- Review | Lies of P: Complete Edition - 03/08/2026
- Review | HYPERWIRED - 14/07/2026
- Review | Citizen Sleeper 2: Starward Vector – Nintendo Switch 2 Edition - 25/06/2026
Desenvolvedora: Round8 Studio
Publicadora: NEOWIZ
Gênero: RPG de ação | Souls-like
Data de lançamento: 5 de agosto de 2026
Preço: R$ 249,90
Formato: Digital
Plataformas: Nintendo Switch 2
Análise feita no Nintendo Switch 2 com cópia fornecida gentilmente pela NEOWIZ.
Revisão: Juliana Paiva Zapparoli
Já no primeiro Nintendo Direct do Switch 2, era possível argumentar que o console abriu-se para uma boa safra de Souls-like, com o port de ELDEN RING e o anúncio do curioso The Duskbloods, jogo exclusivo para o híbrido desenvolvido pela FromSoftware. Com ambos os lançamentos programados para 2026, interessantemente o ano se tornou repleto de anúncios de ports de outros jogos do gênero, com Wo Long: Fallen Dynasty chegando em setembro e Lords of the Fallen no horizonte.
O título que inicia a leva de Souls-like já carrega grande expectativa, sendo um jogo indie coreano que pegou todos de surpresa no lançamento ao misturar a temática decadente de Bloodborne com a fábula de Pinóquio, uma marionete de madeira que quer se tornar um garoto de verdade. Lies of P: Complete Edition chega ao Switch 2 com performance estável, fidelidade gráfica e com o pacote completo, contando com o DLC Overture, lançada em 2025 para as plataformas originais.
Não precisamos criar suspense: há muitas razões para o título ter sido tão aclamado no lançamento. Na presente review, vamos apresentá-las a partir de uma perspectiva fresca, de um jogador de primeira viagem, analisando o port no híbrido sem se apegar a outras edições, até mesmo pela falta de material de comparação. Mergulhemos, enfim, na cidade decadente de Krat.
Adaptação criativa
Chama a atenção, de imediato, a escolha da base para um Souls-like. Pinóquio, mais conhecido pela adaptação da Disney, não parece ser o material mais apropriado para um jogo do gênero, até pensarmos que toda a identidade da série souls gira ao redor da humanidade perdida dos avatares, recuperada paradoxalmente na morte. Em prefácio da edição brasileira de O filho de mil homens, de Valter Hugo Mãe, Alberto Manguel traça interessante paralelo entre Pinóquio e a jornada de Telêmaco, filho de Odisseu, cujas identidades estão inteiramente ligadas a uma figura paterna ao longe — e buscar o pai é uma busca por aquilo que nos forma.
Em Lies of P, Pinóquio é uma arma produzida por Geppetto, que, embora trate sua marionete como filho, ainda o vê como ferramenta. É na aventura planejada e conduzida por essa figura paterna, aqui podendo ser visto como um deus criador de uma nova espécie, que construímos uma identidade: humana, a partir das mentiras, ou artificial, a partir das verdades.

No princípio, acordamos em um vagão de trem, em Krat, uma cidade completamente destruída. As ruas são ocupadas por autômatos (e no texto usarei o termo marionetes ao invés de títeres, escolha da tradução para o português, para aprofundar o paralelo com a origem literária), as construções estão abandonadas e um cinza cobre a paisagem.
Descobrimos que Krat passou por uma incrível revolução tecnológica com a descoberta do Ergo, material mágico que serve como combustível para as marionetes, que devem obedecer às leis Azimovianas (não mentir, não machucar humanos, etc). Um dia, o Ergo se corrompe, gerando uma revolta generalizada das máquinas e, consequentemente, a destruição da cidade. Em meio ao pandemônio, Krat ainda lidava com uma epidemia de uma doença causada pelo Ergo, gerando aberrações biológicas.
Busco ser generalista para evitar spoilers, mas há muito a ser discutido entre a relação do grupo de Geppetto, oculto em um grande hotel que serve como hub para upgrades e criação de relacionamentos entre personagens, os salteadores ocultos por máscaras de animais (um aceno à transformação em burros no conto original) e o enigmático grupo de alquimistas, que estuda o uso de Ergo em humanos. O que revelo em questão da progressão narrativa é que o jogo evita problemas do gênero souls ao não amarrar sua história integralmente à descrição de itens, que, apesar de ter algum valor, torna a experiência pouco convidativa.

