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Desenvolvedora: MAGES.
Publicadora: Spike Chunsoft
Gênero: ADV | Ficção científica
Data de lançamento: 29 de outubro de 2026
Preço: R$ 249,99
Formato: Digital/Físico
Plataformas: Nintendo Switch, Nintendo Switch 2, PlayStation 5, Xbox Series X|S, PC
Análise feita no Nintendo Switch 2 com cópia fornecida gentilmente pela Spike Chunsoft.
Revisão: Juliana Paiva Zapparoli
Nota: A análise está ilustrada com cenas referentes apenas ao primeiro capítulo, em virtude de um bloqueio de screenshots do próprio jogo analisado.
Estamos em um certo ponto na indústria de jogos eletrônicos em que é plenamente possível que um mesmo jogo tenha diversas remasterizações. Com o avanço contínuo da tecnologia ao longo dos anos, nasce a percepção em parte do público que um tenha tenha envelhecido ou que esteja de difícil acesso, graças ao constante ciclo de novidades dos novos consoles em cada geração. É bem subjetiva a ideia de que um jogo mecanicamente “envelheça”, no entanto, no departamento estético, há de fato espaço para atualizações, visto que os consoles e ferramentas de desenvolvimento mais modernas abrem espaço para que os desenvolvedores se expressem com maior liberdade.
Steins;Gate RE:BOOT ocupa um espaço curioso nesse contexto. O game original de 2009 foi bastante aclamado pelo público e recebeu uma adaptação para as telas como anime; aproveitando o ensejo, os desenvolvedores lançaram Steins;Gate Elite, um remake do ADV utilizando as cenas do anime. Esse lançamento teve recepção um pouco dividida: a ideia de utilizar as cenas da animação tirou muito do apelo do original, além de cortar alguns conteúdos.
Chegamos, então, a 2026, na terceira versão do game original, dessa vez voltando para a representação padrão de uma visual novel, porém, completamente repaginado, com novas artes para cenários, personagens e os menus. Minha experiência com a série até agora se resumia ao anime, que assisti há um tempo e gostei bastante. Sempre tive curiosidade para ver o material que deu base à animação, ainda mais levando em conta que muito conteúdo é cortado em adaptações para as telas.
Começo minha jogatina bastante animado e já com apreço prévio por Steins;Gate. Agora, vamos analisar para onde o texto do jogo vai me levar.
Nova roupagem

O jogo é desenvolvido pela MAGES., antes chamada 5pb., desenvolvedora conhecida por seu trabalho em visual novels/ADVs e também responsável pelo Steins;Gate original de 2009. Como é padrão no gênero, há pouca influência do jogador no avançar da experiência, a maior parte do tempo vai ser dedicada a ler o texto do jogo e ir apertando A para avançar os diálogos. Opções padrões para melhorar a experiência estão disponíveis, como poder acelerar os diálogos, deixar que eles discorram naturalmente alinhados com a dublagem e acessar rapidamente o histórico das conversas para reler algo que possa ter passado batido.
A grande diferença desta versão veio na repaginação estética, apesar de respeitar a proposta visual do jogo original, há um ar mais moderno e mais fluido para a experiência como um todo. Nesse sentido, as novas artes para personagens e cenários acabam parecendo mais claro e limpos e entendo que isso é algo que pode afastar ou atrair jogadores, a depender do gosto pessoal.
Não está ruim, mas é inevitável pensar que há uma certa “suavização” da personalidade e o tom mais “sujo” que o visual original tinha. Se comparar, por exemplo, o traço original da personagem Mayuri, em um antes e depois, as mudanças são visíveis. Proporções diferentes, o cabelo menos pontudo e mais cheio, os detalhes no geral mais arredondados, tudo isso é bastante perceptível.
Quando o assunto são os cenários, as mudanças são sútis e, no geral, o upgrade me agradou. O visual mais limpo e detalhado ajuda a dar um pouco de profundidade, mesmo sem mudar tanta coisa.

A tecnologia E-mote, desenvolvida pela MAGES., é outro destaque. No geral, esse ponto me agradou bastante e acho que ajuda na experiência geral de uma visual novel. Na prática, o sprite estático dos personagens ganham “vida”, mexendo não só a boca, como era nos jogos anteriores, mas o corpo todo, o rosto, os olhos, aumentando o nível de expressividade em tela.
Não chega a ser de um fato como um modelo animado à mão, é perceptível que é uma imagem 2D se retorcendo com alguns truques bem posicionados, mas o resultado final é inegavelmente bom e um upgrade em comparação a imagens estáticas. Aliado a essas cenas de diálogo com o E-mote, também temos desenhos estáticos especiais para cenas importantes, como de praxe em jogos do gênero.
Como um todo, Steins;Gate: Reboot é basicamente uma reconstrução do jogo original utilizando as ferramentas mais modernas que a MAGES. tem à disposição hoje. Por se uma reconstrução completa, isso implica em pequenas mudanças aqui e ali na direção de arte original e não acho que isso seja um problema, ainda que fosse interessante uma modernização um pouco menos genérica para a arte dos personagens principais.
Base da história
Se você não sabe nada sobre Steins;Gate, saiba que é uma história sobre viagem no tempo. E se, a partir dessa descrição, você suspeite que seja uma típica história de viagem no tempo, repetindo todos os clichês do gênero, calma! Não é esse o caso aqui. É interessante ver o que acontece quando o autor tem um genuíno interesse em pegar um tópico batido e explorar por caminhos diferentes dos que já foram feitos, encontrando expressões diferentes dentro da mesma base.

