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Desenvolvedora: Three Bees
Publicadora: Clickpulp
Gênero: Adventure | Point n’ click
Data de lançamento: 14 de maio, 2026
Preço: R$ 59,99
Formato: Digital
Plataformas: Nintendo Switch, PC
Análise feita no Nintendo Switch 2 com cópia fornecida gentilmente pela Clickpulp.
Revisão: Manuela Feitosa
Perfect Tides: Station to Station é o segundo jogo da série coming of age Perfect Tides, criada pelo estúdio solo Three Bees, da quadrinista Meredith Gran. Station to Station foi lançado em Janeiro de 2026, vindo de uma safra interessante de jogos com uma forte veia autobiográfica como Despelote e Consume Me, lançados no ano passado.
Diferentemente desses dois outros títulos, Perfect Tides: Station to Station adota uma abordagem mais semiautobiográfica, isto é, mesmo que ainda baseado nas experiências de Meredith Gran, o jogo possui uma pitada de licença poética e ficção. Esse aspecto do jogo faz com que da mesma forma em que podemos ver muito da autora em Mara, também não seja muito difícil enxergarmos um pouco de nós mesmos na personagem ao retratar experiências que muitas vezes são universais, por mais que exageradas.
Nada mais difícil do que ser você mesmo
O jogo acompanha Mara Whitefish nos seus primeiros períodos da faculdade na universidade SUCS, onde corre atrás do seu sonho de se tornar uma escritora.
Além de ter que manter os seus estudos em dia, Mara ainda precisa conciliar a vida universitária com o seu trabalho de meio período na biblioteca universitária, além de seus relacionamentos com amigos, família e o namoro à distância com Adam, e podemos adiantar que Mara não é lá muito boa em nenhuma dessas coisas. A garota nutre um certo complexo de inferioridade somada a uma síndrome de impostor, além de possuir as habilidades sociais de um gambá, o que torna toda a sua jornada ainda mais complicada.

Apesar de ser uma sequência, Station to Station não precisa de conhecimento prévio algum do primeiro jogo. Ambos os capítulos da série podem ser facilmente jogados de maneira isolada por representarem momentos diferentes da vida da protagonista, claro que com uma referência aqui e ali a personagens e situações presentes no primeiro jogo que vão aparecer na sequência, mas nada que não seja reintroduzido para novas audiências.
Station to Station leva tão a sério esse aspecto mais antológico da série que até mesmo chega a apresentar personagens e situações no começo que são consequências de eventos que aconteceram entre um jogo e outro, o que implica dizer que a vida de Mara não parou nesse meio tempo entre os dois jogos. Desta forma, a sequência se importa muito mais em estabelecer um arco narrativo para Mara onde haja um desenvolvimento de personagem razoável e contido em si mesmo ao invés de simplesmente elaborar em fatos e acrescentar em um “lore” que não tem lá tanta importância.
Um bom exemplo disso é o fato de que Mara agora tem um namorado chamado Adam, cujo relacionamento começou exatamente nesse período que não foi propriamente mostrado, pois o jogo prefere discutir muito mais a conjuntura atual do relacionamento e a forma como o mesmo impacta na vida de Mara além de sua origem e fase inicial do namoro.

Assim como quase todo jovem recém chegado a idade adulta, Mara possui uma certa ânsia por vivências, e apesar de ainda não ter idade legal para beber nos Estados Unidos (21 anos), Mara nutre uma certa curiosidade por festas, álcool, drogas e sexo.
Mesmo que estas não sejam de fato as suas primeiras experiências com quase nenhuma dessas coisas, o que Mara procura e o que é apresentado no jogo é um tanto mais profundo do que a típica vivência adolescente de filmes do John Hughes (Clube dos Cinco, Curtindo a Vida Adoidado), tudo isso em prol não só de experimentar o mundo que recentemente abriu à sua frente, como também para adquirir novas vivências, pontos de vistas e consequentemente melhorar sua escrita.
Desta forma, a história se passa em dias específicos de cada estação do ano de 2003. O jogo traça esse paralelo entre as estações do ano assim como as estações do trem que levam Mara de um ponto a outro no estado, entre a cidade chamada somente de The City, onde estuda, à sua casa onde mora com a mãe em uma cidadezinha mais afastada do grande centro e até mesmo a própria Perfect Tides, cidade natal de Mara e também local que assombra grande parte da narrativa.

