Desenvolvedores: YMCAT, Suzume Takanashi
Publicadora: Regista
Gênero: Aventura
Data de lançamento: 23 de abril de 2026
Preço: US$ 15.99
Formato: Digital
Plataformas: Nintendo Switch, PC
Análise feita no Nintendo Switch com chave fornecida gentilmente pela Regista
Revisão: Paulo Cézar Viana de Paiva
Desenvolvido por YMCAT e Suzume Takanashi, Alice in Wonder Underland AIWU é uma aventura sombria daquelas que remetem a projetos underground do RPG Maker. Cabe ao jogador guiar Alice por um mundo bizarro, sinistro e um tanto surreal que se mostra cheio de perigos.
Um Mergulho em uma Surrealidade Fragmentada

Um dia Alice acorda em um lugar que não reconhece ouvindo barulhos de batida na porta. Ela decide investigar o que é e encontra um coelho preto e decide ir atrás dele, encontrando uma máquina de teletransporte para outras áreas do mundo. Porém, o que ela encontra logo se mostra perigoso, então a garota se junta ao coelho para a jornada.
De forma geral, a história é um tanto fragmentada. Há várias possibilidades de onde ir, levando o jogador a situações bem diversas, como tentar fugir de demônios que aparecem na floresta com uma névoa espessa, assumir o controle de um navio pirata ou se infiltrar em uma escola após o horário das aulas.

A tradução para o inglês não é das melhores, tendo alguns detalhes de interface que acabam sendo um pouco equivocados ou termos inconsistentes (como itens com nomes diferentes nos diálogos e na interface). Porém, isso não chega a ser um problema impossível de contornar, sendo fácil entender tudo que é necessário, mesmo com a leve estranheza ocasional.
É importante também ter em mente que se trata de uma daquelas experiências em que entender todos os detalhes nem é tanto o foco. A ideia é mais vivenciar o extraordinário na pele e sentir os detalhes na pele, interpretando-os da sua forma particular com o que você consegue captar. Esse tipo de história de jogo é complexa, tendendo a uma aparente aleatoriedade que alguns jogadores não vão conseguir aproveitar tão bem, especialmente porque acabam sendo pinceladas de ideias sem tanto desenvolvimento e detalhe.
Exploração no Coração de Tudo

O grande foco da experiência é explorar e conhecer as loucuras de cada região e como elas afetam a gameplay. Por exemplo, na floresta, a névoa aparece em alguns momentos quando transicionamos de tela, mas isso acontece de forma aparentemente aleatória, deixando o jogador em uma situação intencionalmente precária de tentar lidar com o perigo que ela acarreta.
Dentro da névoa, criaturas monstruosas podem atacar o jogador, sendo necessário evitar ser tocado por elas. Como os caminhos da floresta são estreitos, esquivar se torna um desafio e é importante ter cuidado para que Alice não seja encurralada em um dos vários caminhos sem saída.

Vasculhar cada canto leva a encontrar novos objetos escondidos pelos cenários e descobrir novas formas de avançar. Entre os itens que vasculhamos, além dos de utilidade prática, temos uma espécie de enciclopédia com descrições. Enquanto a tendência da história é geralmente um tanto mais sinistra, há bastante piada na forma como eles são apresentados. Por exemplo, um item pode ser apresentado como se fosse algo lendário de um RPG e ser uma coisa extremamente banal do dia-a-dia, uma brincadeira extremamente divertida.
Um detalhe curioso nesse sentido é que interagir com o mundo pode envolver o uso de itens, mas em boa parte dos casos o foco é em roupinhas alternativas. Por exemplo, uma vez que o jogador pega a roupa de pirata, é possível assumir o controle da tripulação. Na cidadezinha japonesa, dá para pegar o uniforme escolar em uma lojinha e dentro da escola tem o maiô do colégio para poder andar pela piscina do lugar. Assim, cada roupa muda a forma como encaramos o mundo e as possibilidades de interação, sendo um sistema bem atípico e interessante.
Perspectivas de Mundos Possíveis

Quanto mais exploramos, mais localidades novas abrimos em uma espécie de mapa de nós conectados com formato de bolhas. A variedade dos locais que exploramos é bem interessante e um dos pontos fortes do jogo. Até a perspectiva de câmera muda em alguns momentos para criar cenas específicas, como a entrada para a escola no alvorecer sendo um corredor em loop que cria uma sensação angustiante no trajeto. Há ainda alguns minigames, com especial destaque para os jogos virtuais disponíveis no Japão de época que emulam o estilo retrô do Game & Watch e do NES.
Tanto o estilo visual quanto a trilha sonora ajudam muito a criar essas sensações de esquisitice e estranheza. Além de brincar bastante com iluminação, a obra tem um estilo que se inspira na combinação “creepy–cute”, ou seja, de usar coisas fofinhas de forma mórbida, aproveitando-se do choque da combinação. O traço feito à mão é um fator bem interessante, mesmo que em alguns pontos possa ser confuso entender as bordas de caminhos e o que é atravessável ou não.
Já no aspecto sonoro, temos algumas faixas curiosas, como o tema da floresta que usa motifs da música clássica Für Elise de Beethoven para depois evoluir para um lado totalmente diferente e certas localidades em que a música muda totalmente para um efeito sombrio baseado em toques bem espaçados. Outro exemplo interessante é a área que representa um Japão da época conta com uma música de rádio cujo estilo é bem característico do passado, seja pelo ritmo da música, pelos efeitos de gravação antiga ou até mesmo o estilo de voz e a impostação.
Uma Esquisitice Convidativa

Alice in Wonder Underland AIWU é uma experiência curiosa e diversa de exploração com elementos de terror. Tem uma engenhosidade fascinante em sua variedade de mundos que mantém o jogador sem saber exatamente o que esperar e quais perigos estão à espreita até de fato mergulhar nas situações. Apesar de alguns detalhes da experiência serem pouco desenvolvidos e da tradução para o inglês ter pequenos deslizes, vale mergulhar de cabeça nessa obra criativa.
Prós:
- Diversidade de ideias (não apenas estéticas, mas também de gameplay) exploradas nas várias localidades do jogo;
- Sistema de roupinhas como forma de alterar a sua interação com o mundo é uma ideia bem interessante;
- Clima de terror envolvente que brinca com o contraste do fofo e do sombrio.
Contras:
- A tradução para o inglês poderia ser de melhor qualidade;
- Ao pincelar tantas ideias, muitos aspectos acabam mais rasos e subdesenvolvidos, mesmo tendo em mente a intenção de abstração.
Nota
7,5
