, para o derradeiro desafio em Red Dead Redemption 2, embalado por Unshaken, já nos prepara para o triste destino do carismático protagonista. Toda trilha sonora de Alan Wake é incrível! Em especial, no segundo jogo, Dark Ocean Summoning, de Old Gods of Asgard, é responsável por uma das experiências mais marcantes nesse tipo de mídia, mesclando a gameplay à cenas em live action. Ainda falando da Remedy – empresa que desenvolveu Alan Wake – a memorável última missão de Control não seria a mesma sem a música Take Control.
A música é parte integrante de nossas vidas e, acima de qualquer coisa, evoca memórias. Não raro, ao ouvirmos certas composições, somos transportados para um momento específico, seja ele bom ou ruim. Lembro, por exemplo, do quão impactado fiquei com as composições das cenas introdutórias de Silent Hill e Chrono Cross. De ser transportado para a casa do meu colega de infância toda vez que ouço os temas de Guile ou Ken de Street Fighter 2. De como Zelda’s Lullaby me leva para o dia em que joguei, com um dos meus melhores amigos, The Legend of Zelda: Ocarina of Time pela primeira vez. E de como a melancolia de Balamb Garden, de Final Fantasy VIII, me faz lembrar das partidas com meu irmão na casa dos nossos pais.
Um elo emocional
Segundo Lucía Amoruso, “a música tem a capacidade dupla de criar e recuperar memórias dentro do cérebro humano” (https://www.bbc.com/portuguese/geral-55038885). Para além de seu enorme poder discursivo – na medida que pode definir pensamentos e imprimir uma ideia -, ela impacta, portanto, na construção de memórias. Nos jogos, sua contribuição comunicacional, no que se refere à transmissão da história, é inegável. Há ainda um processo dialético: ela dita a identidade de uma obra, mas, ao mesmo tempo, ajuda a construir a nossa própria identidade. Acima de tudo, as melodias ajudam a criar na gente uma espécie de elo emocional com o título que estamos jogando. E é esse elo que torna as experiências com essas obras tão marcantes.
BENVENISTE, Emile. Da subjetividade na linguagem
BONA, Paschoal. Método Completo de divisão Musical.
FURTADO, João P. A música popular brasileira dos anos 60 aos 90: apontamentos para o estudo das relações entre linguagem e prática social.
HEIDEGGER, Martin. O ser o Tempo.