A história se passa no distrito de Akihabara, em Tóquio, no Japão, onde o universitário Rintaro Okabe é líder de um laboratório amador que faz diversos experimentos para criar bugigangas de utilidade duvidosa. Mayuri e Itaru são seus amigos e também participam das atividades do laboratório, entrando nas loucuras de Okabe.
Loucuras? É, porque o protagonista da história é meio pirado mesmo. O lance é que ele é completamente fissurado por obras de ação, ficção científica e espionagem, de tal maneira que ele age como se estivesse em um desses filmes, soltando frases de efeito, fingindo estar em ligações importantes, usando codinomes para ele e para todos ao seu redor e sempre inventando algo para deixar o mundo comum um pouco mais interessante.
Olha, sendo bem sincero, quando assisti ao anime, me impressionei com o quanto isso é irritante no início da história, mas aqui na visual novel achei ainda pior. A grande diferença é que, tendo acesso aos pensamentos do personagem, fica mais evidente que ele mesmo sabe que isso tudo é uma invenção e não espera ser levado tão a sério assim.
A ideia é realmente de alguém tentando entreter e chamar atenção dos seus colegas mesmo, o que não muda o fato de que essa é, para mim, uma barreira inicial para se afeiçoar ao personagem e ao clima inicial do jogo — falarei mais sobre isso mais a frente.

Seguindo a história, o grande pontapé inicial é quando em um evento, Okabe encontra o corpo de Kurisu Makise esfaqueado em uma sala vazia, outra universitária da mesma idade dele. Surpreso com o que viu, ele puxa o celular, manda uma mensagem para Itaru e algo estranho acontece: toda a realidade ao seu redor muda. A própria Kurisu, que ele acabara de ver morta, aparece viva diante dele, deixando-o completamente confuso sobre o que aconteceu.
A partir daí, uma longa história se inicia.
Uma drástica mudança de tom
Steins;Gate tem uma particularidade curiosa na sua estrutura narrativa geral, algo que me surpreendeu vendo o anime e no jogo é a mesma coisa. A primeira metade da história, basicamente até o capítulo 5, tem um tom leve, cômico, de forma até exagerada, porém, daí para frente, a coisa muda completamente, o drama se instaura de forma definitiva e o peso dos acontecimentos aumenta drasticamente.

Falando assim, pode parecer que essa diferença drástica aponta para uma história desconexa ou sem um fio condutor claro, no entanto, é exatamente o contrário. A primeira metade da história é a base de tudo que acontecerá depois, e o jogo basicamente pede para que o jogador tenha paciência de aguardar todo esse desenvolvimento de personagens, de cenários, de relacionamentos, para que ele possa elevar drasticamente o risco de cada ação dos personagens posteriormente, tendo em conta toda a bagagem anterior.
A sacada é inteligente também porque traz uma lição. Na primeira metade do jogo, há a impressão de que nada realmente apresenta um grande risco, os personagens vão gradativamente aumentando a aposta e sendo mais ousados com seus experimentos, sem considerar muito as repercussões de mexer com o tempo ou mesmo com grandes corporações com poderio militar.
Há uma segurança ao acompanhar a história porque parece que eles nunca serão pegos, até o momento em que o lado que estava quieto começa a revidar e as repercussões vêm de maneira bem mais intensa e desproporcional. É ai que o jogo brilha, pois todos os personagens, que até então pareciam apenas bobos ou caricatos nas situações cotidiandas, começam a ser desafiados de maneira intensa, tendo que assumir responsabilidades cada vez maiores e demonstrar suas sensibilidades e seus limites pessoais.
É irônico porque Rintato Okabe passa grande parte dos primeiros capítulos brincando de faz de conta, como se ele fosse um grande espião, com o governo atrás dele e mais uma série de fantasias. A partir do capítulo 6, isso meio que “perde a graça”, Okabe para de fazer esse tipo de gracinha porque tudo se tornou real demais e aquilo que parecia divertido na ficção não tem a menor graça na vida real.

