Revisão: Davi Dumont Farace.
A equipe do NintendoBoy teve a oportunidade de participar de uma coletiva de imprensa com o dublador Felipe Grinnan no evento Anime Geek DoomsDAY, em Belém. Ele dá sua voz para Leon S. Kennedy de Resident Evil, Whis de Dragon Ball, Soldier Boy de The Boys e diversos outros personagens. Cada veículo pode fazer duas perguntas e no artigo você confere uma compilação dos melhores momentos.
Diferenças em dublar em mídias diferentes
A carreira do Felipe é marcada por diversas participações em mídias diferentes, indo desde animações até filmes. Neste sentido, ele considera que o principal desafio é interpretar personagens em live action: “é mais difícil você conseguir convencer que aquela pessoa de carne e osso está falando com a sua voz” disse ele. O dublador até revela esta ser a sua preferência por conta da alta dificuldade.

Sobre jogos, apesar da lógica da substituição da voz em cima de um personagem ainda ser a mesma, os desafios são outros. Por exemplo, para Resident Evil, ele teve acesso às cenas de corte do jogo para entender as situações, porém as frases de gameplay em si não eram vistas, tornando a direção de dublagem mais importante. Existem até algumas situações no ramo de limitações ainda maiores de material, mas segundo ele, são casos raros como algumas gravações da série Game of Thrones.
Leon mais maduro de Resident Evil Requiem
Em participações anteriores do Felipe na imprensa, ele comentou bastante do quanto gosta de dublar o Leon e sua vontade de retornar ao papel em Resident Evil 4 Remake. O profissional já tinha participado de animações antes, mas não estava claro se assumiria também os jogos. Na sua apresentação no evento, reforçou o seu esforço para conseguir o papel, levando eventualmente ao seu retorno em Requiem.
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O contexto entre os dois títulos é bem diferente, levando a modulações específicas na dublagem: “Não só passou o tempo, como ele (Leon) estava mais desgastado e doente. Então a voz ficou mais grave, mais baixa e com menos vitalidade do que o 4. É uma voz sem tanta projeção.” Ele também dublou o personagem no último jogo com uma idade similar, 52 anos, mas ele não acredita que voz seja pesada por conta da idade em si, mas sim pela infecção e desgaste do personagem. É uma interpretação bem coerente, dado o contexto do protagonista retornar para enfrentar seus traumas contra sua própria vontade.
Neste sentido, Felipe vê uma aproximação maior com ele por conta da idade e até tira uma lição importante sobre a personalidade construída pelos roteiristas da Capcom: “ele enfrenta o vilão olhando na cara. Na vida, quando tiver um problema, olhem de frente e encarem: o que eu tenho que fazer para…? ele decifra e resolve. Não deixa para depois, acho que é uma dica dele.”

Soldier Boy e limites da linguagem na dublagem
O dublador também comentou sobre a mudança no uso de palavrões no mercado de dublagem, considerando que hoje em dia isso é permitido e muito utilizado no contexto de obras adultas como The Boys. “Hoje a gente pode tudo, o dublador que começou na minha época tinha essa coisa do palavrão entalado. Vinha no filme, mas a gente não podia falar isso.” Ainda segundo ele, isso também não envolve constrangimento algum ao dublar um personagem como o Soldier Boy, por ser ele quem está falando e não quem empresta a voz.
Dublagem em animes
Questionado sobre seu trabalho no clássico anime Black Jack, baseado no mangá do celebre Osamu Tezuka, Felipe revela que eles usavam espanhol como base. “Ele vinha do japonês para o espanhol, e o espanhol não estava bem dublado. Então nem sempre o que eu ouvia era o que estava na tela.” O processo foi considerado difícil por ele, por ser obrigado a não seguir o que ouvia, além das pausas na língua espanhola que não estavam na animação.
Outro trabalho icônico é Whis de Dragon Ball Super, um personagem com modulações vocais específicas que até se diferencia do tipo de personagem que o dublador costuma encarnar. Ele justifica esse tipo de resultado em um bom cuidado com a própria voz, como o ato de não fumar por exemplo. “Eu gosto de cantar, faço muito aquecimento e acho que minha voz está disponível para os graves, agudos e médios. Eu tenho um aparelho (vocal) que é como se fosse um bailarino que está sempre se aquecendo para dançar.” disse.

Bastidores do mercado de dublagem
Ao ser questionado sobre recomendações para pessoas que pensam em seguir no mercado de dublagem, Felipe destacou a importância do estudo frente à enorme concorrência. “Se você começar a dublar hoje, você ganha igual a mim. A sua hora é o mesmo valor da minha hora, o que vai diferenciar é que eu tenho mais tempo, mais trabalhos para fazer” explica. Ele apresenta a visão do estúdio, onde o responsável vai buscar por um diferencial bem claro para abrir as portas para profissionais com menos experiência.
Ainda segundo ele, é necessário ter algo realmente especial: “o fator X”. Ele descreve tal elemento como algo inexplicável, indo além do talento em certos casos, mas conectando o público de alguma forma ao dublador. “Eu nem acho, sendo bem sincero, que quando eu comecei a dublar, eu era tão bom. Eu acho que eu fui metendo a cara.” Continua, ao afirmar não saber se possui tal fator.
Outro aspecto importante para o Felipe é a ideia do dublador ser o seu próprio secretário, alguém responsável por agendar os compromissos. De acordo com ele: “você fica montando um quebra-cabeça para preencher a sua semana inteira”, muito por conta dos horários de trabalho e o tempo de deslocamento, o qual costuma ser calculado.
Mudança para São Paulo
Sendo originalmente do Rio de Janeiro, uma grande virada na carreira do dublador foi sua mudança para São Paulo, até vista como repentina na época. A motivação seria o fato de a cidade tê-lo atraído após viajar para lá, simples assim: “ah, que cidade legal, eu quero morar aqui” brinca. Após isso, ele pediu demissão de tudo, incluindo do aclamado e nostálgico estúdio de dublagem Herbert Richers.
Ele considera ter ganhado muitas oportunidades que valeram a pena, apesar de perder muitas coisas no Rio, reafirmando sua intuição dessa mudança ser importante. “Fez uma escolha? Olha para frente e faça o melhor possível com a escolha que você fez”. Felipe também comenta sobre ter sofrido um certo bullying profissional por ser carioca, mas eventualmente as coisas se acertaram e hoje se considera mais paulistano que carioca.
Desafios da IA na dublagem
Apesar de reconhecer mudanças eminentes do uso da inteligência artificial, Felipe destaca o valor da dublagem nacional: “a gente nunca se ateve ao texto, a gente sempre teve o nosso jeito de falar aqueles textos. A IA não vai fazer isso.” Ou seja, esta ferramenta não teria a capacidade de criar um personagem como o Whis de Dragon Ball Super como o conhecemos, levando em conta a quantidade de elementos adicionados pelo trabalho humano.

De qualquer forma, o entrevistado busca expandir seus horizontes com participação em curtas e longas. “Não preciso ficar trancado no estúdio, eu posso fazer novela, eu posso fazer cinema…” comenta. Na visão dele, a IA está o empurrando a fazer mais coisas dentro do ramo.

