Desenvolvedora: Nippon Ichi Software
Publicadora: NIS America
Data de lançamento: 28 de Fevereiro, 2023
Preço: R$209,99 (Demo disponível)
Formato: Digital/Físico
Análise feita no Nintendo Switch com cópia fornecida gentilmente pela NIS America.
Revisão: Paulo Cézar
void* tRrLM2(); //Void Terrarium é um dos experimentos mais notáveis da NIS nos últimos anos. Apesar da abordagem bastante familiar, adotando um estilo Dungeon Crawler com elementos de Roguelite, o título ao meu ver tem como apelo uma construção e desenvolvimento narrativo em volta de três elementos.
O jogo, que se passa em um mundo pós-apocalíptico onde a raça humana foi completamente erradicada por um fungo, nos apresenta uma trama comovente onde o supostamente último humano vivo, uma criança frágil chamada Toriko, forma uma família com um robô e uma IA, enquanto sobrevive as ameaças da pandemia fúngica que assolou o planeta.
Leia também:
Sua sequência direta, void* tRrLM2(); //Void Terrarium 2, reúne a família artificial em uma nova história, tendo como ponto central esclarecimentos sobre as origens de Toriko, oferecendo algumas novidades que dão ar fresco àqueles que se emocionaram com o primeiro jogo. Entretanto, no que diz respeito a sua narrativa, ele acaba sendo restritivo para quem não jogou o original.
The Story so Far
Não se preocupe, este tópico está livre de spoilers, assim como todo o resto da análise. Porém, acho importante contextualizá-los antes de prosseguirmos para os eventos atuais, uma vez que Void Terrarium 2 pressupõe que o jogador já tenha tido contato com o primeiro título.
De forma bem resumida, o planeta foi devastado por um fungo tóxico, o que levou à extinção da raça humana a 100 anos atrás. Apenas máquinas e algumas formas de vida conseguem vagar pelo ambiente hostil, e Robbie, um robô que adquiriu livre arbítrio, é uma delas.
O até então protagonista encontra Toriko, uma criança humana contaminada pelo fungo, mas que sobreviveu à praga graças a um Terrário em que foi encontrada, porém em estado debilitado, contraindo sintomas apavorantes como fungos crescendo em lugares do corpo.

Posteriormente, Robbie passa a contar com o suporte de uma IA — chamado de FactoryAI — que se compromete a ajudá-lo a manter Toriko viva em meio às ruínas. Dilemas éticos que ocorrem durante o clímax de Void Terrarium original nos levam a um dos finais possíveis que se amarram aos eventos de Void Terrarium 2.
Dito isso, Void Terrarium 2 parece desconsiderar jogadores que talvez pudessem escolhê-lo como entrada, tal como evidentemente espera que aqueles que jogaram Void Terrarium 1 já tenha atingido o final adequado para dar continuidade aos seus eventos. O jogo várias vezes cita acontecimentos prévios, mas sem grandes contextualizações, portanto, a experiência aqui gira em torno do seu conhecimento do primeiro título.
Algo como um “The Story so Far”, no entanto, seria o ideal para uma boa venda do título, sendo também um bom plano para situar jogadores com memória fraca (eu, por exemplo) ou até mesmo para o iniciante descuidado que o comprou não esperando alguma continuidade narrativa. Para você, caro leitor, este tópico ao menos serviu para guiá-lo ao próximo tópico. Vamos lá!
Um novo lar, uma nova crise
Void Terrarium 2 dá segmento à história do título original enquanto vemos Robbie desbravando as Terras Devastadas em busca do material restante para reativar seu parceiro, a FactoryAI. Concluindo seu objetivo, a IA então acorda confusa, insinuando eventos prévios desagradáveis, mas mesmo assim se compromete a cuidar de Toriko novamente.

As atividades triviais da família são interrompidas com a chegada de um velho inimigo, um Slobbie, um minion remanescente de CloudAI, uma outra IA introduzida no jogo anterior. A derrota deste Slobbie desencadeia um lapso de memória da vida humana antes da pandemia, junto também de um evento catastrófico que parece estar destruindo tudo a sua volta, forçando Robbie, Toriko e FactoryAI a migrarem para um outro terreno.
Investigando os atuais acontecimentos, aprendemos que os Slobbies que vagam sem rumo pelas Terras Devastadas carregam consigo backups do que seria, fragmentos de memórias da civilização humana, extraídos do banco de dados de CloudAI. Estas memórias vêm à tona cada vez que Robbie tem sucesso ao derrotar um Slobbie.
Entretanto, FactoryAI acredita que, indo mais fundo nestas memórias, seria possível aprender mais sobre Toriko, em busca de conhecimento para auxiliar nos tratamentos diários de uma doença misteriosa na qual seus membros se separam do seu próprio corpo. A IA então cria o VRRAT, um dispositivo de Realidade Virtual que conecta Robbie às memorias de CloudAI, podendo até interagir com os humanos de lá, sendo o VRRAT umas das features inéditas e importantes de Void Terraium 2.

