Desenvolvedora: Omega Force
Publicadora: Koei Tecmo
Data de lançamento: 29 de Setembro, 2023
Preço: R$ 319,00
Formato: Digital/Físico
Análise feita no Nintendo Switch com cópia fornecida gentilmente pela Koei Tecmo.
Revisão: Davi Sousa
Fate/Samurai Remnant é o mais novo lançamento da famosa franquia Fate/ desenvolvido especialmente para os consoles e PC. Fruto de uma parceria entre Aniplex, Omega Force, Kou Shibusawa e Type-Moon, o game traz nomes de pesos em sua equipe e apresenta uma história bem familiar aos fãs da série, aliado a uma mistura de diversos elementos desenvolvidos em outros títulos da Omega Force.
A Guerra do Santo Graal… não, pera

A narrativa de Fate/Samurai Remnant traz uma velha premissa com uma cara nova: a guerra do Santo Graal, onde sete magos ao lado de servos, Espíritos Heroicos baseados em heróis e lendas da história humana, se enfrentam em duelos até a morte pelo Santo Graal, um objeto capaz de realizar qualquer desejo, ocorre dessa vez no Japão Feudal.
Existe um porém: em vez de ocorrer durante o famoso período Sengoku Jidai, onde o país inteiro estava envolvido em um conflito interno entre vários Senhores Feudais, a história dessa vez se passa no período seguinte ao Sengoku Jidai, o Período Edo, quando o Japão, sob o comando do Xogunato Tokugawa, estabelecido por Ieyasu Tokugawa em 1603, se encontrava em “paz”.
Com o fim das guerras e as severas leis estabelecidas por Ieyasu e os Shoguns subsequentes, Hidetada e Iemistu (seu filho e neto, respectivamente), muitos samurais se viram sem rumo neste novo período. Sem habilidades para ganhar a vida ou um lorde para servir, muitos samurais viraram ronins, guerreiros que não possuem um sentido para sua vida. Neste cenário, somos apresentados a Miyamoto Iori, o filho/aprendiz adotado de Miyamoto Musashi, um dos mais renomados samurais de todos os tempos, que, após anos de treinamento no caminho da espada, busca agora se adaptar aos tempos e viver em uma era de paz.

A vida de Miyamoto Iori é simples. Treinado por Musashi em Niten ichi-ryū, o estilo das espadas duplas, o jovem usa suas poucas habilidades ajudando a manter a ordem em Edo, capital do Japão, enquanto treina sempre que pode. As coisas mudam quando uma estranha marca surge em seu pulso, com Iori sendo atacado logo após por ninjas e um misterioso samurai com armadura negra.
Facilmente derrotado pelo guerreiro, Iori se encontra próximo de ser morto quando a marca brilha e invoca um guerreiro, Saber, que salva o rapaz do perigo. Se introduzindo como Saber e o servo de Iori, o jovem samurai descobre que ele foi escolhido para participar da Waxing Moon Ritual e agora precisa sobreviver à ameaça de outros seis mestres e seus poderosos servos para então poder conseguir a vitória nesta terrível e misteriosa guerra.
Apesar do nome diferente, a Waxing Moon Ritual nada mais é do que uma cópia da Guerra do Santo Graal, elemento importante da franquia Fate. Ela segue as mesmas regras da versão original: sete mestres se enfrentam até a morte por um objeto mágico que concede desejos. A diferença é que cada mestre possui seu próprio “território”, que serve como sua base de operações. É possível se conectar com a rede de mana do Japão para melhorar seu servo, e sete Servos “Rebeldes” acabam sendo invocados juntos com os demais, com esses sete agindo por conta própria e podendo se aliar aos mestres.

