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Desenvolvedora: Undercoders
Publicadora: Fireshine Games
Gênero: Ação | Simulação
Data de lançamento: 15 de junlo, 2026
Preço: R$ 59,99
Formato: Digital
Plataformas: Nintendo Switch 2
Análise feita no Nintendo Switch 2 com cópia fornecida gentilmente pela Fireshine Games.
Revisão: Lucas Ferreira
Muito pode ser dito a respeito de Denshattack!, principalmente considerarando que o jogo vem com uma proposta tão fora do comum que é até difícil descrever para quem vê de longe. Para início de conversa, uma coisa fácil de afirmar sobre o jogo é que o mesmo é de fato bastante nonsense, colorido, estiloso e se apoia muito em referências a cultura pop oriental.
Mas afinal, o que seria Denshattack? Um clone de Sonic com trens ao invés de um ouriço veloz? Um Tony Hawk’s mais absurdo e com lutas contra chefes? A resposta curta é que ele é tudo isso e mais um pouco, e por incrível que pareça, este é um jogo que existe, eu joguei ele, e é muito bom.
Os furiosos tentáculos do capitalismo atacam mais uma vez
No universo criado em Denshattack, houve uma catástrofe climática que forçou grande parte da população japonesa a viver em domos isolados, domos esses que são providos por uma megacorporação chamada Miraido. Graças à essa catástrofe e aos frequentes ataques de Kaiju, o principal meio de transporte entre os domos passou a ser os trens, via o extenso sistema ferroviário que foi criado para suprir as necessidades de locomoção do país.

O Denshattack, a que o título do jogo se refere, nada mais é do que a prática de utilizar esses trens como uma forma de expressão, arte, ou até mesmo um esporte, ressignificando completamente o uso dos trens como um mero meio de transporte. Desta forma, gangues e tribos urbanas vão se formando em volta dessa prática, muitas dessas sendo referências diretas a movimentos de contracultura nipônicos, como as gyaru, que desafiavam os padrões de beleza asiáticos e até as gangues de garotas sukeban.
Denshattack! vai traçar uma crítica óbvia ao capitalismo tardio, a gentrificação e a ganância coorporativa que isola sociedades e inferniza a vida dos menos favorecidos. Nesse sentido, o jogo vai trazer muito da contracultura urbana para expressar a insatisfação social do povo japonês nesse mundo, assim como o skate e toda cultura de rua surge para ressignificar espaços urbanos, transformando bancos, corrimãos, muros e paredes em obstáculos e expressão artísticas em ambientes que por vezes são marginalizados ou opressivos. Desta forma, os trens que conduzimos em Denshattack! não vem só como algo aleatório, reflexo do humor absurdo do jogo, mas na verdade é utilizado junto com parte da infraestrutura das metrópoles japonesas, — mais especificamente os famosos trem-bala —, para construir a sua mitologia e o elemento principal do gameplay.

Em termos narrativos, a homenagem aos animes é simplória, e quase acaba se tornando uma sátira da mídia, sendo aproveitado somente os clichês, sem dar muita profundidade ou ressignificar algo de maneira interessante. Lógico que o aspecto narrativo de Denshattack! é de longe o que menos importa no jogo, por mais que o mesmo chame atenção ao apresentar uma premissa que visa traçar uma crítica social.
No geral, acompanhar os personagens é meio chato e a vontade que dá é só pular todos os diálogos — mesmo que eu seja fisicamente incapaz de fazer isso —, especialmente com os protagonistas. Não existe crescimento ou desenvolvimento de personagem, o jogo nem se quer tem senso de humor e o que carrega a experiência é 100% o gameplay.
Ressignificando os trilhos
Em termos de gameplay, como já comparado, Denshattack! oferece um meio termo sólido entre um Tony Hawk’s e um Sonic moderno. Ou seja, o jogo apropria-se da velocidade e dos caminhos mais “lineares” de um Sonic Unleashed, por exemplo, com coletáveis espalhados pelas fases e passagens alternativas que só jogadores mais atenciosos vão conseguir encontrar. Naturalmente, também existe um grande foco em rejogabilidade das fases em prol de alcançar pontuações maiores e cumprir todos os objetivos secundários disponíveis.
O elemento Tony Hawk’s do jogo se dá no controle do trem, que funciona praticamente como um skate, sendo possível realizar manobras de grind em corrimãos, fazer ollies e flips com o analógico — referenciando também a série de jogos de Skate da EA — além de manuais que ajudam a emendar várias manobras nos trilhos, para realizar combos que vão aumentar consideravelmente a pontuação.