A trama principal é bem direta ao ponto, os paralelos são tratados com diálogos bem-trabalhados e a lore pode ser explorada em descrições encontradas no cenário, de mensagens a pôsteres, itens a chaves. Um jogador atento será mais recompensado, mas deixar passar um detalhe ou outro não tornará a experiência confusa ou incompleta.
Encerro com uma última menção à narrativa. Em determinado momento, encontramos um quadro de Pinóquio comissionado por Geppetto a um artista, D. Gray. Assim como o quadro de Oscar Wylde, o do título coreano se molda a partir do caráter do jogador, gerando aquele momento de “Eureka” bem satisfatório. Os desenvolvedores, ao buscarem adaptar uma obra, puxam em outras mais detalhes de diálogo que aqui são apresentadas de forma bastante capaz. Por isso, recomendo que os jogadores busquem explorar o máximo dos cenários, que, como abordarei adiante, são muito bem desenhados.
Lute como um robô
O combate em Lies of P segue os preceitos do gênero, com algumas adições interessantes. No início, podemos optar por três rotas de build, que podem ser ajustadas e refeitas ao longo do jogo: um focado em agilidade, outro na força e um misto entre os dois. Agilidade permite ataques mais fracos, porém contínuos, com ênfase na esquiva, enquanto builds mais parrudas, embora mais lentas, dão dano significativo quando acertam o alvo.

Como de costume do gênero, a experiência, aqui chamada de Ergo, é acumulada ao derrotar inimigos, podendo ser convertida em levels a partir de upgrades em diferentes status. Ao morrer, deixamos o Ergo acumulado no mesmo ponto no mapa e devemos reavê-lo para não perder o progresso. Lies of P adiciona a esse sistema uma perda gradual a depender do dano recebido antes de alcançar o foco de Ergo, o que adiciona um nível de estratégia no pós-morte.
Por fim, as builds só são formas de usarmos as armas, que são a parte mais criativa do título. Aqui, podemos misturar empunhaduras com lâminas diferentes, resultando em combinações bem diversas para melhor compor o estilo de jogo naquela run. Na versão completa do Switch 2, recebemos, além de roupas diferentes, algumas armas de colaboração, e preciso destacar a espada longa de Wo Long, que me acompanhou até o fim da jogatina, embora tenha testado outras combinações, especialmente no DLC Overture (a ser abordada em instantes).

O peso e o flow dos combos determinará se o jogador optará por parries (aqui bloqueios perfeitos, capazes de quebrar as armas), dodges ou dano à distância. Para compor o personagem, temos ainda pins e broches, que não apenas dão efeitos distintos como também aumentam certos status, e o braço esquerdo mecânico, que abre ainda uma camada nova de complexidade. Afinal, com ele podemos dar danos de elemento, como de eletricidade, fogo ou ácido, mais ou menos efetivos a depender dos oponentes. Entender a natureza do ambiente é essencial para se vestir de forma adequada à situação.
Existem ainda alguns outros elementos que adicionam camadas de estratégia. A lâmina das armas se desgasta e devemos afiá-la sempre quando possível. Contudo, a partir de determinado momento, somos capazes de fazê-lo adicionando efeitos ao armamento, compreendendo que precisamos gastar certo tempo para tal, rendendo certas doses de ansiedade em encontros mais tensos. Além disso, encontramos um cubo estranho em determinado momento que é capaz de revelar certo desejo, especialmente útil em lutas contra bosses, quando podemos contar com a ajuda de um espectro ao nosso lado.

No fim, não deixe a quantidade de sistemas impressionar. O título é mais que capaz de apresentar cada um de seus elementos de forma gradual, sem telas infinitas de tutoriais nos primeiros minutos de jogo. Lies of P ainda é um Souls-like, então espere muito dodges, parries e mortes naquele último segundo antes do chefão perecer.
O design circular de Krat
Peço perdão aos fãs de Elden Ring, mas ainda considero o elemento mais valioso dos jogos Souls seu level design compacto e circular, como um metroidvania 3D. Lies of P não esconde suas inspirações mais óbvias no desenho do mapa, com mapas aparentemente abertos, porém profundamente lineares, com atalhos desbloqueados ao longo de batalhas e armadilhas que tiram o sério junto com aquele sorriso bobo por ter sido enganado pelos devs.

