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Revisão: Lucas Ferreira
O que será que passaria em sua cabeça ao ouvir o termo “jogo mobile”? Sem dúvida sua resposta seria algo como jogos por serviço, microtransações extremas, dopamina fácil, e claro… o tópico de hoje. Com o advento global dos smartphones entre as décadas de 2000 e 2010, uma resposta surgiu para transformar o fraco mercado, até então, de jogos mobile em um termo que definiria o rumo desta indústria: gachas!
Tendo seu nome baseado nas máquinas de gachapon (que por si só, possuem este nome por conta da onomatopeia “gacha”, simbolizando um giro de roleta), gachas são jogos de celular com uma gameplay que geralmente varia de jogo para jogo, mas que gira ao redor de um loop: a sua sorte. Seja personagens, equipamentos ou afins, o jogo apresenta uma roleta de possibilidades que o jogador pode adquirir jogando pela história, um número de bônus diários ou apenas pagando para aumentar o número de giros possíveis.
Alguns exemplos de jogos mobile que adotam a estratégia gacha são:
- Fire Emblem Heroes
- Fate/Grand Order
- Granblue Fantasy
- Umamusume: Pretty Derby
- Genshin Impact
No entanto, e isso vale para jogos mobile em geral, o End of Service (E.o.S.) é algo que ocorre quando um jogo deixa de dar o lucro para a empresa parente e acaba sendo cancelada no processo. Muitos fãs se expressam reclamando de tais ocasiões, às vezes por investimento de tempo / dinheiro no gacha, mas também por achar a história de um determinado jogo específico boa demais – estou com vocês, fãs de NieR Reincarnation.

E é neste tópico que iremos focar hoje, jogos que saíram do formato mobage gacha e foram refeitos para console, seja em lançamentos completos ou parte de uma coletânea que inclui a história e gameplay do jogo que discutiremos aqui.
Sem mais roletas para girar
Como todo texto dividido em tópicos que já escrevi, separei algumas regras para tornar mais prático o entendimento de quais jogos puderam entrar e quais não. Mas para resumo, prestem atenção nas regras abaixo!
O que pode:
- Jogos que foram baseados em um jogo mobile pré-existente;
- Diferente o bastante na forma que adapta as mecânicas gacha;
- Por fim, ter re-adaptado parte da história / mecânicas originais do jogo mobile.
O que não pode:
- Jogos pagos que são spin-offs do mobage citado;
- Relançamentos off-line de forma paga – ainda para smartphones.

Isso significa que determinados jogos como Granblue Fantasy: Relink ou Umamusume: Pretty Derby – Party Dash não vão poder fazer parte da nossa lista, mesmo eles possuindo uma certa qualidade inerente em suas respectivas jogabilidades. Por isso, para sermos justos e não inflarmos a lista com estes jogos, nós não vamos usá-los como exemplos. Mas ao menos, que fiquem mencionados neste parágrafo como “considerações especiais” nossas!
Retornando para Orsterra
Possivelmente o paciente zero desta epidemia positiva, Octopath Traveler 0 foi em tese o primeiro lançamento adaptado de um jogo mobile que vimos, mas provavelmente foi desenvolvido num período semelhante ou em conjunto com os outros da nossa lista. Ele é uma readaptação do primeiro capítulo do jogo gacha Octopath Traveler: Champions of the Continent, que ironicamente ainda se encontra disponível para baixar e ser jogado, não tendo passado por um E.o.S. ainda – espero que isso não envelheça mal.
Octopath Traveler 0 se passa no continente de Orsterra, a mesma terra do primeiro título e algumas décadas antes da trama principal do mesmo. Apesar de algumas referências diretas, de revisitarmos locais do primeiro jogo, e até mesmo ter aparições de certos personagens, a trama de Octopath Traveler 0 pode ser considerada totalmente independente; diferentemente dos jogos anteriores da série Octopath, nesta aventura, o protagonista é um personagem avatar que o próprio jogador cria e customiza a bel prazer!
Em termos de mecânicas, Octopath Traveler 0 ainda mantém em parte o sistema de combate pela qual a franquia Octopath é conhecida, com seus turnos dinâmicos, sendo neste aspecto mais parecido com CotC do que outras readaptações. A diferença maior se dá na forma que o jogador consegue seus personagens aliados, com as missões dos mesmos sendo opcionais, mas garantindo aliados poderosos em combate que se aliarão ao seu personagem e o ajudarão no combate e na reconstrução de sua cidade, uma mecânica nova do zero.




