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Desenvolvedora: Powerhoof
Publicadora: Powerhoof
Gênero: Adventure | point-and-click
Data de lançamento: 22 de junho, 2026
Preço: R$ 67,99
Formato: Digital
Plataformas: Nintendo Switch 2, Nintendo Switch, PC
Análise feita no Nintendo Switch 2 com cópia fornecida gentilmente pela Powerhoof.
Revisão: Manuela Feitosa
The Drifter acompanha Mick Carter, um homem meio perdedor, emocionalmente distante e com um passado que o assombra até os dias de hoje. No entanto, esses são apenas os seus problemas mais normais enquanto o mesmo se vê envolvimento em um assassinato brutal que o joga dentro de uma grande teia de conspirações ao maior estilo de histórias pulp de terror.
Com lançamento recente para o Nintendo Switch e Nintendo Switch 2, o jogo tem sido bem recebido desde a sua primeira estréia no o PC lá no meio de 2025, especialmente dentro do nicho de adventures point n’ click.
Carter não tem um segundo de paz
Em uma de suas viagens de volta para a sua cidade natal para o funeral de sua mãe, o protagonista Mick Carter acaba se envolvendo em um assassinato, onde é injustamente acusado de tê-lo feito.
O jogo inicia-se dentro de um vagão de trem, servindo basicamente como um breve tutorial de suas mecânicas essenciais. Após esse primeiro evento, o jogo já parte para uma série de acontecimentos catárticos onde é até difícil entender o que de fato está acontecendo, e essa abordagem é muito interessante pois nos bota na pele da confusão do protagonista ao vivenciar todos esses acontecimentos esquisitos de uma vez, no que parece um espaço muito curto de tempo.

Logo no início da aventura, Mick Carter chega a morrer — até mais de uma vez, dependendo da performance do jogador — o que também torna-se um dos grandes mistérios do jogo, junto com o motivo do assassinato que foi injustamente acusado e a grande conspiração por trás deste. Dessa forma, o grande enigma que assombra a narrativa é estabelecido logo cedo, e vai se desenvolvendo de pouco em pouco. No meio do caminho naturalmente fica mais claro sobre o que tudo se trata, mas como todo bom mistério, mais perguntas vão surgindo conforme as respostas vão chegando.
Como um todo, The Drifter lembra muito mais um filme de ação em sua narrativa, uma sequência de cenas de encher os olhos, com um narração dramática e um ritmo frenético que deixa o jogo extremamente viciante, em um constante sentimento de querer entender a história, o mistério e o porquê de aquelas coisas estarem acontecendo. Felizmente, o jogo entende que não dá pra se sustentar somente nesses momentos e dá tempo aos personagens respirarem: cenas com diálogos um pouco mais longos são comuns em determinados capítulos, onde conseguimos entender melhor os personagens, absorver suas dores e simpatizar com seus dilemas.
Narrativamente falando, The Drifter é bastante eficiente e não perde tempo com “encheção de linguiça”, por assim dizer, sem subtramas, sidequests, ou desvios do objetivo principal. O aspecto mais direto ao ponto é visível desde a sua apresentação inicial: logo após apertar o botão de novo jogo, The Drifter já lança o jogador direto na história sem dar muita explicação, cerimônia ou apresentação de personagem. Dessa forma, é seguro afirmar que demora um tanto até que a motivação do protagonista e quem ele é de fato fique claro.

O esforço extra para entregar uma experiência mais cinematográfica é notável. A todo momento, o jogo é narrado pelo protagonista, e além de o acompanharmos e termos acesso aos seus pensamentos, o mesmo está descrevendo os fatos conforme eles acontecem. Em muitos momentos a narração toma o lugar do que poderia ser uma animação e é utilizada para descrever acontecimentos que não necessariamente aparecem na tela de maneira óbvia.
Na maioria das vezes, esse aspecto narrativo é muito bem vindo e complementa a atmosfera noir e dramática da experiência. Lógico que devemos considerar em um geral a narração como algo mais estético do que utilitário, visto que na maioria das vezes essa característica torna-se redundante por não adicionar em nada na cena, pois as mesmas já contam com uma fidelidade visual o suficiente para que o jogador entenda o que está acontecendo.
Além da narrativa cinematográfica, The Drifter também é bem caprichado em suas set pieces, não tendo medo de ser grotesco além de ser criativo em inventar situações para o protagonista escapar. De uma forma até mesmo meio metanarrativa, o jogo considera o estado de falha do jogador como canônico para a história, evitando uma dissonância ludonarrativa.
Teorias de conspiração
Ainda por ser um jogo relativamente curto e direto ao ponto, o jogo acaba não lidando tão bem com a curva de dificuldade e complexidade dos desafios que são apresentados.
Aqueles que já são veteranos em jogos do tipo vão tirar de letra, mas pros marinheiros de primeira viagem pode ser algum desafio até a adaptação com a linguagem do gênero como um todo — dito isso, The Drifter é muito mais amigável do que qualquer adventure dos anos 90, considerando o quanto esses jogos se baseiam fortemente em lógicas específicas e podem ser um tanto obtusos —. De qualquer forma, The Drifter nunca chega a ser um jogo realmente complexo e cabeçudo, visto que seu foco é realmente a narrativa.

