Desenvolvedora: Studio Coattails, Salty Salty Studios
Publicadora: refint/games
Gênero: Visual Novel | Romance
Data de lançamento: 17 de setembro de 2026
Preço: R$ 67,99
Formato: Digital
Plataformas: Nintendo Switch 2, Nintendo Switch, PlayStation 5, PlayStation 4, PC
Análise feita no Nintendo Switch 2 com cópia fornecida gentilmente pela refint/games.
Revisão: Davi Sousa
Twofold é o exemplo perfeito de como, em uma visual novel de romance, podemos entrelaçar as rotas para multiplicar as partes ao invés de uma simples soma, onde cada rota expande um pouco a visão geral da foto ou algo assim.
Aqui, somos colocados na pele de Olive Penn, estudante não binário que está passando por um terrível dilema em sua vida acadêmica. Após falhar em uma das matérias obrigatórias de sua grade, Olive precisa escolher uma eletiva que seja capaz de enfrentar para conseguir os créditos para avançar de semestre. As opções? Artes visuais e escrita criativa, dois cursos que fogem do que é conhecido e entram num escopo subjetivo, algo com que Olive não está habituade a lidar.
Precisando desesperadamente de ajuda, Olive decide… ou melhor, é coagide a escolher entre os clubes responsáveis pelas duas matérias, cada um com seu representante: Caprice no lado das artes visuais e Millie na parte da escrita criativa.
Olive deve decidir por qual via vai abordar esse problema a partir disso, enquanto se posiciona em uma estranha rixa entre os dois clubes, que acaba se projetando em sua decisão.
Particularmente, optei pelo curso e clube de escrita criativa, a rota da Millie, tanto porque é um tema que me interessa mais, quanto porque achei a garota mais interessante logo de início, mas vamos falar mais de cada uma delas.
Millie vs. Caprice

Eu poderia dizer algo como “uma é introvertida e a outra é perfeitinha”, ou até tentar procurar na vasta lista de possibilidades os títulos que usamos para tropos de otome games, que estou relativamente acostumado a usar; isso dito, essas personagens são complexas demais e fazer isso seria um reducionismo.
Começando pela Millie. Ela é doce e sensível, e sua fachada centrada e organizada se dá mais pela paixão dela pela escrita do que por sua postura com as responsabilidades por si só. Ela é bastante boa em se deixar levar por hábitos duvidosos; quando Olive a conhece, rapidamente a identifica como uma tutora capaz e habilidosa, mas, mais do que isso, como alguém que sempre está carregando mais do que pode com uma força imparável e um calor contagiante.

Já quando falamos de Caprice, temos uma garota extrovertida e genial, cheia de boas intenções e com o coração puro, mas que está o tempo todo transbordando. Não falta inspiração ao lado dela, e não existe um momento de tédio. Sua assertividade é impressionante mesmo nos momentos mais delicados, e sua paixão pelas coisas amarra toda a história.
Notem que aqui não temos uma garota mais sombria e séria especificamente. Embora de longe a Millie possa parecer mais distante, ela só tem mais postura, por assim dizer, mas as duas são energéticas, cativantes e cheias de vida, possuindo uma doçura que as tornam muito apaixonantes no sentido mais literal. Ou seja, em resumo, não tem escolha certa, e eu me apaixonei profundamente pelas duas, desejando estar no lugar de Olive, mas sabendo que jamais poderia, justamente porque essa história não poderia existir sem elu. E falando nisso…
Olive Penn

Olive é uma pessoa bastante tímida, do tipo que atravessa a rua quando vê um conhecido e cuida da própria vida, tendo apenas um objetivo: aliviar a carga da sua mãe que é garçonete em uma lanchonete.
Todo o ponto do início dessa história está na vontade de Olive de não atrasar a faculdade para não gerar ainda mais despesas para ambos, sua mãe e elu, mas a questão é justamente que esse foi um personagem que me pegou muito desprevenido. Sua maneira de pensar é complexa e as atitudes refletem isso o tempo todo. Como elu enxerga os problemas é bastante tridimensional, e elu também tem a humildade de enxergar com clareza quando deve ou não meter a mão em algo que não é sobre elu.
Isso é central para essa história. O jeito expansivo de Caprice coloca muitas coisas em cheque, e o jeito mais retraído e polido da Millie faz com que ela fique estagnada quando as coisas não estão bem, mas, apesar de tudo isso, a narrativa coloca Olive em um lugar que deixa bem claro que não cabe a elu resolver esses problemas. É bem difícil fazer isso com um protagonista sem torná-lo sonso, e nesse caso eles cumprem essa tarefa com perfeição ao colocar Olive no centro da disputa.
Não é um triângulo amoroso; a briga e a disputa desses personagens não é tão simples, mas prefiro evitar spoilers para além disso. Estou só ressaltando o quanto Olive é bem posicionade na narrativa.
Isso dito, é preciso ter paciência. Olive é uma pessoa sensível e atenciosa, mas facilmente sobrecarregada, com medo de agir e ser um incômodo, com medo de salas cheias, multidões, entre outras coisas, e eu sei que isso pode assustar alguns neurotípicos, mas juro que elu é tremendamente coerente e uma boa pessoa quando você dá a chance de conhecer.

