Revisão: Juliana Paiva Zapparoli
Filmes baseados em jogos eletrônicos já viraram rotina a esta altura do campeonato, e a Nintendo tem se beneficiado muito bem disso, com uma parceria mais que bem-sucedida com a Illumination, da qual surgiu dois filmes de muito sucesso. Ambos tiveram uma recepção majoritariamente positiva dos fãs, gerando lucros que ultrapassaram a casa do bilhão.
Porém, apesar desse brilho dos longas animados de 2023 e 2026, houve um que a Nintendo considerou um baita tropeço: o filme Super Mario Bros., de 1993, um live-action do encanador mais amado de todos.
Uh, que Mario?
Mesmo naquela época, Mario já era um personagem bastante relevante e com potencial para ser explorado em outras mídias fora dos cartuchos (o tipo de mídia que a franquia dominava acima das concorrentes), como o desenho The Super Mario Bros. Super Show!.

Com isso, o produtor Roland Joffé, com o investidor Jake Eberts e sua produtora independente Lightmovie, convenceu o presidente da Nintendo da época (Hiroshi Yamauchi) de permitir o processo acontecer e de assinar um contrato; não só isso, como deu toda a liberdade criativa que os envolvidos poderiam desejar (coisa que sabemos que JAMAIS aconteceria nos dias atuais).
Com isso, os gastos com a produção foram grotescos para a época — quase 50 milhões de dólares investidos —, gerando o surgimento da necessidade de vender o filme para mais distribuidoras, o que trouxe mais executivos engravatados querendo enxergar apenas os cifrões que o longa poderia gerar. Estima-se que o prejuízo desse filme foi de quase 10 milhões de dólares, e não é à toa: por mais que fosse um filme de um alto potencial financeiro, acabou afastando o público por diversas escolhas, principalmente as criativas.
A escolha de live-action já dificultava, principalmente na época, os meios de se representar um ecossistema tão genuinamente mágico como o de Mario, mas isso nem de longe foi o único problema. Anteriormente, citei o desenho animado Super Show!, que tinha o universo dividido em dois mundos: o real (basicamente o ecossistema Brooklyn) e o mágico (Reino dos cogumelos).
Essa ideia de dois mundos também é seguida no filme de 93, mas de um jeito bem mais bizarro, já que o mundo mágico da vez é chamado Dinnohattan. Apesar de caótico, bizarro e com humanos normais, traz uma atmosfera mais urbana moderna, com as pessoas (cuja diferença notável é sua linha evolutiva ter vindo de dinossauros) sendo hostis umas com as outras, tudo isso por causa do ditador daquele mundo, o Rei Koopa, Bowser (Dennis Hopper), que basicamente era um ser humano de topete na aparência, mas filho de uma cobra, como ele mesmo citou em sua introdução.

Ele tinha uma arma de energia que podia transformar quem fosse atingido em um Goomba (que, nesse filme, é retratado como um réptil, já que a arma retrocede a linha evolutiva de quem recebeu o disparo). Contudo, esse monstro é bizarro de feio, sendo uma adaptação bisonha de um inimigo padrão dos jogos do Mario.
Os irmãos Mario Mario (Bob Hoskins) e Luigi Mario (Bob Leguizamo) têm que ir a Dinnohattan para resgatar a princesa Daisy (Samantha Mathis) — sim, não tem a Peach nesse filme —, que foi raptada. Ela era a princesa que foi escondida no mundo da vida real pela sua mãe (antiga rainha antes do golpe de Estado do Bowser) junto a um colar de pingente de meteoro ao qual o Koopa não podia ter acesso, para ele não ter o perigo de fundir o mundo dele com o humano e, assim, escravizar todos os habitantes dessas duas realidades.

Roteiro falho, visuais não temáticos, trilha sonora repetitiva e algumas outras bizarrices, como Toad músico nomeado sapo, Yoshi live-action e outros, foram alguns dos motivos pelo fiasco que esse filme veio a se tornar, mas eu diria que a raiz do problema está principalmente na produção dele.
Como NÃO produzir um filme
Os erros de produção desse filme foram diversos. Para começar, o roteiro foi alterado diversas vezes durante a produção, pois os investidores queriam algo mais puxado para o mundo fantasioso dos jogos, indo até para uma pegada mais medieval, enquanto os diretores Rocky Morton e Annabel Jankel (um casal na época) queriam um roteiro mais sério e discordavam completamente com a outra visão apresentada; possivelmente devido ao estresse, descontavam tudo com arrogância nos envolvidos — e arrogância é uma palavra que define bem o set desse filme.

Por conta dessas alterações constantes de roteiro e ambiente tóxico de trabalho, era insalubre para os atores de Mario e Luigi continuarem com as gravações, por isso, se embebedavam para lidar com a situação de modo nada sóbrio. Nem os figurantes escaparam dessa bagunça, com duas histórias que os envolveram: na primeira, muitos deles assistiram a Dennis Hopper discutir com os diretores por quase uma hora, gritando e reclamando da organização; já na segunda, o diretor Rocky Morton não gostou do visual de um figurante e derramou café quente no homem — história esta negada pelo diretor, mas confirmada por John Leguizamo.
E, para piorar, o ator Bob Hoskins (Mario) já citou que ele se acidentou diversas vezes no set de filmagens da obra: afogamento em uma cena de esgoto, choques elétricos, machucados derivados de objetos cortantes algumas vezes, além de ter seu dedo quebrado em uma cena com Leguizano (Luigi). Essas situações bisonhas foram bem mais que o bastante para deixar esse filme polemizado até na visão dos atores: Hoskins, que infelizmente faleceu em 2014, afirmou que foi o pior trabalho de sua carreira, enquanto Leguizamo ficou com uma imagem bem torta da franquia até os dias atuais, acredito eu.
Digo isso, pois o ator, em 2023, reclamou do filme da Illumination, afirmando que o elenco possuía uma diversidade insuficiente e que não assistiria a essa adaptação.
Game Over

O filme não está disponível em nenhum streaming atual e isso mostra o quanto a Nintendo se envergonha desse filme, sendo um capítulo atípico da história do encanador. Super Mario Bros. serve de lição sobre como não se fazer uma adaptação de videogames para as telonas, tendo se tornado bem marcante (no mau sentido) devido a isso.
O longa tem alguns fãs, tendo em vista que marcou a infância de algumas pessoas. Se desconsiderarmos os podres da produção e o fato de ser um filme de Mario, é possível se divertir com ele — eu, pelo menos, me entretive e odeio admitir que ri de algumas piadas desse filme.
Para mim, não passa de um filme problemático vibe Sessão da Tarde e que eu recomendaria aos fanáticos da franquia Mario só pela experiência. A propósito, um live-action baseado em The Legend of Zelda vem aí — será que teremos outra pérola?