Eu acho válido destacar que, para fins de quem está acompanhando a história, a primeira metade de Stein;Gate parece bem menos inspirada. O humor nunca parece me pegar e o comportamento infantil dos personagens não é lá muito carismático à primeira vista. Além disso, há uma série de piadas relacionadas à cultura otaku japonesa, incluindo certa objetificação das personagens femininas, que não é lá muito agradável de se assistir.
No entanto, o ponto é que, ao olhar de certa distância essa primeira metade do jogo, é evidente que ela tem o seu lugar e constrói uma futura quebra de expectativa quando chega à segunda metade, sem falar que, sendo sincero, até que me afeiçoei a algumas loucuras dos personagens quando estava mais próximo ao final. A carga emocional de alguns acontecimentos consegue prejudicar tanto a psique de alguns integrantes do grupo, que o jogador sente falta até das palhaçadas não tão engraçadas da primeira metade.
Devo reconhecer que há certa jogada de mestre nessa estrutura e que posiciona Steins;Gate como uma narrativa bem original por conta desse aspecto. Mas o ponto negativo é essa barriga na primeira metade — e falo aqui de quase 10 horas de jogo, viu? Mas é só aquele discurso “continua, que a parte boa ainda vai chegar”, ou, no caso, a parte ruim.
Ritmo de jogatina
O texto de Steins;Gate é consideravelmente denso. Em relação ao anime, aqui tive bem mais informações principalmente sobre o jargão técnico utilizado para explicar as mirabolantes teorias sobre o funcionamento do tempo e como seria viajar para o passado ou o futuro.
Muita coisa passa voando pela cabeça e obviamente não sei dizer se tudo que está aqui tem comprovação científica verídica e está explicado de forma correta. De todo modo, é evidente que quem escreveu o jogo tem um interesse profundo no tema e buscou amarrar da melhor forma possível os acontecimentos da história.

O tempo voa enquanto você vai acompanhando cada diálogo, cada cena, muito disso por conta de personagens que crescem positivamente no avançar da história e porque há constantemente aquela sensação de que algo grande irá acontecer em breve, mesmo que demore para acontecer.
Eu me debrucei bastante sobre o jogo em um final de semana e foram horas a fio lendo e apertando A sem sentir o tempo passar. Não só lendo, mas também escutando: todos os diálogos do jogo são dublados em japonês, com exceção dos pensamentos do protagonista.
Há certa tradicionalidade na maneira como tudo funciona aqui, bem na linguagem típica de visual novels, então não espere nada muito fora da caixinha como outras séries do gênero têm explorado, quebrando a quarta parede ou trazendo muitas escolhas para o jogador. Há uma interação específica que dá liberdade para o leitor que é mexer no celular.
O dispositivo pode ser aberto quase a qualquer momento para checar os e-mails; apesar de parecerem inofensivos, você pode ir respondendo a algumas mensagens e isso influencia a rota que está seguindo, ou seja, há diferentes finais possível em Steins;Gate. Isso pode parecer um ponto muito importante e até que é legal ver os diferentes finais, mas vale apontar que há um desfecho “verdadeiro”, este sendo consideravelmente mais satisfatório que todos os outros — a grande dificuldade é conseguir alcançá-lo sem precisar de nenhum tutorial online.

Um esforço válido
STEINS;GATE RE:BOOT é uma competente tentativa de trazer uma história aclamada para um novo público. Apesar das muitas mudanças visuais, a experiência original segue na sua maior parte intacta e o conteúdo extra, que se resume a um novo final alternativo, é pouco relevante para quem já dedicou muitas horas ao game original.
No final do dia, vejo esse lançamento mais como uma ótima opção de disponibilizar o jogo em plataformas modernas, o que é exatamente o que eu estava precisando e veio muito a calhar no meu caso. E, convenhamos, hoje não há plataforma melhor que o Nintendo Switch (1 ou 2) para jogar uma visual novel: ela não exige grandes processamentos ou gráficos mirabolantes, de forma que é uma experiência visual e funcionalmente satisfatória, tanto na TV como no modo portátil. Inclusive, vou destacar aqui que jogar na tela grande do Switch 2, no portátil, é uma maravilha e foi minha maneira favorita de curtir esse remake.
Denso, irregular e inesperadamente inteligente, Steins;Gate Re:Boot merece sua atenção se não conhece a série, mas fica a minha recomendação pessoal: jogue primeiro, assista ao anime depois.
Prós:
- Modernização do jogo é uma saída eficiente para apresentar experiência a um novo público;
- Personagens carismáticos e suas expressões via tecnologia E-mote funcionam para trazer um ar de novidade ao game;
- Narrativa do jogo segue praticamente intacta, sendo um exemplo ainda bastante original de quebra de expectativa e de mudança de tom;
- Decisões sutis em conversas via celular com os personagens podem levar o jogador a rotas alternativas com finais diferentes, resultando em uma interessante proposta de influência do jogador na história do game;
- Upgrade visual em resolução e qualidade faz o jogo se apresentar de forma satisfatória no contexto da nova geração.
Contras:
- Conteúdo novo é pouco relevante e não chega a justificar a nova jogatina para aqueles que já jogaram o jogo;
- Nova direção artística modernizada acaba “limpando” o design de alguns personagens, trazendo uma estética um pouco mais genérica;
- Primeira metade da história ainda é o ponto baixo e exige certo esforço nas primeiras horas.
Nota
8