O jogo ainda tem um cast secundário de personagens. A maioria deles não chamou muito minha atenção, mas são todos bem gostáveis. Até mesmo a Heather, que é uma espécie de garota má, ganhou meu coração, rapidamente demonstrando a complexidade necessária.
Romance e narrativa

Twofold não é ou tenta ser o auge do fanservice. O núcleo dessa história é a relação forte e genuína construída entre os personagens, o que, para mim, tem muito mais apelo, diga se de passagem. O devido tempo deve ser dado para tal, e embora o romance seja central para a história, é muito mais sobre como essas pessoas existem e se relacionam no meio e com o mundo, como elas amam, o que elas temem, etc.
Durante a minha jogatina, fiquei genuinamente deslumbrado por como esse romance é construído de forma delicada e apaixonante. Não são os grandes atos de amor e loucura; são o companheirismo, amizade e cuidado que elevam a jornada desses personagens ao próximo patamar.
A narrativa principal e o romance só funcionam por quão humanas são essas personagens. Suas inseguranças e desejos ressoam com muita força e são intoxicantes, bem como é esperado de uma obra feita por uma produtora de obras yuri, ou sáficas.
E a neve começa a cair

Em apresentação, Twofold também é deslumbrante. Sua arte é carregada de personalidade, a trilha sonora é cativante e atmosférica, a história tem um clima de inverno encantador e extrai o melhor disso. As noites etéreas de inverno e o ambiente opressor que abre as pessoas através da pressão para erupções emocionais ainda mais profundas colocam a experiência num nível de imersão difícil de atingir.
O jogo te dá diferentes opções de texto, controles de volume robustos e múltiplos saves, e tem como único defeito o menu que é um pouco lentinho de navegar, mas definitivamente nada que atrapalhe a experiência.
As músicas realmente merecem mais uma menção separada do resto das alternativas artísticas. Elas são perfeitas para ilustrar esse mundo frio e tenro ao mesmo tempo, são sofisticadas e interessantes. Mesmo que não sejam as composições mais ousadas do século, são perfeitas para este jogo.
First Snow
Junto da história principal, tive o prazer de imergir na spin off que antecede a trama de Twofold. First Snow acompanha a história de Allison e Eileen, um casal que faz parte do clube de arte no jogo principal. Aqui, temos a chance de ver como tudo foi parar lá; não só o romance entre as duas, mas também o clube de arte chefiado pela Caprice, que é formado justamente durante essa história.
Allison é parecida e oposta a Olive ao mesmo tempo. Embora ambas sejam igualmente tímidas e tenham dificuldade de se aproximar, Allison trata isso de forma mais delicada e parece ter uma barreira acima de qualquer coisa, enquanto Olive é mais proativa nas outras áreas da vida, preferindo a solidão em seu primeiro momento pelo trabalho que dá se relacionar e pelo foco em seus objetivos.
Aqui, temos uma dupla um pouco mais convencional, mas não menos complexa ou charmosa. Allison é uma princesa que sente falta da família, enquanto Eileen é uma tomboy de peso obstinada e loba solitária; ou seja, um caso clássico e muito saboroso de sapatão e sapatilha.
First Snow herda a energia do inverno e tem novas artes belíssimas, mas as mesmas músicas do jogo original, o que não é um problema, pois elas já são ótimas!
A qualidade de escrita, ritmo das coisas e relação entre as personagens, tudo é construído com o mesmo carinho do jogo original, e a única coisa que joga contra é que eu fiquei com a sensação que as letras são um pouco menores na prequel, mas isso fica pelo menu que aqui carrega mais rápido.
Sáficas com local

Twofold definitivamente ganhou um merecido espaço no meu coração, se tornando talvez minha visual novel favorita. Sua prequel não teve tanta força quanto, mas conseguiu chegar bem perto, e foi perfeita para lidar com aquele gostinho de quero mais.
Se você quer se apaixonar como se apaixona na vida real e viver o crescimento dos personagens e casais de uma história humana e inspirada sobre família, sonhos e juventude, você acabou de encontrar a joia do século.
Prós:
- Excelente ritmo de leitura;
- Apresentação cheia de carisma;
- Personagens redondinhas.
Contras:
- Gostaria de poder aumentar a fonte do texto no prequel.
Nota
10
