Neste ano de 2026, tivemos um anúncio interessante por parte da gigante japonesa que cobre 75% do nome de nosso site, a Nintendo: uma série de mudanças em seus diretores executivos. Desde o início do ano, a companhia vem nos pegando de surpresa com o início de nomes como Devon Pritchard e Satoru Shibata para presidente representante e CEO, respectivamente, assim como a saída de alguns nomes de peso da direção executiva da empresa como Takashi Tezuka.
Quando consideramos estas mudanças, em um vácuo, um pensaria que a Nintendo poderia estar passando por uma “super reestruturação”, com desmantelamento de times e afins, como vemos em outras equipes; mas não, recentemente inclusive tivemos notícias de um aumento salarial dentro das equipes internas, o que nos leva a perguntar: como a Nintendo se tornou assim? Ignorando as políticas japonesas quanto a demissões, existe um precedente na Big N que até foi notícia por ser uma decisão bem humana em um período de crises financeiras na companhia.
Estou falando de Satoru Iwata, e a decisão que o mesmo tomou em 2014…

Satoru Iwata foi CEO da Nintendo entre os anos de 2002 até 2015, sendo o responsável por diversas eras de sucesso da empresa como o Wii, mas também de fracassos como o Wii U. Satoru sempre foi um “jogador em seu coração” e possuía uma filosofia que fugia um pouco do padrão antigo da empresa por isso. Como ele também foi o homem que essencialmente encabeçou a ideia do Nintendo Switch (na era, apenas conhecido como NX), acho que é válido escrever um pouco sobre ele como pessoa e, acima de tudo, como o CEO de uma empresa de jogos!
Tendo passado uma breve introdução sobre o homem, fica a verdadeira pergunta acima de tudo: quem foi Satoru Iwata e qual o legado que a indústria de jogos carrega por conta dele?
Um homem que mudou a Nintendo
Dando um contexto à época, em seus mais de 100 anos de história desde então, a Nintendo sempre pertenceu à família Yamauchi até um determinado nível, com o presidente Hiroshi Yamauchi (um homem que também daria para fazer uma coluna inteira sobre as decisões que tomou) sendo o responsável pela transição que a empresa teve de brinquedos para consoles eletrônicos. Isso, no entanto, mudou em 2002.
Em 24 de maio de 2002, Satoru Iwata assumiu a posição de presidente da Nintendo, sendo o 4º na história da companhia e o primeiro a não fazer parte da família Yamauchi. Iwata já trabalhava no ramo de jogos desde a década de 80, com sua experiência como produtor e eventual CEO da HAL Laboratory o creditando em jogos como Balloon Fight, a série Earthbound e alguns dos primeiros jogos de Kirby – este último sendo o responsável pela relação dele com Masahiro Sakurai. A decisão de tornar Iwata presidente saiu do próprio Hiroshi Yamauchi e veio em uma época interessante…

Durante o início dos anos 2000, a Nintendo enfrentava alguns pontos complicados nas vendas de console: o console de mesa da época, o GameCube, estava enfrentando baixas vendas e um interesse menor com desenvolvedoras parceiras. Herdando este período conturbado, Iwata foi responsável por construir algumas relações com empresas como a Capcom e preparar acordos que tornariam o GameCube um tanto mais “atraente” para uma audiência mais ampla.
Através de filosofias pessoais de Iwata, priorizando inovação e diversão acima de gráficos e poder de processamento (algo que inclusive fizemos um texto a respeito onde, em retrospectiva, Iwata acertou em cheio), a Nintendo conseguiu acertar um golpe crítico tanto em 2004 com o lançamento do Nintendo DS, quanto em 2006, com o lançamento do Wii! Gerando uma época de não apenas lucro para a empresa, mas um período onde diversos jogos que seriam lembrados com carinhos por fãs foram saindo tanto para o portátil quanto o console de mesa.

Saindo do Wii, no entanto, a empresa enfrentaria uma séria crise, e essa crise também seria piorada através de um problema pessoal que Iwata passaria a enfrentar.
Wii U e o pior período de crise na companhia