Apesar de não se passar na ilha de Perfect Tides propriamente dita, o jogo ainda vai mencioná-la bastante. Muito do que molda a personalidade de Mara é o que houve em sua cidade natal, além do fato de que a discussão e parte do aspecto de “aventura” do jogo se dá pelo fato de que pela primeira vez, a garota está de certa forma sozinha em um lugar afastado de tudo que era familiar e mundano em sua antiga vida.
De qualquer forma, ainda que o nome da cidade seja mencionado diversas vezes ao longo do jogo, é notável que a narrativa tenta empurrar Mara para longe da pequena ilha que dá nome a série, mas independentemente, as nossas raízes ainda dão um jeito de aparecer de uma forma ou de outra.
Seguindo a lógica das estações do ano, a transição de Mara entre elas não é sutil e isso é proposital. O jogo é dividido em 4 capítulos, um para cada estação, onde cada um deles funciona como um arco na vida de Mara, uma história quase que contida em si mesma. Isto implica em novas situações, pessoas indo e vindo, experiências e traumas, é claro.
Outro aspecto interessante de Station to Station como um todo é como a sua escrita é sempre afiada. Por vermos o mundo sob o olhar de Mara Whitefish o tempo todo, acabamos por ter uma visão muito ampla dos seus pontos de vista sobre o mundo, opiniões a respeito das pessoas, sobre si mesma, a vida e tudo mais.
Os pensamentos de Mara são cobertos por um certo cinismo e uma camada de ironia às vezes até mesmo autodepreciativa, mas o jogo dosa a futilidade e o aspecto juvenil da consciência da protagonista com uma dose poética e por vezes bem sóbria e madura, o que reflete muito bem os dotes da personagem para a escrita criativa sem parecer algo muito exagerado ou performático.

Apesar de ser uma personagem, possivelmente uma caricatura de uma pessoa que existiria na vida real, é muito possível enxergar Mara como uma pessoa real — tão real, identificável e sincera que chega a ser assustador o quão os traços da sua personalidade se tornam palpáveis através da escrita de momentos e pensamentos mais mundanos até reflexões e diálogos mais profundos.
Mara Whitefish é um fruto de seu tempo
Perfect Tides: Station to Station também funciona muito bem como um recorte da época. O jogo se passa no início dos anos 2000, o que implica dizer que telefones públicos ainda eram algo popular, mídias físicas ainda eram bem distribuídas; comunidades em volta de interesses nichados aconteciam muito mais de forma presencial; a internet ainda estava nos seus primeiros dias; as relações humanas existiam muito mais em um meio físico do que digital, e claro, relacionamentos à distância eram muito mais complicados.
Não só no que diz respeito a relações interpessoais, mas o jogo também dá um foco muito grande na tecnologia da época. Os computadores que Mara usa são um aspecto crucial do gameplay visto que é onde Mara vai passar quase que 100% do seu tempo de escrita.
O computador também funciona não apenas como uma máquina de escrita para Mara, mas através dele também é possível checar seus e-mails, trocar mensagens com personagens, e perder tempo em fóruns ou pesquisando sobre diversos assuntos on-line. Toda a interface e exploração dos computadores é quase como uma pequena experiência à parte — houve um certo esforço em evocar a memória da estética da web do início do novo milênio, por mais que subjacente à arte simplificada do jogo.

