Desenvolvedora: Nihon Falcom
Publicadora: XSEED Games
Gênero: RPG de ação
Data de lançamento: 28 de abril, 2026
Preço: R$ 119,99
Formato: Físico/Digital
Plataformas: Nintendo Switch
Análise feita no Nintendo Switch com cópia fornecida gentilmente pela XSEED Games.
Revisão: Juliana Paiva Zapparoli
Nada de Lara Croft ou Nathan Drake. Vai chocar, mas o maior aventureiro do mundo dos videogames é Adol Christin.
Por quase 40 anos, Ys tem evidenciado os feitos notórios do rapaz de cabelos carmesim que o fez ser conhecido por sua alcunha através de um fascinante mundo mítico inspirado na Europa, repleto de mistérios a serem descobertos e culturas diferentes para conhecer. Cada jogo é um capítulo que acentua seu status de lenda e, onde quer que Adol esteja, deixará sua marca.
Em Ys Memoire: Revelations in Celceta, no entanto, abrimos o livro em um capítulo mais prematuro das jornadas de Adol, no qual compreendermos um pouco de seu passado enquanto vivenciamos e entendemos os mistérios que assolam Celceta. Vale ressaltar que, esta entrada trata-se de uma remasterização de Ys: Memories of Celceta do PS Vita, um remake para Ys IV, de 1993, sendo está considerada a versão canônica que substitui todas as versões anteriores do game.
Leia também:
- Review | Ys IX: Monstrum Nox;
- Review | Ys Memoire: The Oath in Felghana;
- Review | Ys X: Nordics;
- Review | Ys X: Proud Nordics;
- Review | Ys vs. Trails in the Sky: Alternative Saga.
Embora já tenha jogado meia dúzia de jogos de Ys, este é meu primeiro contato com Ys IV, portanto, focarei na minha experiência com o jogo e não em termos técnicos do port. Também vou abordar brevemente as novidades desse remaster só para não passar em branco.
Onde quer que Adol vá, os problemas o seguem

O palco da vez é na Grande Floresta de Celceta, na região de Celceta, mas começamos a história na cidade de Casnan, que se tornou parte do Império Romun graças à descoberta de veias de ouro nos arredores da floresta. No entanto, é dito que aqueles que ousam desafiar os perígos que assolam a Grande Floresta de Celceta nunca retornam, mas Adol Christin, pelo menos, saiu de lá com vida, embora completamente amnésico.
O que Adol descobriu lá ou como perdeu suas memórias é a pergunta do milhão. Felizmente, ele terá o apoio de Duren nesta entrada, um negociante de informações que diz que o conheceu previamente. Para além de sua importância na história, ele serve como um daqueles personagens que fazem as perguntas pelo jogador, já que Adol é um personagem self insert. Após salvarem alguns mineradores de um ataque de monstros, o protagonista e Duren aceitam a oferta de trabalho da Governadora Geral de Casnan para explorar e mapear a Grande Floresta de Celceta a fim de facilitar a busca do império pelo ouro, mas isso é apenas a oportunidade perfeita para resolvermos o grande quebra-cabeça que é este jogo.

Quando falamos de design narrativo, a grandiosidade de Ys neste aspecto não é sobre em como a história é introduzida ao jogador, mas sim a capacidade supreendê-lo ao escalonar seu escopo progressivamente à medida que avançamos. A maioria dos RPGs japoneses com a premissa de “a jonada do herói” é sustentado pelo conceito de aventura no qual “o protagonista começa com a missão de salvar o gato da vizinha, mas termina o jogo enfrentando Deus”. Ys não é diferente disso, mas ele trabalha tais tropos de forma muito mais aprofundada e com coerência, a qual se beneficia muito mais do misticismo por trás de sua lore e construção de mundo, acima de tudo, entregando reviravoltas imprevisíveis quase todo o tempo, mesmo não sendo o ápice da narrativa.

A Grande Floresta de Celceta é referenciada por ser altamente perigosa por conta das feras selavgens que lá habitam, por ser inexplorada e dos rumores de que ninguém sai ileso ao adentrá-la. Essa nível de superficialidade não impressiona à primeira vista até você, o jogador, explorá-la de verdade sob a ótica de Adol, descobrindo que até mesmo seres humanos habitam lá há séculos, se adaptando aos perigos da florestas e criando sua própria cultura, sem conhecimento amplo do mundo exterior. Não me surpreenderia se Kanehito Yamada afirmasse que o conceito do Planalto Norte em Frieren e a Jornada para o Além tivesse sido inspirado em Ys IV.