Em um level design compacto, Krat surpreende com seus visuais detalhados, mapas variados e oponentes que gradualmente se modificam com as ações do protagonista. Confesso que as screenshots não fazem jus à incrível qualidade técnica do port, que não deve nada ao de Requiem, Outlaws ou Cyberpunk. A performance é estável mesmo em momentos com múltiplas partículas e a resolução é cristalina na maior parte das vezes. Em interiores, notei algumas texturas picotando e alguns oponentes ao fundo com frame rate reduzido, já que o jogo prioriza o que é mais importante: o combate e a exploração.
Mesmo com um mapa circular muito bem-feito, ainda é possível se teletransportar em alguns pontos para poupar alguns minutos de ócio, elemento muito bem-vindo para o 100%, visto que são muitos os personagens que são deixados ao longo do caminho, cujas histórias podem surpreender ou até emocionar. Com recompensa constante pela exploração dos cenários e com muitos detalhes de lore, a cidade toma uma vida impressionante, nunca se tornando monótona mesmo na eventual repetição de cenário.
O DLC Overture
Após o antepenúltimo capítulo da história principal, desbloqueamos o DLC Overture. Como a versão de Switch 2 é uma edição completa, precisamos levá-la em consideração na análise e pesar no saldo geral. A boa notícia é que a expansão contém um conteúdo de extrema qualidade.

Sem entrar no mérito narrativo, visto que o spoiler seria grande, resta comentar que a expansão da lore é convidativa e intrigante. Conhecemos figuras paralelas à trama principal que nos fazem pensar sobre a queda de Krat, a humanidade perdida pelos personagens e a mentalidade utilitária que domina uma sociedade que busca o avanço tecnológico acima dos interesses daqueles que a constituem.
Se há algo que podemos tirar de Pinóquio, é que há algo intrinsicamente humano na mentira, mas ouso dizer que há algo ainda mais humano em sermos capaz de superá-la. O conforto que uma falsa verdade traz é temporária e lutar por uma realidade que valha a pena mostrar às claras é um motor muito valioso. Como as sombras da caverna de Platão, a farsa aprisiona, e escapar para a luz é exatamente o que Pinóquio deve fazer ao lado de Geppetto ao fugir da baleia que os aprisionava.
Digressões à parte, Overture surpreende principalmente pelo tamanho. O que parecia ser apenas um desvio do caminho principal logo se revelou como um jogo quase à parte. E digo quase porque muitos dos elementos que aqui conquistamos, como upgrades, armas e levels, são carregadas para o jogo principal, o que pode causar certo desequilíbrio de levels, já que o DLC foi pensado para ser desfrutado após a finalização do jogo base. Os bosses se tornam muito mais elaborados, os oponentes mais ágeis e poderosos e os capítulos, mais extensos. Aqui, os desenvolvedores foram capazes de criar algo superior ao conteúdo magnânimo do jogo base.

Meu problema particular é que, quando olhamos para o pacote completo, o jogo acaba por se estender além do necessário. Veja: o jogo base tem uma extensão perfeita, acabando no momento certo. O DLC é um convite perfeito para uma expansão após uma pausa considerável desde o fim da run. Colocando uma junto à outra, ficamos com uma experiência um tanto exaustiva, principalmente porque o DLC começa antes do término do jogo base. Por outro lado, se o meu maior problema com o título é que na versão de Switch 2 temos conteúdo de qualidade de sobra… é porque tenho muito pouco a reclamar, não?
O desejo de ser real
Se o que guia Pinóquio é seu desejo de ser real, o que guia os devs da Round8 Studio é criar uma obra à altura de seus pares. A verdade é que, em muitos momentos, consegue superá-los.
Lies of P: Complete Edition não busca reinventar a roda, mas ao fazer o simples é capaz de encontrar o que o torna especial. Em meio a um mundo de morte, o jogo encontra as pequenas alegrias, reconfortando uma criança doente, uma marionete apaixonada ou, por que não, um grilo falante. É esse amanhecer após uma noite chuvosa que destaca Lies of P, que não busca uma estética sombria para ser “edgy”, mas sim para encontrar a humanidade, que é, enfim, a missão final da marionete incumbida de vontade. Cogito ergo sum.
Prós:
- Port no Switch 2 prioriza performance estável e entrega experiência que faz jus à qualidade do título;
- Mapas compactos revelam inteligente level design;
- Sistema de combate é simples na execução, mas complexo o suficiente para entregar personalidade a cada jogador.
Contras:
- Eventuais pop-ups em texturas no interior tiram um pouco da imersão do título;
- Experiência completa torna a jornada mais longa que necessária, levando em consideração o excelente DLC Overture.
Nota
9,5
