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Desenvolvedora: Drecom, SuperNiche
Publicadora: Arc System Works
Gênero: RPG de estratégia
Data de lançamento: 21 de outubro de 2026
Preço: R$ 249,90
Formato: Físico/Digital
Plataformas: Nintendo Switch, PlayStation 5, PC
Análise feita no Nintendo Switch com cópia fornecida gentilmente pela Arc System Works.
Revisão: Lucas Barreto
Em ‘Demons’ Night Fever’, conhecemos uma Terra alternativa onde Giga Super Deathums, o mais perverso dos demônios, estava prestes a matar Deus quando foi transformado em um bebê indefeso. Para contornar essa pequena inconveniência, ele ativa seu programa de ressurreição, DEMONS’ NIGHT FEVER, e acaba invocando Killshiro Katanaka, um jovem de 29 anos, virgem, frustrado com a própria vida e com um emprego corporativo miserável.
Com interesses alinhados, os dois firmam um pacto para conquistar a humanidade. Mas não se trata de destruir o mundo: o objetivo é reorganizá-lo e governá-lo por meio do terror. É uma premissa absurda, provocativa e que deixa bem claro que estamos diante de um RPG tático que não tem a menor intenção de jogar pelas regras convencionais.
O prazer de ser o vilão
A grande sacada de Demons’ Night Fever é colocar você no papel de um verdadeiro mestre do mal. Em vez de proteger seus companheiros a todo custo, você é incentivado a sacrificar seus próprios subordinados para conquistar a vitória.
O combate gira em torno de decisões estratégicas que envolvem usar seus peões como recursos descartáveis, explorar suas habilidades e encontrar maneiras cada vez mais cruéis de derrotar os inimigos. E, por mais que essa proposta possa parecer desagradável em outros jogos, aqui ela é justamente o que torna a experiência tão divertida. Afinal, quantos RPGs táticos permitem que você trate o próprio exército como um arsenal de armas suicidas?

As Kill Skills de Killshiro são um dos melhores exemplos de como a jogabilidade conversa diretamente com a personalidade do protagonista. Você pode explodir seus subordinados como homens-bomba, absorvê-los para recuperar pontos de vida ou até se teletransportar trocando de lugar com eles.
São habilidades que incentivam o jogador a pensar estrategicamente sobre o posicionamento das unidades e, ao mesmo tempo, reforçam a natureza egoísta e cruel do personagem. O resultado é um sistema de combate que consegue ser mecanicamente interessante e tematicamente coerente. Sacrificar seus peões não é apenas uma possibilidade: é parte fundamental da identidade do jogo.

Fora das batalhas, o jogo também incentiva você a abraçar seu lado maligno. Ao realizar Misdeeds, ações perversas divididas em categorias como Guile e Malice, você aumenta seus atributos e acumula Perverse Points, a moeda usada para fortalecer seu exército.
Também existem atividades como Abduction, para recrutar novos peões, e Larceny, para conseguir itens, além de Corrupgrades, uma árvore de habilidades que permite aprimorar seus personagens. Tudo isso acontece dentro de prazos determinados, criando uma camada de gerenciamento que complementa os combates. E existe uma satisfação genuína em perceber que o jogo recompensa você justamente por fazer coisas que seriam consideradas completamente condenáveis em qualquer outra situação.
Pecados, referências e muito humor negro
Outro destaque são os diálogos, recheados de piadas e referências que tornam a narrativa ainda mais divertida. O jogo brinca com Magic: The Gathering, Persona 5, Super Sentai, Little Witch Academia, Madoka Magica, Death Note (aqui rebatizado de Kill Note) e até Cavaleiros do Zodíaco.
Um dos capítulos transforma a experiência praticamente em uma paródia de Madoka Magica, colocando você no papel de uma bruxa enfrentando garotas mágicas. Em outro momento, Killshiro aparece usando uma armadura que remete à do Aldebaran de Touro. Essas referências não são apenas detalhes escondidos para os fãs reconhecerem: elas fazem parte da própria estrutura episódica do jogo, que muda de temática e brinca com diferentes gêneros a cada capítulo.

Visualmente, Demons’ Night Fever aposta em gráficos cel-shading bastante bonitos, acompanhados de designs que combinam o absurdo da proposta com uma identidade visual consistente. Os anjos, por exemplo, parecem robôs celestiais em miniatura, lembrando criaturas de Shin Megami Tensei IV e V ou até certos inimigos de Persona 5, mas com proporções chibi.
Os adversários também mudam conforme a temática de cada capítulo, passando de heróis de tokusatsu a garotas mágicas. E existe um cuidado especial com o próprio protagonista, que ganha roupas diferentes ao longo da aventura: em um momento, parece um vilão de Super Sentai; em outro, vira uma bruxa. É um detalhe simples, mas que ajuda a dar personalidade à campanha e reforça a sensação de estar sempre entrando em uma nova paródia.

