Desenvolvedora: Eyeguys, Santa Ragione
Publicadora: Fantastico Studio
Data de lançamento: 21 de Junho, 2022
Preço: R$ 70,92
Formato: Digital
Análise feita no Nintendo Switch com chave fornecida gentilmente pela Fantastico Studio.
Milky Way Prince — The Vampire Star é uma curiosa visual novel de boys’ love, ou seja focada no romance entre rapazes. Com uma espécie de narrativa autobiográfica de seu criador, Lorenzo Redaelli, ela busca representar um relacionamento tóxico com elementos fantásticos que oferecem camadas extras de idealização à narrativa.
Um encontro místico

Nuki é um rapaz que sempre sonhou em encontrar um príncipe para a sua vida. Apaixonado pelos astros celestes e pela música, ele guarda consigo o sonho infantil de um livro de conto de fadas sobre um príncipe que veio da galáxia em uma estrela cadente. Um dia, ele presencia a queda de um corpo celeste misterioso e sua busca o leva a uma lanchonete que serve latte e shakes.
Lá ele encontra um rapaz em prantos no chão chamado Sune. Seria ele o tão esperado príncipe encantado? Os dois começam a conversar casualmente e sentem algo especial. É um daqueles grandes clichês de relacionamento em que os dois parecem ter uma conexão íntima desde o início como se as estrelas tivessem se alinhado para o momento do encontro dos dois.

De fato, o relacionamento deles é como uma grande brasa, que rapidamente se espalha e consome os dois. Eles passam um tempo se conhecendo e se envolvendo, mas é tudo muito rápido e esse é um ponto importante desse romance. Apesar da agilidade implicar em pouco desenvolvimento dos personagens, não considero que isso é um problema da obra por representar justamente esse contexto.
Em termos da história, chama a atenção a forma como a obra se utiliza de elementos de fantasia e terror. A verdade é que se trata de um relacionamento tóxico por uma série de motivos, mas o protagonista ignora os sinais de problemas. Por um lado, todo o aspecto cosmológico místico está associado à idealização do príncipe encantado. Esses elementos fantásticos são metáforas que dizem do desejo de encontrar a pessoa certa e do romantismo tão natural especialmente no início de um relacionamento.

Porém, quanto mais tempo os dois passam juntos, mais as suas máscaras caem. Conhecendo um ao outro a fundo, os problemas começam a levar esse mundo perfeito dos dois a desabar. Acusações, exploração de fragilidades um do outro, apego emocional e obsessão são parte da forma abusiva como o relacionamento dos dois se desenvolve. Essa situação de um relacionamento que começa mágico e vai aos poucos se tornando em um grande pesadelo é muito bem retratada no jogo. Considerando o fato de que se trata de uma obra parcialmente autobiográfica, Lorenzo Redaelli fez um excelente trabalho de refletir sobre os eventos e apresentá-los de uma forma tão imersiva e emocionalmente forte.
Sensações em êxtase

Um aspecto interessante dentro disso é a forma como a obra representa as relações sexuais entre os rapazes. Em geral, esse tipo de conteúdo não pode ser mostrado de forma explícita em consoles, mas ela é transposta aqui para um sistema de sensações. O ato é representado por um contrato entre as partes, fazendo com que ambos se tornem “estrelas em órbita” e cabe a Nuki o papel ativo de escolher quais sensações explorar.
Tato, paladar, visão, olfato ou audição levarão a ver lados diferentes do que está acontecendo. Trata-se de um sistema similar ao de alguns RPGs de nicho como Kowloon High-School Chronicle [leia nossa análise aqui] ou Tokyo Twilight Ghost Hunters, mas aplicado apenas para o ato sexual. Dessa forma, ele busca representar o sexo como uma forma de comunicação entre os parceiros que corrobora com o contexto místico das estrelas tão apreciadas pelo protagonista.