Denshattack! é bastante denso, com conteúdo de sobra, podendo ser finalizado com algo entre 8 a 10 horas de duração, isto é, sem repetir as fases para pegar todos os coletáveis e conseguir melhores pontuações. O jogo é estruturado de forma semelhante a um título de plataforma comum, como Mario ou Donkey Kong, no sentido de que existe uma divisão entre áreas onde se encontram diversas fases, finalizando com uma batalha de chefe no final que desbloqueia a próxima área. O jogo possui 9 dessas áreas no total, cada uma com uma média de 10 estágios cada uma, com uma seleta variação de tipos diferentes de estágios que ajudam o jogo a não ficar repetitivo.
Dentre os tipos de fase disponíveis no jogo, existem as fases lineares comuns, semelhantes aos jogos do Sonic; fases estilo “collectathon”, onde o jogador deve realizar uma série de objetivos em um mapa mais aberto para concluí-la; as corridas, onde é necessário ser mais rápido que trens adversários, sendo possível até mesmo derrubá-los dos trilhos; e as lutas com chefes, que são semelhantes às fases tradicionais, mas exigindo uma certa sequência de ações e reflexos para derrotar um chefe que possui uma barra de vida.

Ainda considerando a duração de Denshattack!, uma das coisas que mais me admira é o quanto ele consegue se manter divertido ao adicionar mecanicas novas a cada área. Os níveis nas três últimas áreas, por exemplo, são extremamente divertidos e ainda por cima adicionam uma camada de estilo, por mais que sejam bem mais difíceis que o restante, dado a quantidade de obstáculos diferentes e mecânicas que é preciso realizar para atravessá-los. Não demora muito para que Denshattack! comece a te exigir muita concentração e reflexos rápidos, devido a sua velocidade, mas são nesses níveis finais onde o jogo realmente brilha e consegue entregar os momentos mais catárticos.

No entanto, uma das principais decepções que tive com Denshattack! foi no que diz respeito ao quão pouco as áreas mudam entre cada uma delas. Certo que é estabelecido logo cedo como a conjuntura atual dos centros urbanos é de certa forma bem padronizada entre si, considerando o controle sob uma megacorporação. No entanto, os subúrbios de todas as prefeituras são praticamente idênticos, e pouco muda no level design em termos estéticos além do que é mecanicamente apresentado de novidade a cada novo capítulo.
Já o impacto de cada subcultura representada nas áreas não é muito bem explorado. Cada uma não vai ter um tipo de estética específica que vai mostrar-se no seu território, sendo tudo muito mais do mesmo por bastante tempo, até chegar na área dos góticos pelo menos.
No que diz respeito principalmente ao estilo de fases tradicional e as lutas contra chefes, algo que deve-se destacar a respeito de Denshattack! é a quantidade, qualidade e bom uso de setpieces de ação espalhadas pelo jogo. É possível reconhecer a inspiração vinda de jogos do Sonic e Tony Hawk’s Pro Skate, mas também bebendo muito da fonte dos animes, especialmente remetendo mais às obras do estúdio Trigger como Gurren Laggan e Kill La Kill, assim como FLCL da Gainax, com suas animações completamente inventivas e ação exagerada.

Desta forma, não é incomum nos depararmos com trens andando em cima de rodas gigantes esmagando tudo em volta, mechas gigantes, garotas mágicas mecânicas atiradoras de misseis mortais ou até mesmo minhocas motorizadas com brocas destruidoras na cabeça, durante a aventura. Tudo isso também rodeado por destruição e explosões dignas de fazer qualquer tiozão olhar para a TV de relance e proferir os seguintes dizeres: “começou a mentirada”.
É assim que se faz no underground!
Autoexpressão e estilo sempre fizeram parte das subculturas de rua, então seria de se esperar que Denshattack! brincasse um pouco com esse aspecto, inserindo-o não só em sua parte cosmética mas também mecanicamente falando.
No que diz respeito a customização, é possível escolher entre diversos trens, e cada um vai proporcionar uma melhoria mas com alguma outra condição negativa imposta. Exemplo: meu trem favorito aumenta significativamente a quantidade de manobras que é possível realizar no ar, mas em contrapartida diminui o tempo em que o trem consegue ficar em um manual, sendo assim necessário ficar pulando o tempo inteiro caso o intuito seja realizar combos muito longos.