A estrutura da campanha é dividida em capítulos com deadlines, o que inicialmente pode dar a impressão de que você precisa correr contra o relógio para não perder o progresso. Porém, pelo menos na minha experiência até aqui, não cumprir o prazo não provoca um game over: você simplesmente recebe uma pontuação menor na avaliação daquele capítulo ao concluí-lo.
Além disso, a possibilidade de rejogar os capítulos quantas vezes quiser torna o sistema mais amigável para quem deseja experimentar estratégias diferentes ou melhorar seu desempenho. É uma escolha interessante porque mantém a pressão de administrar o tempo sem transformar cada decisão em uma ameaça constante de perder horas de progresso.
Por trás da comédia, existe uma história
Por trás de toda a violência cartunesca, a história de Killshiro acaba sendo mais interessante do que a premissa inicial sugere. Ele começa como um sujeito profundamente ressentido, que deseja destruir o mundo e matar todo mundo porque acredita que a humanidade não merece existir.
Seu comportamento lembra o de um incel que transformou suas frustrações pessoais em desprezo generalizado pelas outras pessoas. Só que existe uma ironia visual muito boa nisso: quando entra de verdade na aventura, no plano astral, Killshiro assume uma aparência que remete à época em que estava no ensino fundamental.
É como se sua aparência revelasse que, apesar de ter 29 anos, ele nunca amadureceu emocionalmente. Aos poucos, a narrativa começa a sugerir que talvez o mundo não seja tão horrível quanto ele imagina e que as pessoas talvez não tenham sido tão cruéis com ele quanto acredita.

A relação entre Killshiro e Giga Super Deathums também ajuda a sustentar a narrativa. Enquanto o protagonista humano carrega ressentimentos bastante terrenos, o demônio tem uma ambição muito mais grandiosa: dominar a humanidade, impor sua própria ordem e governar pelo medo.
Essa diferença torna a parceria dos dois especialmente divertida, porque seus objetivos parecem semelhantes, mas suas motivações não são necessariamente idênticas. E há ainda a sensação de que alguma coisa muito suspeita está acontecendo por trás dos panos envolvendo o demoniozinho em forma de gato e Deus.
A história planta perguntas que vão além da simples conquista mundial, criando uma curiosidade genuína sobre o que está realmente acontecendo nesse universo. Por baixo das piadas e do humor negro, existe uma narrativa sobre ressentimento, amadurecimento e a possibilidade de abandonar uma visão de mundo construída em torno do ódio.

No geral, Demons’ Night Fever me conquistou principalmente por saber transformar sua premissa em algo que funciona tanto na narrativa quanto na jogabilidade. O combate é divertido, as habilidades de Killshiro são criativas, os sistemas de progressão combinam perfeitamente com a temática e as referências à cultura pop japonesa dão um charme especial à campanha.
Também gosto de como o jogo consegue equilibrar seu humor absurdo com uma história que parece ter algo genuíno a dizer sobre imaturidade e ressentimento. Não é apenas um jogo sobre fazer maldades por diversão: existe uma coerência na maneira como suas mecânicas recompensam a crueldade e como a jornada do protagonista começa a questionar sua própria visão de mundo.
Para quem gosta de RPGs táticos com ideias diferentes e não se importa com uma boa dose de humor politicamente incorreto, há bastante coisa para aproveitar aqui.
O preço é o verdadeiro vilão
Meu maior problema com Demon’ Night Fever não está na proposta, nos combates ou na apresentação, mas no preço. Por R$ 249 no Nintendo Switch, acho difícil justificar a compra, especialmente considerando que o jogo, apesar de suas boas ideias, é uma experiência bastante específica em termos de humor e referências.
É o tipo de título que eu recomendaria facilmente para quem gosta de RPGs táticos excêntricos, mas que também aconselharia a esperar uma promoção antes de investir esse dinheiro. No fim das contas, Demons’ Night Fever é uma surpresa bastante divertida, com personalidade de sobra e uma combinação interessante de estratégia, comédia e crítica ao ressentimento.
Só que, por mais que eu goste de abraçar o caos e sacrificar meus peões em nome da pura maldade, não estou disposto a sacrificar R$ 249 para isso.
Prós:
- Sistema de combate tático divertido, baseado no sacrifício dos próprios peões;
- Humor negro que combina com a proposta absurda do jogo;
- Diálogos engraçados, repletos de referências à cultura pop e aos videogames;
- Designs criativos para o protagonista e os inimigos, que mudam conforme a temática dos capítulos;
- História que vai além da comédia e explora o ressentimento e o amadurecimento emocional dos Personagens;
- Possibilidade de rejogar os capítulos para experimentar estratégias diferentes e melhorar a pontuação.
Contras:
- Preço elevado: R$ 249,00 é difícil de justificar, considerando a experiência oferecida;
- O humor e as referências são bastante específicos, podendo não funcionar para todos os jogadores.
Nota
9