Além do computador, o celular de Mara é uma das principais ferramentas do jogo, e é onde Mara vai contatar seus amigos e parentes à distância, além de anotar tópicos e nomes de pessoas importantes para a trama. O aparelho também funciona como o menu do jogo nos diálogos e é por onde o jogador seleciona qual assunto irá conversar sobre com as pessoas. Dessa forma, o aparelho acaba funcionando de uma forma um pouco mais lúdica, mas que também contribui para sempre situar o jogador no contexto em que a história se passa.
Fora o aspecto contextual e nostálgico de apresentar esses objetos antigos, Perfect Tides também vai pontualmente obrigar o jogador a engajar com tecnologias que são fruto de seu tempo, o que dá brecha para segmentos de gameplay bem interessantes — nada vai se igualar ao desespero que eu passei tentando entender como se usa um telefone de disco em meio a uma situação de alto risco.

Station to Station também não tem vergonha alguma em fazer referência direta a mídias da época. Não é incomum encontrar referências a álbuns, bandas, músicas, artistas, filmes e principalmente livros que existem na vida real, muitos desses sendo clássicos, enquanto outros ainda bem recentes considerando o ano em que o jogo se passa. Tudo isso acrescenta muito a ambientação do jogo não só em um âmbito físico, mas também a um nível cultural, tornando o mundo e os personagens um pouco mais próximos de nós mesmos.
Escrevendo o seu caminho na cidade
Perfect Tides: Station to Station dá um foco na questão da escrita de Mara, ao longo da jornada a protagonista irá receber os mais diversos trabalhos para a faculdade além de projetos pessoais, textos para blogs e até mesmo posts elaborados em fóruns.
Cada um desses textos precisará de dois tópicos — os mesmos presentes no celular —, que podem ser selecionados entre um primário e um secundário, e o nível em que Mara se encontra no assunto selecionado é o que ditará a qualidade do trabalho em questão. Cada texto tem um prazo limite para ser finalizado, uns podem ser finalizados em um dia e outros pedem várias sessões de escritas mas também com prazos menos apertados, no entanto, Mara também só possui energia o suficiente para escrever uma vez durante o dia. O tempo que é disponível para escrita é claro e fica destacado no menu superior, então é sempre bom se atentar para isso.
Perfect Tides encoraja o jogador a engajar com conversas a partir da sua mecânica de tópicos. Por vezes Mara pode dialogar com personagens específicos utilizando uma lista de assuntos e pessoas para direcionar a conversa. Certas vezes, conversar com personagem x sobre tal assunto vai fazer com que Mara receba um upgrade naquele tópico que posteriormente pode ser utilizado para escrever seus textos, e o quão Mara entende ou tem vivência naquele tópico ditará a qualidade de seus escritos, pois uma mecânica alimenta a outra e ainda aprendemos mais sobre cada personagem individualmente.

Além de conversar com pessoas, a outra maneira mais segura de aumentar o nível de cada tópico é lendo livros. Cada livro aumenta um atributo mas também toma parte do tempo de leitura de Mara, que assim como o de escrita só pode ser feito uma vez ao dia. Dessa forma, Station to Station também acaba dizendo muito sobre o processo artístico como um todo. Uma das mensagens que se pode tirar da aventura é o quão o mesmo encoraja que artistas tenham uma vida, com experiências enriquecedoras e pessoas que têm muito a nos ensinar, sejam com palavras ou compartilhando aventuras urbanas em conjunto.
Ambos os jogos da série foram feitos em Adventure Game Studio, uma engine bem simples e comumente utilizada por desenvolvedores independentes em jogos de adventure point n’ click que emulam esse estilo de gameplay clássico dos jogos da LucasArts e Sierra Entertenment dos anos 80 e 90. Por ser um projeto pequeno utilizando uma engine bem simples, as limitações do jogo ficam logo aparentes, Station to Station não possui algumas convenções comuns de jogos narrativos, o que pode marcar o jogo com uma experiência um tanto quanto negativa em certos pontos, mas nada que seja algo gritante de fato.