Revelado como o console de mesa que sucederia o Wii, o Wii U foi tudo, menos um sucesso. Desde o marketing estranho que enfatizava mais o aspecto de controle do gamepad, o lento lançamento de jogos 1st party e um desinteresse geral de desenvolvedoras terceiras, este console é considerado por muitos o pior lançamento de um console principal da Big N, superando o fracasso do GameCube. Como um bônus para piorar tudo, as vendas de primeiro ano do novo portátil, o Nintendo 3DS, não ajudou muito, só pegando tração quando a Nintendo anunciou uma redução de preço.
Iwata encarava uma posição difícil: pela primeira vez na história da gigante japonesa, eles estavam ativamente perdendo dinheiro e precisavam fazer algo para corrigir este curso. Foi nesta época que a Nintendo começou a tomar algumas medidas interessantes como:
- Desenvolvimento com foco online: Iwata originalmente não tinha tanta fé na transição online que muitos jogos estavam fazendo quando assumiu a empresa na era do GameCube; no entanto, durante o Wii U ele ativamente buscou incentivar que jogos com um foco em multiplayer online fossem feitos na companhia, o que acabou gerando uma IP que a Nintendo considera como um pilar de diversidade até hoje: Splatoon.
- Parcerias com gigantes mobile: Iwata nos anos 2010 era cético com o mercado mobile e insistia que, caso a Nintendo entrasse no mesmo, seria pelos seus próprios termos; e como prometido, através de esforços internos (Super Mario Run) e parcerias com outras empresas como Cygames (Dragalia Lost – descanse em paz), Niantic (Pokémon GO) e DeNA (Fire Emblem Heroes), é inegável dizer que a empresa teve sim uma boa presença no mercado mobile na última década.
- Apoio 3rd Party: Como uma decisão tomada antes do fracasso do console, a Nintendo constantemente tentava parcerias com as mais diversas devs para financiar e reter exclusividade de certos jogos; esta decisão foi, porém, uma faca de dois gumes, pois apesar de termos jogos muito bons que permaneceram exclusivos no Wii U na época, como Bayonetta 2 da SEGA, também tivemos algumas bombas fedorentas, como Sonic Boom: Rise of Lyric e Devil’s Third, que ajudaram na reputação baixa que o Wii U já possuía.
- Nintendo Directs: O formato de apresentação digital estourou no mundo pós-pandemia, mas é bizarro pensar que a Nintendo já havia adotado esta ideia 7 anos antes do lockdown geral; Iwata, Reggie e Miyamoto constantemente apareciam na câmera para comentar sobre jogos e adições que viriam para os consoles da época em um formato que, apesar de bobo em retrospectiva, foi um acerto que a Big N foi aprimorando ao longo dos anos.

Levanto estes pontos sobre Iwata porque a era Wii U foi conturbada em muitos aspectos, forçando diversas divisões da Nintendo a adotarem decisões drásticas numa tentativa desesperada de aumentar a venda de hardware e software. Mas, como está no título do texto, creio que você clicou para ler a respeito de uma decisão que Iwata tomou que fez muitos refletirem na forma que ele era como um CEO na época…
A decisão que definiu seu valor
Quando as pessoas mencionam o “corte salarial” que Iwata fez durante a crise do Wii U, elas mencionam o evento de janeiro de 2014, quando o período fiscal de 2013 a 2014 deixou a companhia no vermelho. Eu irei me aprofundar a mais nisso nos parágrafos seguintes, mas antes também queria apontar que não foi a primeira vez!
O então presidente, no ano fiscal de 2011 para 2012, conseguiu convencer os diretores executivos a cortar o próprio salário que nem ele para que a companhia conseguisse se manter numa situação financeira estável durante o período de congelamento das vendas do Wii e o fracasso inicial do 3DS, que precisou passar por um reajuste de preços durante o período. A decisão viria a se repetir em janeiro de 2014.
2014 foi um ano em que muitas manchetes questionavam a durabilidade da Nintendo como companhia, já que a mesma apresentou uma margem de prejuízo que ia de 46,4 bilhões de ienes (aproximadamente 450 milhões de dólares na época) e uma queda de 10% nas vendas de hardware e software. Para piorar as coisas, Iwata foi pego de surpresa com uma terrível notícia: um tumor foi encontrado em seu ducto bilar, uma região onde a maioria dos casos de tumor acabam por ser ou inoperáveis ou diretamente fatais, dada a rápida taxa de metástase.
No fim, Iwata saiu um pouco dos holofotes durante uma boa parte do ano, não apenas para se recuperar das cirurgias que precisou fazer para evitar que o tumor espalhasse, mas também para focar em sua saúde. É dito que, na cama do hospital, Iwata ainda tomou decisões que viriam a ser importantes para o futuro, como a eventual parceria com a Niantic para a produção de Pokémon GO e os projetos iniciais do NX, o código de um protótipo que uniria tanto o desenvolvimento de consoles de mesa da empresa quanto o de seus portáteis. Nós o conhecemos hoje pelo nome que ficou em sua revelação em 2016, o lançamento em 2017, e o sucessor de 2025: o Nintendo Switch!
A decisão que Iwata fez nas diferentes ocasiões não foi um ato nobre, e inclusive houveram demissões em outros setores da Nintendo, como o europeu. Porém, ainda levanta uma questão interessante que o próprio CEO havia comentado, e que infelizmente a indústria de jogos parece sofrer mais hoje em dia dado certos aspectos…
“Alguns empregadores publicam seus planos de reestruturação para melhorar sua performance financeira ao fazer com que um número de seus empregados saia… mas aqui na Nintendo, os empregados trazem contribuições valiosas em seus respectivos campos, então eu acredito que a demissão de um grupo dos mesmos não ajudaria a fortalecer os negócios da Nintendo ao longo prazo.
Nossa atual política é alcançar resultados favoráveis ao continuamente cortar gastos desnecessários e aumentar a eficácia comercial!” – disse Iwata em um Q&A com investidores, ainda em 2013.
A despedida e o legado
Com apenas 55 anos de idade, em 11 de julho de 2015, Satoru Iwata veio a falecer por complicações de seu tumor, com milhares de pessoas que incluíam funcionários e fãs da Nintendo comparecendo ao seu funeral. Iwata se foi deixando para trás sua esposa, sua companhia e um legado que percorria décadas. Figuras importantes como Reggie Fils-Aimé, Shigeru Miyamoto e Masahiro Sakurai também compareceram ao evento, que ao olhar de uma maneira poética, fez até os céus chorarem com uma chuva estrondosa.
Iwata podia ter partido, mas seu legado ainda persistia de certa forma; o próximo console que a empresa mostraria, o Nintendo Switch, foi uma ideia que veio junto do presidente, e que de certa forma persiste até hoje tanto com o console original e seu sucessor.
A presença de Satoru Iwata também seria dada em créditos interessantes em múltiplos jogos, mas em especial três exemplos que chegariam no Nintendo Switch nos primeiros anos de sua vida:

The Legend of Zelda: Breath of the Wild (2017)
Tendo sido revelado e com um desenvolvimento ativo antes de sua passagem, Breath of the Wild coloca o então presidente da Nintendo como um produtor executivo em seus créditos. Adicionalmente, de forma mais interessante, apresenta não apenas um NPC com uma semelhança muito próxima a de Satoru, mas também introduz o Senhor da Montanha, uma criatura que é dita como um guardião guia que também é conhecida às vezes como Satori.

Super Smash Bros. Ultimate (2018)
Já explicando a relação de Iwata com Sakurai, não seria exagero falar que a tarefa de um “Smash com todos os personagens da franquia” era algo um tanto pessoal para o diretor, e uma forma de prestar uma última homenagem ao seu velho amigo. Iwata também seria [supostamente] responsável pelas negociações iniciais para incluir Steve, de Minecraft, na icônica franquia de lutas – algo que eventualmente aconteceu em Ultimate.

DRAGON QUEST XI S: Echoes of an Elusive Age – Definitive Edition (2019) –
Essa história é um tanto curta, mas ainda interessante: na época das conversas sobre o projeto do NX, Iwata teria conversado com a equipe da Square Enix para tentar negociar um lançamento do 11º jogo principal de Dragon Quest no lançamento (ou relativamente próximo do mesmo) do vindouro console. A ideia acabou evoluindo para uma versão relançada de DQ XI que não só mudava aspectos do jogo, como adicionava bastante conteúdo.
No fim, acredito que a melhor homenagem para Iwata acabou saindo quatro anos após sua despedida, em uma sessão do The Game Awards, em 2019, cujo prêmio foi apresentado pelo ex-presidente da Nintendo of America e amigo de Satoru, Reggie. Na homenagem, Reggie comparou desenvolvedores indies com desenvolvedores sêniores, comparando-os com sonhadores, e dizendo que todos estes sonhos vêm de algum lugar, citando a mente brilhante de Iwata no processo:
A Nintendo de hoje
Há quem diga que a Nintendo nunca mais foi a mesma depois de Iwata e, nesse ponto, elas podem ter razão. A personalidade amigável do antigo presidente, suas aparições em eventos como Directs ao lado de Miyamoto e Reggie e até os simples vídeos de unboxing eram divertidos. Neste aspecto, eu não nego que a visão da Nintendo ficou bem mais corporativa e menos pessoal.
Porém, eu ainda serei advogado do diabo (neste caso, quase literalmente) e defender que a equipe de diretores que a Nintendo possui atualmente, incluindo o seu atual CEO Shuntaro Furukawa, ainda defendem os mesmos princípios de Iwata em relação a criação de jogos e no tratamento de funcionários. Sim, a Nintendo empresa está mais corporativa do que nunca, e uma parte minha está triste por isso – aquela alegria genuína de Iwata que eu presenciei quando criança nunca vai se repetir e isso é uma pena.
Mas no fim, ainda defendo que precisamos tratar [alguns] videogames como expressões artísticas ao invés de produtos que consumimos apenas para entretenimento. E, no momento que fizermos isso mais, acredito que estaremos elevando e preservando ainda mais a visão que Iwata tinha, de que no coração, no fim do dia, ele era só um jogador.
Please, understand.