Resumindo, Octopath Traveler 0 foi uma aposta da Team Asano (e verão que não será a única) para manter parte de Champions of the Continent vivo mesmo em um eventual E.o.S., mas também foi uma carta de amor genuína dos desenvolvedores ao primeiro jogo e ao continente de Orsterra, contando uma história divertida e que prenderá o jogador por dezenas de horas!
O reino de um jogo esquecido
Uma adição um tanto bizarra em nossa lista, Kingdom’s Return é uma readaptação de um jogo mobile que, em tese, é um bônus em nossa lista por fugir um pouco da regra inicial de gacha. O jogo original, Bokura no Kingdom, era um simulador de cidade com elementos de aventura e microtransações que lançou para smartphones japoneses entre 2012 e 2013, sendo mais semelhante a um MMO do que um gacha, pois não tinha o elemento do RNG.
—Mesmo assim, ele será considerado em nossa lista porque é certamente um feito reviver a IP de Kingdom’s Return
Kingdom’s Return possui uma história pouco ativa, mas existente: você controla um de quatro personagens (a cavaleira Imperial, o gênio Alquimista, a perspicaz Maga e o samurai estrangeiro Zipangu) e resgata Chronos, uma fada capaz de controlar o tempo. Seu personagem inicial escolhido e Chronos se deparam com o destruído reino de Almacia e, a pedido do rei, buscam restaurá-lo enquanto ainda usam o local como base.
Não há muito o que dizer em termos de como Time Eating Fruit and the Ancient Monster readapta as mecânicas do Bokura no Kingdom, porque infelizmente não temos muitas informações de como ele funcionava. Porém, não é exagero dizer que este jogo foi retrabalhado do zero para virar o que era inicialmente só um simulador de gestão de reino para um pseudo-RPG de ação que, em muitos aspectos da gameplay, lembra jogos como ActRaiser. Apesar de um tanto “barato” em certos momentos, ainda é um jogo que valeria ao menos uma olhada antes de desmerece-lo.




Para quem viu um pouco de Kingdom’s Return em jogos como Card-en-Ciel, onde temos uma dungeon temática de Bokura no Kingdom, este jogo é um gostinho a mais do que a gameplay do mobile poderia ter sido se lançasse em poucos anos depois.
Refletindo a luz do Sol
Misturando garotas mágicas, um ambiente escolar, um pouco de yuri e… fetiches dos desenvolvedores, BLUE REFLECTION é uma IP da Gust um tanto menos popular que Atelier, mas igualmente importante para entendermos como e porque a Gust se tornou especialista em garotas fofas como protagonistas. BLUE REFLECTION: Sun era uma “continuação” de Second Light e foi um jogo mobile que durou de 2023 até 2024, tendo passado por um E.o.S. em menos de um ano e meio devido ao baixo número de jogadores.
BLUE REFLECTION: Sun expande a lore de BLUE REFLECTION enquanto mantém sua atmosfera melancólica, mas adicionando um toque mórbido à composição. Na história do jogo, um fenômeno cataclísmico chamado “Ash” espalhou cinzas sobre o mundo, enquanto entidades hostis conhecidas como ‘Testa” surgem do Ash para roubar o Ether dos seres humanos. É uma visão mais séria e até um tanto exagerada nos temas de apocalipse, mas ainda sob uma ótica que não vai contra as ideias da franquia.
Em termos de combate, Sun oferece uma versão mais simples e resumida do sistema que vemos no segundo jogo, mas com o adendo de turnos dinâmicos que não eram presentes no lançamento do gacha. No entanto, a transição deste jogo de mobile para console acabou sendo um dos exemplos mais simples: a estrutura do jogo permanece linear, a história é apresentada num sistema de visual novel e o combate se torna apenas mais significativo durante as batalhas contra os bosses.