Na prática, o sistema tem apenas algumas pequenas consequências. Dependendo das escolhas feitas durante a história, o jogador terá base para conhecer Sune um pouco mais e notar seus gostos, manias e problemas. Com isso em mãos, a escolha de determinadas sensações terá interações alteradas. Infelizmente, é algo muito pequeno para incentivar a exploração do sistema, que se mostra menos profundo do que poderia ser.
Um espetáculo visual inspirado no Oriente
Um aspecto que salta aos olhos em Milky Way Prince — The Vampire Star é sua estética um tanto incomum. A obra como um todo é claramente inspirada na filmografia de Kunihiko Ikuhara, cineasta japonês cujos animes cult chamam atenção por seu forte simbolismo assim como uma tendência a discussões sobre gênero e sexualidade. Além de ter dirigido vários episódios de Sailor Moon, Ikuhara é mais popularmente conhecido por Revolutionary Girl Utena, mas também dirigiu recentemente obras como Mawaru Penguindrum, Yurikuma Arashi e Sarazanmai.

Esse estilo inspirado em Ikuhara impacta tanto a escrita, cujos elementos fantásticos são fortemente nuançados e carregados de simbolismo, quanto a direção visual da obra que também apela para o reforço do simbolismo em sua forma. Apesar dos cenários serem concretos, a obra apela para o uso de cores fortes com o contraste de preto, branco e rosa choque em particular. O céu é marcado pela presença de corpos celestes estranhos e a temática celestial é reforçada por vários elementos gráficos incluindo nas cenas em que o jogador deve escolher sensações para Nuki explorar com Sune.
Tecnicamente aquém do padrão
Apesar de tantos elementos interessantes que mencionei acima, o principal problema de Milky Way Prince — The Vampire Star está em seus aspectos técnicos de qualidade de vida. Ao comparar a obra com o padrão atual de visual novels, é notável a falta de elementos que poderiam tornar a experiência mais fácil para os jogadores.

O jogo até conta com um log em um box minúsculo do menu de pause para rever as falas mais recentes e uma opção de dobrar a agilidade das cenas após terminar o jogo pela primeira vez. Porém, o normal das obras do gênero é possuir um skip mais avançado. Usualmente atrelado ao script, ele faz com que o jogador possa pular rapidamente o texto sem apertar botões e chegar assim até o próximo ponto de decisão ou falas novas. Isso ajuda também na detecção de elementos novos, reduzindo o cansaço de explorar tudo novamente quando a obra ainda está fresca na memória.
Da mesma forma, a obra conta com um pequeno fluxograma gráfico para indicar a conexão dos capítulos e os pontos de ramificação narrativa. Porém, não há indicativos claros que ajudem a conduzir o jogador para a rota desejada. O resultado é que é muito fácil acabar caindo no mesmo final várias vezes e ficar sem entender o que fazer para corrigir o problema. Esse tipo de clareza é algo bastante comum no gênero através de indicadores gráficos (como barras de relacionamento ou mesmo corações no canto da tela).
A dor de viver um relacionamento tóxico

Milky Way Prince — The Vampire Star é uma visual novel que chama a atenção com sua representação de um contexto complicado de lidar. Utilizando elementos fantásticos, ele alerta para os perigos de relacionamentos abusivos e as armadilhas que esse tipo de situação arma para as pessoas. Mesmo com pouco tempo de história e de alguns problemas de qualidade de vida, trata-se de um grande exemplo das possibilidades da mídia.
Prós
- Uma representação sólida de um relacionamento tóxico;
- Elementos de fantasia ajudam a representar a idealização dos eventos, servindo como metáforas;
- Sistema de sensações ajuda a representar o ato sexual dos personagens de uma forma única e especial;
- Uso de cores fortes e contraste forma um estilo gráfico apelativo.
Contras
- O impacto das escolhas e o sistema de rotas não são claros;
- Algumas praticidades que são de praxe de visual novels modernas não estão presentes.
Nota Final:
8,5
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