Os fãs veteranos da franquia vão se sentir em casa com essa premissa. Essa não é a única referência à série como um todo, obviamente: a narrativa de Samurai Remnant é cheia de referências e easter eggs, desde certos eventos da narrativa até personagens. Iori e Saber são basicamente novas versões de Shirou e a Saber de FSN, desde alguns de seus trejeitos — ambos os Sabers são viciados em comida — até seu mindset em relação à guerra e à vida. Iori, por exemplo, é alguém que segue fielmente o seu ideal de “caminho moral da paz”: ele não mata, evita colocar outras pessoas em perigo e, apesar de ser cuidadoso, não se recusa a ajudar os outros, igual a Shirou.
Obviamente nem tudo aqui é uma cópia de experiências passadas da série. A narrativa de Fate/Samurai Remnant leva as coisas bastante para o lado da moralidade, com alguns questionamentos sobre o certo e errado, como uma pessoa sem rumo deve viver em uma nova era e até mesmo a que ponto alguém vai para realizar seu desejo. Mesmo tendo seus momentos dignos de uma história feita para um público mais jovem, ainda há tramas um pouco mais complexas e que buscam mostrar o lado bom e ruim do mundo como um todo.

O foco principal é a guerra, mas a humanidade de seus participantes e as decisões feitas por eles e o governo à sua volta é o que faz a narrativa de Fate/Samurai Remnant se destacar. O Período Edo não foi tão conturbado quanto o Sengoku Jidai, mas ele também representou uma mudança radical no Japão, que pode ser vista como uma grande marca negativa na história do país.
Hidetada e Iemistu, os dois primeiros Xogums pós-Ieyasu, pavimentaram muito do caminho que o Japão iria seguir nos próximos séculos, focando no desenvolvimento do país e especialmente em uma política de repreensão e xenofobia contra estrangeiros, que levou a caçadas contra cristãos dentro do país e à proibição da entrada de pessoas de fora ao Japão. Ambos os temas são abordados em Samurai Remnant, e é notável como o jogo os utiliza de forma natural para ajudar a dar um adicional na backstory de alguns dos envolvidos, aliando um pouco de trama política aos elementos mágicos e míticos da série Fate.
É importante mencionar que a narrativa de Fate/Samurai Remnant requer ao menos duas runs para ser aproveitada totalmente. Não falo isso apenas por que há dois momentos em que precisamos tomar decisões que mudam uma outra coisinha — quem iremos encontrar como aliados antes de certas batalhas —, mas sim porque a história deliberadamente esconde informações e deixa certos mistérios no ar, que só são explicados no NG+ quando desafios adicionais são desbloqueados. Além disso, uma revelação sobre o protagonista, é revelada também durante o NG+, mudando bastante suas ações e decisões tomadas durante a narrativa — adicionando até mesmo um final adicional e uma luta extra —, fazendo valer a pena a segunda jornada.
O caminho da espada

Fate/Samurai Remnant é um RPG de ação com algumas influências do estilo musou típico dos jogos da Omega Force. Ele me lembra bastante os títulos da série Yakuza/Like a Dragon, com locais para explorar e combates ocorrendo apenas em áreas específicas contra um número limitado de oponentes.
Os duelos em si são divididos em dois tipos específicos: combates contra grupos de inimigos e chefões. O foco está nos duelos contra os chefes, que são presença constante na aventura e onde o sistema de combate é levado ao seu limite de uma maneira não tão bacana.
É nas lutas contra grupos de inimigos que a essência Musou da Omega Force aparece. De 5 a 30 oponentes podem aparecer para desafiar Iori e Saber, e o duelo só termina quando todos forem eliminados. Entretanto, é preciso dizer que o jogo não foi desenvolvido com esses duelos como seu foco principal. Não há um botão para redirecionar a câmera, e o lock-on só funciona em inimigos específicos, os chefes do bando, o que confunde um pouco quando é preciso ir atrás de membros mais fracos, que podem estar longe, para finalizar a batalha.