Adventures point n’ click sempre foi um dos meus gêneros favoritos de videogame, e uma vez que o Nintendo Switch 2 foi anunciado com a funcionalidade de mouse nos Joy-Cons novos, a primeira coisa que me veio à cabeça foi essa esperança de portes de jogos nesse estilo que de fato usassem os controles do console dessa forma. The Drifter usa o modo mouse com maestria, oferendo uma experiência quase 100% próxima ao que seria com um mouse de PC, plataforma para onde a experiência foi originalmente pensada.
De todo modo, The Drifter ainda faz um excelente trabalho em adaptar a jogabilidade para os controles tradicionais fora o modo mouse. Com o analógico esquerdo movemos o personagem de forma tradicional, enquanto com o direito é possível selecionar os pontos de interesses visíveis na cena representados em uma rodinha próxima ao personagem, após selecionado o ponto em questão, pressiona-se ZR para interagir — funciona mais ou menos como uma espécie de equivalente point n’ click da famosa roda de armas do GTA V.

Fora as especificidades da plataforma da Nintendo, o jogo funciona de maneira extremamente tradicional para o gênero: interagimos com o cenário, conversamos com pessoas, pegamos e combinamos itens e resolvemos enigmas e desafios lógicos em prol de progredir com a história. Nada muito diferente do habitual, mas nada que chegue a ser um demérito, visto que o que torna o jogo especial é com toda certeza é a sua arte e narrativa.
Tecnicamente falando, The Drifter é um jogo de qualidade impressionante para um estúdio tão pequeno. No geral, o jogo não se propõe a muito em termos de inovação técnica, mas tudo o que faz é extremamente bem feito. Desde a pixel art que mostra uma visão única de adventures da estética popularizada pela Sierra — que posteriormente seria extremamente referenciadas em indies como o recente Perfect Tides: Station to Station— até em sua trilha sonora e qualidade da animação, tudo é extremamente bem polido e enquadrado de maneira interessante. Os efeitos de explosões, iluminação e partículas são particularmente um ponto que me chamou bastante atenção, criando essa impressão de que o cenário é de fato vivo e está reagindo aos objetos ao redor o tempo inteiro.
Por representar cenas bem simples onde até mesmo os espaços abertos são claustrofóbicos, o jogo torna o que pode ser de certa forma uma limitação em uma oportunidade de fazer com que todas as telas presentes tenham um nível de detalhe de encher os olhos. Normalmente isso pode ser uma faca de dois gumes em jogos desse tipo, visto que representar e guiar o jogador de forma intuitiva aos itens que são interativos pode se tornar um problema em ambientes muito abertos e hiper detalhados. Nesse sentido, The Drifter acerta em cheio, e consegue ser um jogo belo mas que não distrai de suas necessidades mecânicas para progressão.

Um simples problema de The Drifter se encontra no seu inventário. Como tradicional de adventures point n’ click, coletamos diversos itens ao longo da jornada que são representados dentro do inventário do personagem. O problema se dá a partir do fato de que a representação em pixel art desses objetos é bem limitada, tornando difícil entender o que é cada um daqueles objeto que temos selecionado, e não ajuda nem um pouco o fato de serem totalmente monocromáticos, representados em uma escala de cinza. Por sorte, o jogo também mostra o tempo inteiro o nome dos itens, mas quando nos deparamos com capítulos onde temos itens de formato semelhante, isso se torna um problema.
Solucionando o mistério

The Drifter é uma aventura eletrizante do início ao fim, com um ritmo quase impecável e uma teia de mistérios que não vai dar vontade de largar o controle tão cedo. Além de toda a sua qualidade artística como um todo, é ótimo ver um jogo desse tipo respeitar tanto o console quanto as suas específicidades, criando o que no futuro pode acabar se transformando uma fundação para tornar o Nintendo Switch 2 uma ótima casa para os adventures point n’ click.
Prós:
- Ritmo da narrativa acelerado, viciante, lida bem com uma história que exige ação em um tipo de jogo mais “parado”;
- O sistema desenvolvido para a jogabilidade no controle é excelente, fazendo com que a experiência de console não seja inferior ao PC;
- Dá espaço para os personagens “respirarem”, o que ajuda na construção dos momentos de catarse do jogo;
- Teia de mistérios bem construída deixa o jogador engajado o tempo inteiro;
- Visualmente estonteante com uma pixel art que faz com que o mundo pareça vivo e reativo.
Contras:
- Inventário confuso com itens representados de maneira simples demais que acabam confundindo na leitura de imagens.
Nota
9
