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Desenvolvedor: Kyle Thompson
Publicadora: Top Hat Studios
Gênero: Ação e aventura | Metroidvania
Data de lançamento: 22 de setembro de 2026
Preço: R$ 59,99
Formato: Digital
Plataformas: Nintendo Switch, PlayStation 5, Xbox Series X|S, PC
Análise feita no Nintendo Switch com cópia fornecida gentilmente pela Top Hat Studios.
Revisão: Lucas Barreto
Cantigas e fábulas são boas ferramentas para se transmitir mensagens, costumes e valores. Autores como os Irmãos Grimm e Charles Perrault se apropriaram de diversas histórias tradicionais para compor um gênero da literatura que passamos a chamar de “conto de fadas”. Elas fazem parte do folclore, apresentando criaturas mágicas diversas, como bruxas, ogros, dragões e animais falantes.
Atualmente, esse gênero literário dialoga bastante com o público infanto-juvenil. Porém, em sua origem, essas histórias apresentavam um enredo mais sombrio, cercado de violência e pitadas de terror. O metroidvania Well Dweller, o mais novo trabalho do desenvolvedor Kyle Thompson — de títulos como Islets e Crypt Custodian — usa, justamente, essa interpretação mais crua dos contos de fadas para construir o seu fio narrativo.
Era uma vez

Era uma vez, em um mundo mágico, uma recém-nascida que é encontrada por um jardineiro, nos arredores de um castelo. O homem a leva para a rainha, que nunca havia sido agraciada com um filho. A velha rainha, então, adota a criança. O tempo passa, ela cresce, mas junto a seu crescimento uma maldade sem tamanho acompanha a princesa. Ao se tornar rainha ela passa a caçar passarinhos para confeccionar vestidos e demais adornos.
Em pouco tempo, todos os passarinhos do reino foram quase todos mortos. Porém, dentro de um crânio humano, no fundo de um poço, uma última família de pássaros resiste. Em Well Dweller controlamos o primogênito Faísca, que é incumbido por sua mãe a sair do poço, junto com seus irmãos, para conseguir comida. A missão, no entanto, os coloca no radar da rainha e a família é separada. Cabe a Faísca reunir todos, novamente, para terem o seu “e foram felizes para sempre”.
Tom sombrio e humor negro

Kyle tenta suavizar o tom sombrio do jogo com certo humor negro, apresentando textos que ironizam e naturalizam os horrores daquele mundo. A escrita, no entanto, não é lá muito inspirada e as piadas soam um pouco fora do tom.
A história da rainha má, e de alguns personagens que nos deparamos durante a aventura, é aprofundada por páginas que encontramos espalhadas pelos cenários. Cada página representa uma parte de quatro contos macabros que melhor nos inteiram sobre a lore do jogo. Existe ainda um quinto conto que encontramos no pós-jogo.
Para quem já jogou títulos anteriores do desenvolvedor, tudo soará muito familiar. A identidade visual e sonora, nesse sentido, é bem única, principalmente, se compararmos o jogo com os últimos trabalhos de Kyle Thompson. Dessa forma, as músicas e efeitos sonoros, o design dos personagens, as batalhas contra os chefes e até mesmo o ritmo da exploração do mapa é bem próximo daquilo que já experimentamos, guardando elementos que fazem referência aos outros jogos do desenvolvedor.
Salto técnico

Apesar da versão dedicada para o Nintendo Switch 2 chegar só depois, o jogo é muito bem polido e a movimentação fluída no Switch original. Em toda a aventura não presenciei nenhuma queda de framerate, até mesmo em momentos em que aparecem muitos inimigos na tela ou nas lutas de chefes. Para quem for jogar o título no primeiro Nintendo Switch, há a possibilidade de diminuir a qualidade visual do jogo, baixando sua resolução no intuito, acredito, de melhorar a performance e, consequentemente, a experiência final.
Entre Islets e Well Dweller há um salto técnico bastante perceptível. O visual desenhado à mão, por exemplo, é muito bonito e apresenta uma movimentação de personagem com mais quadros de animação em comparação ao título de 2022.
E, só para frisar, estou fazendo essa comparação com um título mais antigo porque, por mais que Crypt Custodian seja o jogo mais recente do Kyle, a gameplay não seguia uma progressão lateral. No geral, para ser sincero, a movimentação ainda me causa certa estranheza, mas está bem mais suave.
Inspirações e muitas facilidades