Já os duelos contra os chefes geralmente são mais similares a um RPG de ação, com bastante foco na utilização das habilidades disponíveis de Iori e Saber. Sendo uma grande parte da experiência de Fate/Samurai Remnant, eles requerem um domínio maior sobre o moveset e a utilização correta de todas as ferramentas que o jogo concede. Contudo, eles possuem um grande problema, que acaba sendo compartilhado com alguns inimigos mais comuns.
Como uma forma de estender o tempo de combate, a Omega Force adicionou uma barra de proteção aos chefes e certos inimigos. Essa é uma barra que precisa ser quebrada para poder causar dano máximo, com os chefes tendo a habilidade de recarregá-la após um tempo. Demora um pouco para destruir essa barrinha e, enquanto ela está ativa, todo dano causado ao inimigo é reduzido em quase 90%. Além disso, muitos dos chefes possuem super armor enquanto essa barra está ativa, fazendo com que a maior parte de seus ataques sejam bloqueados.
O jogo, é claro, lhe oferece formas de quebrá-la mais rápido, como habilidades (que precisam ser desbloqueadas) e a utilização de alguns itens; contudo, por muitas vezes isso significa ter que descartar a maior parte de seu moveset e spammar a mesma técnica especial várias vezes, algo que não fica muito legal em um jogo desse tipo.

Vale mencionar que há muitas ferramentas para ajudar a tentar tornar o combate mais interessante. A principal é, sem dúvidas as “formas de combate” que Iori pode assumir. Com um simples toque do botão, o protagonista pode alternar para um dos diferentes estilos de combate do Niten Ichi Ryu: Terra, com uma hyper armor e utilizando uma única espada; Água, duas espadas com ataques velozes; Vento, uma mistura de uma espada com ataques mágicos; Fogo, duas espadas e que fica mais forte quanto menos HP você tem; e, por fim, Nada, ataques rápidos e de longo alcance com ambas as espadas.
Mudar os estilos traz vantagens durante os combates, além de que cada um serve para algo importante nos duelos. Além disso, ao realizar uma esquiva perfeita, Iori pode desferir um poderoso contra-ataque chamado de Riposte, que causa um grande dano ao oponente. A dificuldade está no timing, uma vez que a esquiva deste jogo é bem diferente do que estamos acostumados em outros títulos da Omega Force, requerendo direção e paciência do jogador para dominá-la e nada de iframes aqui.
Iori é apenas metade do sistema de combate de Fate/Samurai Remnant. Saber e os outros servos, aos quais podemos nos aliar durante a aventura, também são parte ativa dos embates. Saber será seu principal parceiro e, enquanto ele realiza alguns poucos ataques sozinho, aumentar seu laço com ele, conseguindo automaticamente via a história e cumprindo sidequests, faz com que o Espírito Heróico peça para realizar mais ataques especiais em conjunto.
Preenchendo uma barra de espirito, é possível pedir para Saber utilizar suas habilidades durante o combate e, com outra barra cheia, conseguimos até mesmo trocar para ele ou outro servo por alguns segundos, podendo assim derrotar inimigos mais facilmente e causar um alto dano aos chefes.
A estratégia para se vencer uma guerra

Existem muitas mecânicas em Fate/Samurai Remnant que se complementam para formar a experiência completa do título. Iori e Saber devem explorar toda a cidade de Edo, capital do Japão, em busca de informações sobre mestre rivais, servos aos quais eles podem se aliar e meios que possam ajudar na guerra.
As partes disponíveis de Edo são grandes e possuem lojas, que vendem itens e comidas que restauram a vida e as muitas barras especiais; NPCs para conversar; animais para encontrar e templos sagrados para visitar. Em alguns casos, sidequests estarão disponíveis, recompensando o jogador com itens, equipamentos e até mesmo novos aliados.

Iori pode equipar diferentes peças em suas katanas para aprimorar seus atributos. Outra forma de melhorá-los, mesmo que temporariamente, envolve as Leylines, fluxos de energia espiritual espalhados por todo o Japão. Em certos momentos da aventura, será necessário se conectar a uma Leyline, mudando o jogo para um tipo de RPG estratégico, com o jogador se movendo através de um tabuleiro e precisando tomar espaços de inimigos enquanto defende o seu.
Esta parte é interessante, mas muito mal-aproveitada. Apesar de ter uma quantidade específica de turnos para avançar no tabuleiro até o objetivo, dificilmente você acabará perdendo esse desafio. As habilidades, desbloqueadas automaticamente durante a aventura, eliminam qualquer dificuldade encontrada aqui, com Saber ganhando uma habilidade de eliminar inimigos à distância, que pode ser utilizada sempre que um espaço é invadido.
Um Japão diferenciado