Um log com diálogos anteriores seria muitíssimo bem-vindo, por exemplo, e a ausência de atuação de voz também certamente vai fazer falta para jogadores mais exigentes. Mas apesar disso, o jogo ainda é bem impressionante na reatividade da narrativa e dos personagens nas ações de Mara e suas escolhas. Não é nada que chegue aos pés de um Disco Elysium ou um Baldur’s Gate 3 da vida, mas representa um salto grande em relação ao primeiro título, e convenhamos, é muito mais do que esse jogo precisa para contar uma excelente história de amadurecimento.
Partes das interações e escolhas de Mara vão ter alguma consequência para o emocional da personagem. Por um lado, podemos escolher entre sair com um amigo ou escrever, nutrir um relacionamento tóxico ou sair para uma festa. Não é raro que o jogo vá colocar o jogador nesse tipo de situação. Station to Station também adota uma filosofia de design onde não existem estados de falha, e o que normalmente seria considerado uma “falha” é uma nova oportunidade de explorar aquela situação por outros olhos. O jogo não quer e nem espera que Mara vença em todas as situações de sua vida, ainda assim, as consequências dessas escolhas não são muito drásticas e também mantém a narrativa na linha que vai desencadear no final principal da história.
Perfect Tides também brilha em sua estética, os dotes artísticos de Meredith Gran são muito bem executados em sua simplicidade gráfica numa estética de pixel art “crocante” que lembra Adventures de outrora, como Maniac Mansion de 1987, desenvolvido pela LucasArts. O que torna o título ainda mais único somado às referências clássicas de videogames é o traço cartunesco e expressivo de Gran, um estilo bem característico de tirinhas e histórias em quadrinhos independentes à la Scott Pilgrim Contra O Mundo de Bryan Lee O’Malley — que já não é muito diferente do que a autora tinha apresentado na sua série de webcomics Octopus Pie.

No caso do Nintendo Switch, temos algumas questões que devem ser levadas em consideração na hora de escolher em qual plataforma adquirir o jogo. Considerando que Perfect Tides: Station to Station é em seu âmago um adventure point n’ click, é natural que o jogo se saia muito melhor e tenha uma jogabilidade bem mais fluida no PC do que no controle. Controlar a seta que aponta para onde direcionar o olhar de Mara vai ser sempre uma tarefa um tanto quanto inconveniente e bem menos precisa no analógico do que seria num mouse. Nada que não dê pra se acostumar com o tempo, mas ainda vai ser um pequeno processo de adaptação para quem não tem o costume de jogar esse tipo de jogo em consoles, como é o meu caso.
Porém, uma das vantagens desse porte além da portabilidade é o suporte a tela de toque do Nintendo Switch, que funciona muito bem e pode ser jogado praticamente em sua totalidade sem sequer apertar qualquer botão nos joy-cons. Além da tela de toque, o jogo faz uso também dos direcionais do controle que ao pressionados, redirecionam a seta automaticamente para o ponto de interesse mais próximo de acordo com o botão pressionado. Exemplo: se o objetivo que deseja examinar está acima de Mara, então o botão que deverá ser pressionado é o direcional para cima, e por aí vai.
De estação em estação, nos encontramos
Perfect Tides: Station to Station é um daqueles jogos que é tão fácil se identificar que às vezes dói. O que foi criado aqui é um jogo baseado na vida real para pessoas reais. É um jogo que diz muito sobre Mara, mas também pode dizer muito sobre nós mesmos e nossa relação com os outros, sejam amigos, pares românticos ou família, mas também sobre o que pensamos de nós mesmos e como todas essas experiências mundanas nos moldam.
Prós:
- Uma narrativa sincera e profunda sobre amadurecimento;
- Utiliza bem da linguagem da mídia para contar a sua história, dando liberdade para o jogador explorar suas decisões;
- Excelente protagonista, fácil de se identificar com seus erros e acertos;
- Ótimo recorte de como era a vida no início dos anos 2000.
Contras:
- Jogar no controle talvez não seja a experiência ideal, mas nada que atrapalhe muito;
- Ausência de convenções e qualidade de vida já muito comuns em jogos do gênero.
Nota
10