No VRRAT, somos levados a um mundo virtual com imagens processadas sob o ponto de vista de CloudAI, apresentando uma estética visual 8-bits remetendo a jogos de RPG Maker, que por sua vez age como uma estética contrastante com o estilo visual tradicional de Void Terrarium.
No VRRAT, você interage com humanos que lhe contarão sobre seu cotidiano nada feliz, e você terá a liberdade de interagir com eles à medida que progride no jogo. No entanto, o mundo virtual é extremamente limitado no que diz respeito a exploração e interação, limitando-se apenas a quests e textos de diálogos que complementam a lore do mundo de Void Terrarium antes do cataclismo.
Void Terrarium 2 parece casar a gameplay tradicional de exploração em dungeons com as interações no VRRAT, onde alternar constantemente entre as variantes é o que o jogo quer que você faça por um bom tempo. Você só poderá ter novidades no mundo virtual conforme explora as Terras Devastadas, porém as quests no VRRAT dependem de recursos coletados no mundo real para serem concluídas.
A longo prazo, o “vai e vem” torna-se uma experiência mentalmente cansativa, o que também acontece na exploração das Terras Devastadas, que é o estilo de gameplay focado na ação, sendo este o próximo tópico que será abordado.
Explorando as Terras Devastadas
Conhece o clássico de SNES Shiren the Wanderer, ou Mystery Dungeon como era conhecido? Pois bem, Void Terrarium utiliza-se da mesma abordagem de gameplay. A ação ocorre em mapas vistos de cima, com segmentos entre áreas reveladas conforme exploramos e andares gerados proceduralmente. É um típico dungeon crawler com elementos de um roguelite.
Controlamos Robbie enquanto subimos de nível e adquirimos upgrades, além de armas, equipamentos e suplementos que, logo após a sessão, são reciclados e geram recursos para o Terrário. O nível ganho, assim como os upgrades nos stats e habilidades passivas, são totalmente perdidos, fazendo com que você sempre reinicie a jornada no nível 1 com o inventário vazio e stats resetados.
O jogo também utiliza elementos de gerenciamento, como o uso da Energia como estamina, que vai esgotando à medida que anda ou realiza certas ações, e o Tamagotchi (este que irei explicar melhor em breve). Nada tão complexo de se aprender, garanto.

Aqui existe um certo nível de dificuldade que demanda cuidado do jogador. Os inimigos são variados em estilo de combate e cada vez mais recorrentes à medida que você muda o cenário, além de não serem nem um pouco fracos. Você vai realmente suar aqui, e vai depender bastante dos recursos que coletou e dos upgrades para sair de uma grande fria. Se seu HP chegar a 0, Robbie retornará para o Terrário e você terá que repetir cada cenário do zero, embora os mesmos sejam diferentes a cada nova run.
O nível de dificuldade não é nem um pouco artificial. A natureza Dungeon Crawler do jogo permite que você caia em armadilhas constantemente, além de dar de cara com uma sala infestada de inimigos que irão te seguir até que os derrote um por um. Não ser cuidadoso (ou jogar na pressa) é um convite para derrotas consecutivas, obrigando-o a gerenciar bem os recursos e ser minucioso na exploração. Acredite, repetir os cenários devido a um erro bobo pode ser frustrante.

Quanto às mudanças na exploração das Terras Devastadas, alguns ajustes sutis foram feitos em relação ao Void Terrarium original. Além da evidente variação de cenários, novos inimigos e upgrades, notei que houve um pequeno ajuste no uso da barra de Energia, onde aqui ela parece gastar menos bateria que anteriormente. Novos itens também foram introduzidos, entre outras melhorias de QoL. Mas no geral, o combate e a exploração parecem mais polidos, embora a interface em si permaneça a mesma.
É como cuidar de um Tamagotchi
Cuidar de Toriko é uma tarefa fundamental, que requer atenção máxima do jogador, mesmo se você estiver ocupado desbravando as Terras Devastadas. Devido a sua saúde frágil por estar exposta aos fungos, Robbie e FactoryAI se esforçam ao máximo para mantê-la viva e alegre. No entanto, ela passa todo o seu tempo em um Terrário que a protege da contaminação, embora isso não a deixe totalmente invulnerável.