Visualmente falando, Fate/Samurai Remnant é um dos títulos mais lindos da franquia. Com belos modelos de personagem, bons efeitos especiais e um estilo de arte inspirado em pinturas japonesas antigas, o game tem uma boa apresentação visual, com apenas os cenários e certos inimigos sendo o ponto baixo nesse quesito.
Sonoramente, o jogo possui apenas dublagem em japonês, o que pode ser um ponto negativo para aqueles que gostam de dublagem em inglês em seus RPGs. A questão das músicas é mais um ponto negativo, com uma trilha sonora nada memorável, sendo bem fraca em minha opinião. Houve apenas uma faixa que ficou marcada em minha mente, e isso por conta dela ser um remix de um tema de Fate Extra CCC.

Vale mencionar também que Fate/Samurai Remnant segue o passado da franquia, trazendo bastante texto e história para os jogadores assistirem. Há muitas cutscenes aqui, com várias referenciando temas e assuntos já conhecidos da série. O game utiliza um estilo similar ao apresentado em outros jogos mais recentes da Omega Force, como Persona 5 Strikers (aliás, a foto dos personagens na UI de Samurai Remnant me lembra o jogo da Atlus), com cutscenes com poucas movimentação nos modelos, mas possuindo ângulos e efeitos especiais para dar um toque a mais em certos momentos. Existem as cinematográficas, é claro, e essas acabam sendo muito boas também, com uma boa coreografia e detalhes.
Fica também o adendo: Fate/Samurai Remnant não possui legendas em Português. Por ser um jogo com um grande foco em sua história, é preciso entender inglês para poder aproveitá-lo bem.

Talvez o ponto mais importante de se mencionar nesta review é o desempenho do jogo no Switch. Bem, fico feliz em dizer que, por 95% da minha aventura — que teve uma duração de 27 horas —, Fate/Samurai Remnant rodou sem apresentar slowdowns ou travamentos. Houve momentos que realmente me ocorreram tais problemas, mas foi em casos bem específicos, como em algumas partes de Edo e quando muitos detalhes aparecem na tela. Vale a menção de que o modo portátil tem o que parece ser resolução dinâmica, com o jogo se adequando bem à telinha do Switch.
Uma cópia fajuta que tem suas jóias escondidas

Já fazia algum tempo que algo da série Fate/ me deixava tão animado e curioso de acompanhar como Fate/Samurai Remnant. Apesar de reutilizar muitos elementos narrativos de títulos passados, o jogo tem um charme único, que vai cativar os jogadores que desejam uma experiência nova na franquia.
Para aqueles que querem um beat ‘em up com elementos de RPG de ação, possuindo um combate interessante e uma história que explora temas como moralidade, o título vai agradar bastante. Ele tem seus pontos negativos, como a já mencionada barra de proteção dos chefes e seus muitos elementos de jogabilidade, que acabam enchendo demais o jogo de uma maneira que ele não necessita, e a necessidade de se realizar um NG+ para poder acompanhar a história em toda sua premissa, por exemplo.
De uma forma geral, o pacote é bom e vale a pena jogar ao menos uma vez. Para aqueles que não sabem o que é Fate, o título introduz bem os elementos mais tradicionais da lore geral da franquia, e consegue agradar muito bem a veteranos e novatos.
Prós:
- Uma intrigante narrativa que mistura bem elementos clássicos da franquia Fate/ com novas ideias;
- O sistema de combate possui diversas camadas que ajudam a deixá-lo menos entediante;
- Belos modelos de personagens e animações muito boas nas cutscenes;
- Boa utilização do período histórico.
Contras:
- As batalhas contra chefes se tornam muito chatas com a introdução da barra de proteção;
- Necessidade de realizar um New Game+ para entender a narrativa de uma forma completa;
- Muitos elementos de gameplay que acabam por encher demais o jogo;
- O sistema de Leylines não é bem explorado.