Isso dito, como se não bastasse Ys já ser uma franquia bastante acessível em termos narrativos, o enredo objetivo de Revelations in Celceta é um convite para quem acha que está perdendo algum tipo de continuidade narrativa por estar jogando o quarto título da série. Engano seu. Sua história é autocontida, de progressão linear, mas que se expande de maneira inteligente dividindo os acontecimentos entre o passado, quando Adol explorou a floresta pela primeira vez, e o presente, lidando com as consequências de suas ações na floresta enquanto amnésico.
Exploração que mistura Zelda com um pouco de collect-a-thon

Embora o jogo ofereça uma estrutura narrativa linear, quando falamos da exploração, que inclusive é intrínseca à história, ela se comporta de maneira mais livre. É importante observar também que explorar as camadas da Grande Floresta de Celceta é a forma como descobrimos os problemas nos quais Adol se meteu antes de perder as memórias.
Dito isso, aqui entra o fator collect-a-thon que citei no tópico: ao longo da jogatina, coletamos os fragmentos de memórias que darão mais nuances aos acontecimentos prévios. Não apenas isso, Adol se lembrará de sua infância antes de se tornar um aventureiro e o que motivou para tal, mas também teremos vislumbres dos eventos que antecedem a entrada na floresta, trazendo cenas com seu companheiro Dogi, que não participou desta entrada.

Mas eu diria que esta parte é mais supérflua para quem joga Ys pela ação rápida e exploração e não pela história. O jogo apresenta cenários detalhados e de tamanho modesto para um jogo do PS Vita pré-Ys VIII: Lacrimosa of Dana, embora eu diria que o seu chamariz está nas dungeons presentes na floresta.
Esses mapas, que na maior parte das vezes são um preâmbulo para um arco da história, se destacam por designs criativos, alto nível de dificuldade e segmentos de quebra-cabeças para a progressão. Tal como os jogos mais tradicionais de The Legend of Zelda — embora numa escala bem menor —, nos equipamos com itens especiais, como os Artefatos, ou dependemos de habilidades únicas do elenco que acompanha Adol para passar dos obstáculos pelo caminho.

No entanto, em especial os supracitados Artefatos, alguns deles nada mais são que recursos básicos de gameplay atrelados à progressão. Ou seja, a história bloqueia esses recursos a fim de usá-los em alguma dungeon, que terá seu design voltado para tal item, tornando-os úteis, de fato, mas somente após você tanto espernear que precisava deles para facilitar sua vida previamente. Por exemplo, não é possível correr no jogo ao menos que você tenha uma bota que faça isso; como é um item de late game, eu passei o jogo inteiro dando cambalhotas para agilizar os passos.

Outro recurso necessário que não é tão útil como deveria até o final do jogo são os Warps, que transportam o jogador para pontos específicos do mapa. No jogo, ao interagir com estátuas Alma espalhadas pelos cenários, você não apenas cura a sua party como terá um ponto de teleporte elegível caso tenha em mãos a Silver Wing. No entanto, inicialmente você está limitado aos pontos que pode teleportar, o que te força fazer backtracking dependendo do quão longe é seu próximo ponto de destino. O jogo até te dá uma Gold Wing com teleporte sem restrições, mas olha que maravilha: você só a recebe muito tarde no jogo.

Ação sem precendentes em escopo portátil
Em relação ao combate, não há quaisquer objeções quanto ao seu planejamento. Eu já disse todas as minhas análises de Ys o quão difícil é de me adaptar com batalhas de ação frenética, mas Ys foi quem cravou a espada no meu coração no melhor sentido possível.
O combate em ritmo acelerado é acompanhado de uma engajante e memorável trilha sonora do gênero power metal composta pelo time da Falcom Sound Team jdk — Hayato Sonoda; Takahiro Unisuga; Saki Momiyama; Tomokatsu Hagiuda —, que faz até um idiota que só sabe esmagar botões entrar em frenesi fatiando hordas de monstros como uma faca afiada rasgando papéis.

Mais do que isso, o sistema de combate se destaca pelo seu dinamismo ao alternar personagens com o apertar de um botão, trazendo estilos distintos que não o deixa enjoaativo. Ainda assim, existe alguma profundidade no combate que traz um pouco de viés estratégico à experiência, recompensado o jogador que sabe aplicar combos aéreos, condições de status ou esquivas pontuais que geram vantagem significativa diante um inimigo ou chefe.

O jogo ainda te dá a opção de aprimorar seus equipamentos através das pedras preciosas que você coleta pelo caminho. No entanto, jogá-lo no modo Normal não me deu a sensação de urgência para refinar minha arma ou equipamentos com maior frequência. Bastou apenas eu comprar uma equipamento mais poderoso na loja do que realmente parar para pensar no que seria melhor para os meus personagens, o que me fez pensar que o jogo não incentiva o suficiente o jogador a correr atrás disso, tampouco das side-quests.