Com o lançamento de Quartet, a coletânea de BLUE REFLECTION que reúne os dois jogos, uma adaptação do gacha e uma adaptação de Ray (o anime), tecnicamente temos toda a série em um pacote só! Apesar de Sun ter uma experiência de combate aquém ao apresentado em Second Light, o fato de termos uma forma de jogá-lo oficialmente, sem as correntes que aprisionavam sua versão GaaS, torna essa uma experiência que faz o pacote valer a pena no preço da compra.
Um outro Éden se inicia
E se eu te dissesse que o roteirista principal de Chrono Trigger, Masato Kato, foi responsável por escrever e dirigir um outro jogo que, em muitos pontos, é exatamente Chrono Trigger? Lançado para smartphones em abril de 2017, Another Eden: The Cat Beyond Time and Space é um RPG de turno que conta uma história envolvendo viagem no tempo, alianças inesperadas e uma luta pelo futuro do mundo em que se passa, tudo isso com composições de Yasunori Mitsuda, o mesmo compositor de Chrono Trigger / Cross e Xenogears!
A obra conta a história do jovem Aldo, que vivia junto com sua irmãzinha na vila de Baruoki, até que um dia ela é raptada pelo rei das feras; durante a perseguição para recuperar sua irmã, Aldo acaba sendo transportado para 800 anos no futuro, dando início a uma jornada épica. Begins pega todos os conceitos do primeiro “capítulo” do Another Eden de celular, recontextualiza os sistemas de gacha em capítulos dedicados aos personagens que viriam nas pull-rates, e altera um pouco o sistema de combate para um sistema de turnos dinâmicos.
Para nossa sorte, diferente da maioria de nossa lista hoje, Another Eden: The Cat Beyond Time and Space ainda é um jogo mobile que está disponível para ser jogado por aqueles que se interessarem. Não estou afirmando que um E.o.S. é impossível, porque isso seria ingênuo da minha parte em dizer, mas ao menos existe a opção de termos uma experiência estendida do que o Another Eden Begins já oferece para aqueles que curtiram a história!




Será que os próximos capítulos serão adaptados em forma de sequência? Só o tempo dirá…
Visões ressoando à fantasia
Encerrando nosso tópico com um jogo que, ao menos na data que este texto foi escrito, ainda não saiu ao público. No entanto, da nossa oportunidade de jogar FINAL FANTASY RESONANCE em sua demo de prólogo, as nossas impressões quanto ao jogo foram extremamente positivas, com este podendo ser não apenas um dos melhores RPGs do ano, como também um dos melhores HD-2D da SQUARE ENIX nos últimos anos!
Usando Final Fantasy Brave Exvius como base, Resonance é um remake de fato, recontando a história do primeiro capítulo do falecido mobage enquanto ao mesmo tempo introduz:
- Um sistema de combate novo
- Exploração de mapa única
- Por fim, o estilo HD-2D do qual a SQUARE ENIX é dona




Não há muito o que acrescentar de RESONANCE por ora, já que infelizmente é um jogo que ainda não saiu. Mas, considerando que Brave Exvius não foi o último Final Fantasy mobile a receber o tratamento de E.o.S., fica a questão de se veremos readaptações de outros jogos como Mobius, Opera Omnia, etc.
Por que isso importa?
Mas afinal, qual o sentido destes jogos mobile ganharem uma versão refeita para plataformas modernas? Bom, a resposta é ao mesmo tempo simples e cínica, mas também algo que dá um pouco de esperança para os fãs de vários destes jogos: é dinheiro “fácil” para as publishers e ao mesmo tempo preserva o legado de um jogo com uma base ativa de fãs! Ao mesmo tempo que tempo não é gasto para um roteiro ou base geral de gameplay, que já está feita, esse tempo e recursos são gastos na forma que o jogo será readaptado.
Pensem que quando um jogo live service gacha é delistado, muitos fãs destes jogos acabam sendo vocais sobre como é injusto eles terminarem sem ao menos oferecer uma chance de jogar uma versão off-line – estou olhando para você, Dragalia Lost. Então, vendo que devs atuais lançam gachas com planos para um fim da história que está sendo contada e possíveis adaptações futuras para uma versão de console (um exemplo disso é Persona 5: The Phantom X), eu fico feliz que ao menos o futuro do jogo, independente de sua qualidade, é considerado!

Encerrando aqui, eu também não acredito que todo jogo gacha PRECISE de uma versão paga para console, mas a possibilidade de ter pelo menos alguns destes jogos é algo que eu imagino que não seja um negativo para a indústria. Mas o que eu sei, afinal? Sou apenas um jogador que até hoje nunca conseguiu a sorte de dar um pull de cinco estrelas em qualquer gacha que joguei, hahaha.