Robbie e FactoryAI são responsáveis por cuidar de Toriko. A IA serve como fonte de conhecimento para atender as necessidades e aos cuidados com primeiros socorros da criança enquanto Robbie age como uma figura paterna e faz todo o trabalho braçal. É possível decorar o pequeno espaço em volta de Toriko com móveis, equipamentos para manter a temperatura ambiente, entre outras coisas para deixar Toriko mais confortável.
A condição do espaço reflete diretamente em Toriko, portanto é de suma importância que o espaço esteja limpo e arejado, além da criança estar sempre alimentada e com opções de distração enquanto você estiver ausente. A atenção deve ser mantida até mesmo quando está explorando as Terras Devastadas, por isso, FactoryAI criou uma espécie de Tamagotchi onde Robbie pode monitorar e interagir com Toriko à distância; porém, não pense duas vezes em abortar a missão quando a saúde de Toriko estiver precária. Assim como um Tamagotchi, negligenciar os cuidados de menina pode levá-la à pior condição possível (é isso mesmo o que você está pensando).

Contudo, além das atividades já vistas em Void Terrarium 1, aqui temos como novidade o cultivo de plantas. Neste novo terreno em que Toriko vive agora, é possível cultivar uma horta caseira. Não tem mistério, você vai enterrar uma semente no solo, ajustar a temperatura e umidade do Terrário conforme as exigências apresentadas para o cultivo e regar com água. O tempo passa à medida que você explora as Terras Devastadas e o resultado é evidente. Quando atingir o ponto, colha as plantas para ganhar mais sementes, objetos e receitas. Toriko pode até ajudar no processo!
Os elementos customizáveis no Terrário são ainda variados e instigantes. É sempre bom manter a atenção em Toriko para garantir a sua saúde e higiene básica, mas decorar o Terrário é essencial para deixá-la mais acomodada e feliz. A simplicidade do jogo, no entanto, impede que esta feature possa ir além do que ela pode oferecer, o Terrário pode parecer apertado para Toriko, mas o jogo contorna isso podendo movê-la para um outro Terrário eventualmente.
Este aspecto de Void Terrarium onde você precisa cuidar de alguém e gerenciá-la constantemente dentro ou fora da ação é uma das coisas que se destacam aqui. Cuidar de Toriko é bastante divertido e passamos a criar um sentimento de carinho e afeto. A garota é bastante frágil, suportando a dor da doença que tira seus braços e pernas do lugar, isso enquanto sobrevive em um mundo pos-apocaliptico exposta a contaminações e recursos precários. É de cortar o coração. Ver seres artificiais que nunca entenderiam o sentimento e a dor humana tendo empatia e um cuidado especial com uma criança debilitada é apenas uma das coisas que me ganharam em Void Terrarium.
Uma boa sequência de um bom título
O Void Terrarium original foi um jogo que me emocionou bastante. Embora eu não seja assíduo em jogos de dungeon crawler, principalmente jogos com roguelite, o conjunto da obra foi muito bem implementado.
Para Void Terrarium 2, no entanto, senti que ele se prolongou mais do que deveria. Embora tenha um foco narrativo maior se comparado ao seu antecessor, era como se o jogo estivesse enrolando o máximo possível para chegar aos eventos que importavam. Apesar das ressalvas, a sequência ainda é uma experiência cativante e bastante atualizada em sua estrutura, com boas ideais implementadas que talvez poderiam ser um pouco mais orgânicas.
No geral, Void Terrarium 2 é uma sequência decente, segura de si, que mantém sua atmosfera desolada e uma narrativa comovente e sucinta que costura os buracos deixados por Void Terrarium 1. Contudo, ele certamente será melhor apreciado se você já tiver jogado o original.
Prós
- História simples, porém bem construída e instigante;
- Ambientação permanece característica, evocando solidão e melancolia;
- Novos recursos integrados à gameplay principal;
- Pequenas melhorias de QoL.
Contras:
- Alternância entre gameplays arrasta demais o jogo;
- VRRAT é bastante limitado apesar de sua proposta dentro do contexto da narrativa;
- Você precisa jogar Void Terrarium original para experiência geral genuinamente boa.
Nota Final:
8,5