Não vou mentir que muitas das mais de 40 horas que tenho acumulado foi levando surra de chefes complicados. Mas Ys é o tipo de jogo em que um chefe muito complicado de lidar pode ser superado apenas decorando os padrões de ataque e esperar o momento certo para esquivar de um golpe muito poderoso e retrucar. Certamente você terá sucesso apenas investindo no mínimo; vai demorar? Vai, mas um homem paciente é invencível.

O que Revelations in Celceta nos revela de novo?
Este é um tópico pontual em que eu preciso enfatizar o que há de novo neste relançamento. Como de praxe na versão mais recente de The Oath in Felghana, as versões “Memoire” dos títulos mais antigos de Ys buscam trazer atualizações que não denigrem a visão geral do original.
Na direção de som, Revelations in Celceta traz uma nova interpretação para os arranjos musicais do remake que, pasmem, já era um versão rearranjada do clássico de 1993. No entanto, o time da Falcom nesta vertente manda muito bem até quando vão remixar músicas memoráveis, então aqui é mais pela escolha pessoal mesmo. Eu não joguei “Memories of Celceta” original, então optei pela versão original apenas para ter a experiência de sua época.
Esta versão também traz um prólogo da história, acredito eu adicionado às memórias perdidas de Adol que coletamos na floresta, que ajuda a entender como Adol chegou a Celceta e seu interesse em explorar este mar de árvores. Penso que esta adição também ajuda a situar melhor esta entrada de maneira mais precisa na timeline de Ys, já que curiosamente Ys IV segue os eventos após Ys X: Nordics.
Em relação à parte visual, na questão de resolução, obviamente o port para Nintendo Switch se baseia no port para PlayStation 4 e PC, que trouxe melhor qualidade de imagem e taxa de quadros maiores. No entanto, eu joguei no meu Nintendo Switch 2 via compatibilidade, em modo portátil, usufruindo do “modo portátil aprimorado”.
Explico: trata-se de um recurso do console que permite jogar jogos do Switch em modo portátil, mas como se estivessem acoplados na dock, extraindo todo o potencial técnico do jogo no modo portátil do Switch 2. Como esperado, o jogo se comportou bem, com taxa de quadros estáveis e resolução alta e nítida. Eu não o joguei no meu Switch 1, sinto muito, mas não acho que seja exigente ao ponto de comprometer a experiência no pequeno gigante da Nintendo.
Mas para além das adições bem-vindas, eu senti falta de melhorias de qualidade de vida baseado nas críticas pontuais no tópico da exploração. Não digo nem em relação aos recursos básicos atrelados à resolução de puzzles nas dungeons, já que isso claramente é uma filosofia de game design mal-sucedida; estou me referindo principalmente aos Warps e suas limitações que, por mais que eu pense numa justificativa, simplesmente não surgiu nenhuma coerente em minha mente.
O que acontece na floresta de Celceta fica na floresta de Celceta

A era PS Vita contemplou Ys de forma respeitosa, trazendo não apenas Ys VIII: Lacrimosa of Dana, que até hoje é uma obrigatoriedade para quem quer adentrar o mundo de Ys, como também trouxe um remake competente de Ys IV, que antecipou conceitos vistos no altamente aclamado Ys VIII. Mais do que isso, acredito que levar Memories of Celceta para o Switch por meio desta remasterização é mais uma das reparações históricas da Nihon Falcom para com as plataformas Nintendo, as quais o estúdio abandonou por completo após a era Super Nintendo.
Quanto ao Ys Memoire: Revelations in Celceta, o jogo apresenta uma remasterização singela, mas não desrespeitosa, buscando lapidar o remake original com adições, embora tenha pecado em não trazer melhorias de qualidade de vida em minuciosas que certamente seriam úteis para veteranos e novatos.
Dadas as ressalvas, minha experiência com Revelations in Celceta no geral foi satisfatória do início ao fim, e sinto que, graças a Revelations in Celceta, me sinto mais íntimo da franquia do que nunca. Espero que o rico e instigante universo de Ys continue me cativando com seus títulos novos e relançamentos pontuais.
Prós:
- Combate rápido e afiado como de praxe em Ys, porém apostando no dinamismo entre rotação do elenco com habilidades distintas que ajudam também na progressão;
- História apresenta uma narrativa acessível, não tão ambiciosa, mas que sabe trabalhar suas nuances muito bem;
- O jogo é bastante amplo em exploração e diverso em detalhes de cenário, o que surpreende para o escopo de console portátil.
- Não houve concessões técnicas, além de rodar bem no Nintendo Switch 2 via compatibilidade com auxílio do “modo portátil aprimorado.”
Contras:
- O jogo não incentiva o jogador a melhorar seus equipamentos ou realizar as side-quests;
- Algumas mecânicas básicas são limitadas a recursos de progressão, muitas vezes disponibilizados tarde demais no jogo.
- O fast travel através dos Warps são limitados até tarde da campanha, forçando o jogador a fazer backtracking desnecessário.
Nota
8,5