Well Dweller é um Metroidvania bem purista, mas que se inspira mais na fórmula estabelecida por Hollow Knight do que na vista em Metroid ou Castlevania. Porém, essa inspiração é limitada a certas mecânicas de gameplay, como a necessidade de cadenciar nossos ataques com esquivas, o uso de amuletos mágicos (traduzido no jogo como Berloques) que melhoram algumas de nossas habilidades; ou na ambientação mais soturna. Assim, a “musa” de Well Dweller não influenciou a dificuldade do jogo em si. Na verdade, ela é tranquila até demais.
Como todo bom Metroidvania, há todo um mundo labiríntico interconectado. A exploração é bem cadenciada, com momentos de luta contra uma horda de inimigos, desafios de plataforma e pequenos puzzles que devemos solucionar para progredir. A exploração, no entanto, é facilitada muito cedo com a possibilidade de fazer viagens rápidas, a qualquer momento, para pontos de salvamento em formato de tendas, espalhadas pelo mapa.
Com o tempo, essas tendas poderão ser utilizadas para comprar alguns Berloques e outros itens com o ladrão/comerciante Lalau. Além de poder fazer upgrade nesses pingentes e ainda adquirir informações sobre o paradeiro de alguns segredos do jogo, como fichas para upgrades ou espaços de Berloques. Pelo nome do comerciante acredito que nem preciso dizer que houve um excelente trabalho de localização.
As habilidades de Faísca

Faísca usa um fósforo aceso como arma. Conforme apanhamos, a chama vai se apagando, tornando necessário utilizar um Frasco de Óleo para reacender o palito e recuperar parte da vida perdida. Além do fósforo, temos um golpe especial, de uso limitado, que nos permite atirar garrafas de óleo em chamas nos inimigos. Conforme progredimos na história, outras habilidades dão as caras ou são aperfeiçoadas, permitindo novas formas de exploração do mapa e alcançar áreas antes inalcançáveis.
O ritmo em que elas aparecem, no entanto, me incomodou um pouco. Acharia muito mais interessante, por exemplo, que a vitória contra os chefões garantisse não só o desbloqueio para outras áreas do jogo como também de novas habilidades. Porém, você está explorando o cenário e acaba topando, meio que ao acaso, com um novo poder, concedido por uma espécie de “ave guardiã”.
As habilidades se diferenciam, em parte, dos moldes mais tradicionais do que vemos nos jogos do gênero. Esse distanciamento eu tomo como positivo, pois agrega identidade ao jogo, por mais que não seja necessariamente algo original. Não há, por exemplo, pulo duplo. Na verdade, acredito que houve uma tentativa de adequar as habilidades de Faísca à sua natureza.
Pelo menos em parte, até porque o herói da aventura é uma ave e não voa. Em termos de progressão e narrativa isso até faz sentido. Primeiro porque isso quebraria a exploração e segundo porque, em essência, Faísca é uma ave presa numa gaiola simbólica por conta dos perigos do mundo externo.
Um Metroidvania acessível e direto
Well Dweller é bem mais acessível e direto do que outros Metroidvanias disponíveis. Isso é ao mesmo tempo bom e ruim. É “ruim” porque a exploração ficou comprometida na medida que permite a ida para qualquer tenda do mapa. Se ao menos a viagem rápida fosse possível de uma tenda para outra, aumentaria um pouco o nosso contato com o jogo. Até porque o mapa não é gigantesco. Esse ritmo prejudicou até mesmo o pós-jogo que é, muito rapidamente, concluído.
Ele é “bom” porque o torna uma boa porta de entrada para jogadores mais inexperientes, já que é muito difícil alguém se frustrar jogando ou ficar perdido sem saber para onde ir. Boa parte das reclamações de quem não curte Metroidvania gira em torno disso. A impressão que tive é que Kyle Thompson fez algo para atrair todos os tipos de públicos, e isso é algo extremamente positivo. No geral, se fosse usar uma palavra para adjetivar Well Dweller, de longe diria que é muito “divertido”. Joguem!
Prós:
- Visual desenhado à mão;
- Acessível a todos os tipos de públicos;
- História divertida, apesar do tom sombrio;
- Metroidvania com identidade própria.
Contras:
- Mecanismos que facilitam demais a progressão;
- Novas habilidades surgem eleatoriamente;
- Curto demais.
Nota
8
