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Nintendo e Brasil: amor bandido

Wendel Barbosa 21/09/2022

A entrada oficial da Nintendo no mercado brasileiro se deu quase uma década após o Famicom ter sido lançado mundo afora. A entrada tardia, no entanto, não se deu por culpa da gigante japonesa. A política de reserva de mercados, implementada durante a ditadura militar brasileira (1964-1985) – e que durou até 1991 – acabou fechando nossas fronteiras a produtos vindos de fora do país. A ideia do Governo era incentivar o desenvolvimento de uma indústria nacional de produtos eletrônicos (como os videogames), mas acabou por fomentar a criação de um mercado que, se utilizando de tecnologia reversa, passou a fazer clones desses aparelhos.

Dos famiclones a Playtronic

Na imagem: Dynavision 3

É nesse momento que vemos surgir os famigerados “famiclones”. Fabricados por empresas como a CCE e Dynacom, na saudosa zona franca de Manaus, era dessa forma que ficaram conhecidos os clones do Nintendinho. Em 1993, a Nintendo fechou parceria com as empresas Gradiente e Estrela, formando a Playtronic Industrial Ltda. E, em agosto daquele ano, a Nintendo finalmente chegou ao Brasil. Nessa altura do campeonato, a TecToy já havia fechado parceria com a SEGA, para a comercialização de produtos licenciados no país. E isso demandou estratégias de marketing inteligentes e ácidas, dos dois representantes das empresas, para ganharem os corações e os bolsos dos consumidores.

Sob a batuta da Playtronic, o Nintendinho, o Super Nintendo, o Game Boy, Virtual Boy e o Nintendo 64, chegaram no país. Porém, nosso cenário econômico tornava o acesso a esses bens muito complicado, na medida que os valores desses produtos eletrônicos eram altíssimos. E isso não era exclusividade da Nintendo. Os consoles da SEGA também iam pelo mesmo caminho, tornando a prática de troca em feiras e o aluguel de jogos nas videolocadoras algo extremamente comum, durante os anos 80 e 90. O mais comum, para as famílias brasileiras, era consumir consoles já fora de linha. Prática que continua até os dias de hoje, na medida que consoles como SEGA Master System e PlayStation 2 continuam a ser compras recorrentes pelos brasileiros. Videogames sempre foram caros! 

Uma relação complicada no mercado nacional

Diferentemente da liberdade que a SEGA dava a TecToy, a Playtronic ficava presa ao conservadorismo corporativo da Nintendo. Dessa forma, enquanto títulos como Turma da Mônica e o Castelo do Dragão (uma reprogramação de Wonder Boy in Monster Land), Duke Nukem 3D, Phantasy Star e tantos outros que eram produzidos e ganhavam localização PT-BR, em plenos anos anos 90, chegavam para os donos de um SEGA Mega Drive, isso era quase impossível de se ter no console da gigante japonesa (Super Copa, conta?). É uma política que continuou após o fim da Playtronic, quando a Gradiente assumiu a responsabilidade de distribuição dos produtos no Brasil até o ano de 2003, pela Latamel (2003-2011) e por sua subsidiária Gaming do Brasil (2011-2015).

A saída repentina do Brasil, em 2015, coincidiu com um momento onde Microsoft e Sony se consolidaram no mercado nacional, tendo inclusive seus consoles fabricados no país. Um dos carros chefes do Xbox, Halo, foi lançado no já distante ano de 2011, dublado e legendado em português. Enquanto isso, em pleno 2022, os consumidores nintendistas quase que imploram por legendas PT-BR nos títulos futuros da empresa (como The Legend of Zelda: Tears of the Kingdom); fazem festa pelo tímido retorno da empresa ao Brasil (cadê as mídias físicas?), com direito a Dia do Nintendista e tudo; e celebram a ativação de um perfil nacional da Nintendo no Twitter, dois anos depois de sua “volta” ao país. 

Conquistando o consumidor fazendo o mínimo

Ao longo de todos esses anos, o consumidor brasileiro foi conquistado pela Nintendo com ela fazendo o mínimo. A qualidade e relevância de seus jogos parecem ser suficientes para que suas falhas sejam abonadas. Afinal, não se pode jogar – ao menos de forma oficial – um The Legend of Zelda, Mario, Pikmin, Metroid ou Donkey Kong, em consoles da concorrência. A política de precificação dos jogos da gigante japonesa, que quase nunca baixam, por mais que faça sentido no Japão, Estados Unidos ou Europa — onde a saúde financeira dos consumidores é mais estável — faz com que esse tipo de produto aqui no país (onde até o valor da cesta básica é alto) continue inacessível para muitos jogadores. Nesse sentido, a síndrome do FOMO, tão comum no mundo capitalista atual, acaba por incentivar práticas como a pirataria.

A gigante japonesa nunca deu a devida atenção ao mercado brasileiro. Ao longo de toda sua jornada em terras tupiniquins, coube a comunidade que ela cativou preencher as lacunas de suas falhas. Nesse sentido, a popularização da internet e das redes sociais ajudaram em muito a suprir essas necessidades. Seu retorno, em 2020, é quase um “aceno de miss”, que serve para encher de esperança os fãs de longa data com algo que nunca teve de forma oficial. Para muitos, a nostalgia de ter crescido com alguns dos personagens icônicos da empresa, criou um apego emocional que turva olhares. Não importa quão anti-consumidor seja a sua ação, suas práticas são incontestes. E mesmo quando a gente reclama, continuamos lá do lado dela. Dessa forma, é certo dizer que a relação do consumidor brasileiro com a marca é um verdadeiro amor bandido. 

Leia também:

Console war: humanizando produtos e objetificando pessoas

Da revolução industrial a atualidade: a perpetuação de práticas abusivas na indústria dos jogos ao custo da humanidade de seus funcionários. Estaria a Nintendo alheia ao que parece ser uma tendência da indústria?

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Wendel Barbosa
Professor de História e entusiasta de joguinhos eletrônicos desde 1984.
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Tags: Brasil Gradiente nintendo Nintendo Switch Playtronic

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