- Review | Trash Goblin - 15/04/2026
- Review | Planet of Lana II - 08/04/2026
- Review | Darwin’s Paradox! - 30/03/2026
Desenvolvedora: Split Milk Studios
Publicadora: Split Milk Studios
Gênero: Simulação | Cozy Games
Data de lançamento: 26 de março, 2026
Preço: R$ 59,99
Formato: Digital
Plataformas: Nintendo Switch, PlayStation 5, Xbox Series X|S, PC
Análise feita no Nintendo Switch com cópia fornecida gentilmente pela Spilt Milk Studios.
Revisão: Davi Dumont Farace
Quanto mais me habituo a uma rotina CLT, lidando com prazos apertados, demandas disparadas de todos os lados e tendo de lidar com mil e um clientes, com mais carinho olho para jogos como Trash Goblin.
Simuladores de praticamente todos os trabalhos inundaram o mercado nos últimos anos (e continuarão a aparecer, sem dúvidas). Mas aqueles que buscam semelhança na realidade não me apetecem, por prolongarem, essencialmente, a rotina de trabalho ao momento de lazer. Ainda, o jogador pode vir a ter uma perspectiva do trabalho “vinculada à gameplay gamificada”, e empresas se aproveitam dessa associação externa para tirar mais proveito dos trabalhadores, transformando o trabalho em quests, bônus em loot, etc.
Pessoas bem mais capazes do que eu já abordaram o tema, mas caso o assunto seja novo ao leitor, recomendo que busque textos mais embasados, como o artigo de Iasmin Maia Pedro entitulado A Gamificação como Abordagem Educacional Mercadológica, em que analisa, a partir de uma perspectiva crítica, a incorporação de elementos de Game Design nas empresas.
O que há, então, de diferente em Trash Goblin? Simples: o lúdico. Aqui controlamos um pequeno Goblin que cata sucatas, as restaura e as enriquece de forma criativa. É um simulador de trabalho sim, mas artesanal e que valoriza a inovação ante a rotina repetitiva e laboriosa. É uma perspectiva cozy da atividade artesanal, resgatando a ideia de empreender do discurso neoliberal para o emprego de funções artísticas, por assim dizer.
Um Goblin e uma esponja
Trash Goblin não é um jogo complexo. Seu loop é simples, absorvido nas primeiras horas de jogo e se estende ad eternum: recebemos peças misteriosas, precisamos recuperá-las removendo os dejetos que as cobrem, limpamo-las com uma confiável esponja e, posteriormente, vendemo-las a transeuntes curiosos. Podemos também ser criativos ao juntar peças umas às outras, conferindo certa personalidade em uma coroa com um pingente de borboleta ou uma lámina de espada adjunta a um caneco de cerveja.

Mas é nessa simplicidade que encontramos um conforto ciclo a ciclo, pedido a pedido. Não há aqui necessidade de cumprir prazos, seguir modelos para cada pedido ou tentar otimizar uma produção. O charme do jogo está, de fato, na descoberta de novas peças, na interação com os pacientes clientes e na expansão da loja, com melhorias de vida ao pequeno Goblin, mas sem uma tentativa de transformá-lo em uma máquina de alta performance.
Aos poucos, vamos conhecendo as diferentes raças que habitam a cidade medieval onde temos nossa loja, com personagens bem ilustrados e caracterizados em assets 2D que oferecem um interessante contraste com os modelos 3D dos objetos. Conforme atendemos às demandas, ganhamos afetividade com cada uma das raças, e vamos recebendo pedidos mais específicos e desafiadores. No fim, a recompensa financeira é sempre justa, contribuindo a uma progressão sem muitos obstáculos para garantirmos upgrades nas ferramentas e desbloqueando funcionalidades na loja.
O lado positivo de um loop tão fechado sem um grande objetivo grandioso a ser alçado é que podemos de fato tomar nosso tempo. Se quisermos experienciar apenas um dia no jogo, restrito a um número limitado de atividades, não vamos sentir falta de progressão, assim como se quisermos passar horas a fio limpando, arrumando e vendendo bugigangas diversas, o jogo fornece conteúdo o suficiente para a atividade não se tornar massante e desinteressante.

Um curioso port
Talvez, minhas únicas críticas estejam no port em si do título, lançado originalmente em 2025 para PC. Como aqui estamos falando de uma versão de Switch 1, não temos as funcionalidades de mouse do Switch 2, que absolutamente imploram para serem exploradas aqui, visto que as ações de mouse para limpar ou controlar objetos foram transferidas para os analógicos.
Embora funcional, a falta de acurácia nos movimentos é bastante perceptível agora que já experienciamos ports fantásticos de jogos PCs que exploram profundamente o mouse do Switch 2, como Blue Prince e Shadow Gambit: Blades of Shogun. Mesmo um controle de movimento já faria bastante diferença no feeling geral do jogo, dando-nos um pouco mais de conexão com a atividade artesanal.

Outro ponto que considerei curioso, no mínimo, foi uma falta de teste de UI / UX com certos menus do jogo. Aqui, temos um glossário em que podemos registrar e armazenar peças já curadas. O problema é que, ao abrir o tomo, não conseguimos fechá-lo a não ser que selecionemos o botão de menu, fechando a HUD do livro.
Ainda, caso o cursor esteja selecionando algum objeto e pressionemos tanto o botão A quanto o B, o objeto é selecionado e removido do tomo, gerando alguns bugs de intereção de objeto. Quando estamos lidando com muitas janelas ao mesmo tempo (o pergaminho que armazena os pedidos dos clientes, o tomo e balões de diálogo, por exemplo) a tela fica recheada, como se tomada por pop-ups, gerando um visual confuso e até ocultando opções de diálogo, travando-nos em algumas cenas.
Um Artesão não quer guerra com ninguém

Apesar de render um texto um pouco mais curto que o habitual, acredito que há muito a se tirar do ciclo de gameplay de Trash Goblin. Mesmo com um port que compromete as qualidades da obra, a versão do Switch carrega o melhor aspecto de jogos desse tipo: a portabilidade.
Não há nada melhor do que fazer alguns puzzles, limpar alguns objetos e fazer uma ou outra venda no intervalo entre uma atividade e outra. Além disso, o jogo consegue fugir do padrão de simuladores, dando-nos mais um desejo de realizar trabalhos artesanais do que treinando-nos para um mercado de trabalho cada vez mais gamificado.
Prós:
- Bom contraste entre modelos 2D e 3D, criando um mundo instigante para descobrirmos por meio dos NPCs;
- Loop de gameplay simples consegue nos manter engajados pela diversividade de decorações possíveis.
Contras:
- Port do Switch é limitado pelos controles analógicos;
- Apresenta limitações de UI / UX que deixam o controle de menus confuso.
Nota
7