No quesito estético, cada trem vai ter uma aparência diferente, com modelos baseados em trens que de fato existem na vida real. O jogo também adiciona uma camada a mais de customização, sendo possível escolher entre um pequeno número de variação de cores e tipos de pintura diferentes, além de também existir uma loja de adesivos que ajuda o trem a ficar com uma carinha mais street. Assim como os trens, os adesivos vão sendo desbloqueados com a progressão da história, muitos desses fazem referências a áreas e personagens do jogo, como se fossem souvenirs de cada local.
Outro elemento que mostra o quanto o jogo abraçou as subculturas de rua são os zines, com um dos coletáveis mais legais sendo várias informações e imagens para preencher essas revistinhas. Para quem não é familiarizado com o conceito, zines ou fanzines são livretos pequenos, feitos muitas vezes de forma artesanal, cujo o intuito é espalhar a palavra de movimentos de contracultura urbanos.
No cenário punk por exemplo, zines eram comuns para informar o público sobre as bandas, o cenário e a sua ideologia, principalmente aquelas que não eram grandes o suficiente para aparecer em veículos mais mainstream. No contexto do jogo, cada uma das áreas vai ter a sua própria edição focada em informações sobre a cidade, suas subculturas e o contexto histórico que levou a região a tomar a forma atual, além de muito Denshattack, claro, visto que todo underground parece girar em torno dessa prática.

Considerando todas as inspirações culturais que Denshattack! toma para si, uma das partes mais frustrantes do jogo acabou sendo a sua trilha sonora. Muito disso se dá pela falta de variedade de faixas e exploração de gêneros musicais que não se reflete muito bem na pluralidade de tribos urbanas que são representadas no jogo. Salvo por uma área em questão, a grande maioria vai seguir a mesma abordagem, com umas batidas de Hip-Hop que não chamam muito atenção. A trilha sonora como um todo é bem tímida e segue a abordagem meio filmes da Marvel, onde as músicas não podem se destacar mais do que acontece na tela. Na minha opinião o jogo merecia um pouco mais de personalidade nesse sentido.

Por outro lado, Denshattack! esbanja essa personalidade no quesito visual. Mesmo com modelos 3D extremamente simples, o cel shading inspirado por Jet Set Radio combina extremamente bem com o jogo, além das cores supersaturadas ressaltarem o aspecto hyperpop da arte urbana. O jogo também é bem inspirado por Persona, com seus menus coloridos e estilizados, e com retratos de personagens durante o diálogo, mesmo que com os modelos dos personagens ao fundo, que são bem estáticos e inexpressivos, possivelmente por uma limitação técnica.
Dito isso, é seguro afirmar que o grosso da história só vai acontecer mesmo nos episódios 2 e 3, onde além das reviravoltas principais da narrativa, novos personagens e consequentemente novas tramas e uma nova visão sobre Mamiya será apresentada.
O caminho do Denshattacker

No fim das contas, Denshattack! é uma experiência super interessante. Apesar de um tanto derivativo em suas premissas e óbvio demais em suas influências, o jogo consegue entregar algo que é realmente seu em termos mecânicos, chegando em muitos momentos a rivalizar em termos de qualidade com as obras que o inspira.
Prós:
- Representa e entende bem as contraculturas que representa, trazendo elementos de cada uma para inspirar o cenário suburbano, ao mesmo tempo que as adequa bem ao cenário distópico criado;
- Possibilidade interessante de customização e diversificação de jogabilidade, que permite expressão do jogador para criar o seu próprio estilo de jogo e de manobras mesmo em cenários lineares;
- Grande quantidade de conteúdo de qualidade, constantemente apresentando novas mecânicas diversificadas o suficiente para render várias horas de jogo sem ficar repetitivo;
- Setpieces criativas, exageradas e divertidas, inspiradas em animações japonesas que fazem com que cada fase seja especial por si só;
- Extremamente atual e pertinente em suas críticas sociais.
Contras:
- Apesar de ter uma premissa e um mundo interessantes, falha em escrever seus personagens, que são reduzidos basicamente a clichês e estereótipos batidos de anime que não vão a lugar algum em termos narrativos;
- Perde a oportunidade de diversificar visualmente ainda mais cada área do jogo baseado nas gangues e tribos urbanas que a dominam, fazendo com que a maioria sejam muito parecidas entre si;
- Trilha sonora um tanto genérica e tímida que representa pouco o contexto de cada região.
Nota
9
