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Revisão: Davi Sousa
Fire Emblem: Fortune’s Weave está fazendo uma coisa que poucos jogos da franquia fizeram: apresentar um certo foco em diversidade. Claro, não estamos dizendo que os Fire Emblem anteriores não tinham diversidade de elenco; Claude, Dedue, Petra e Cyril, por exemplo, já eram figuras importantes em Fire Emblem: Three Houses, enquanto em Fire Emblem Engage tivemos todo o reino de Solm e sua família real como uma representação ativa.
Porém, a forma como Fortune’s Weave trata a diversidade é, ironicamente, mais diversa! Temos um elenco que é composto majoritariamente de pessoas de cor, deficiências visuais e marcas na pele que diferenciam uns dos outros, até mesmo a possibilidade de termos diferentes arquétipos de personagens no meio de tudo, ao invés do “protagonista de origem nobre” como é na maioria dos casos.
E é celebrando esta diversidade étnica e cultural que este texto é dedicado, não apenas para apontar onde ela existe, mas também para celebrá-la nas formas que ela aparece neste largo SRPG!
Verdadeiro às suas cores
[De aviso prévio: sim, cada tópico aqui é uma referência a soundtrack do jogo]

Tão fácil é reconhecer o rosto do vento do oriente: milhares de roxos e milhares de vermelhos — tudo isto é a primavera!”
Fire Emblem: Fortune’s Weave é a sequência (ou prequel, ainda não sabemos direito) de Fire Emblem: Three Houses, e, como tal ele segue alguns dos princípios que seu antecessor já seguia, como múltiplas rotas, um timeskip essencial para a história e um elenco de diferentes tipos de personagens. Porém, um dos aspectos que precisa ser discutido sobre essa sequência, é que ela também herda um esquema etimológico curioso: um nome baseado em um poema asiático.
- Fūkasetsugetsu (“Vento – Flor – Neve – Lua”) é o título original de Three Houses, baseado em um poema japonês que data por volta do Século VIII e retrata cada elemento citado em seu título como uma estação própria, sendo um reflexo sobre a passagem do tempo – algo refletido em Three Houses através do nome de suas rotas, o próprio timeskip e os personagens então associados.
- Banshisenkō (“Dez mil roxos, mil vermelhos”) é o nome japonês de Three Houses, baseado em um antigo poema chinês que retrata um vasto e belíssimo campo de flores na primavera – dada a ênfase no jogo em certos pontos da história, podemos apenas presumir qual será o impacto que o título terá no jogo final, mas se for um trocadilho entre os dois idiomas similar ao que seu antecessor fez, estaria relacionado à deusa Fortuna.
O poema ser utilizado para o nome é interessante, já que a narração deste fala de uma imutabilidade da natureza e a beleza em sua diversidade, temas que não são vistos na história de Fortune’s Weave diretamente, mas podemos tirar um pouco do aspecto diverso em seu elenco de personagens, os quais possuem origens e motivações que variam tanto em proposta quanto em fluxo…




- Cai é um adolescente, acreditando estar fazendo o certo em salvar o seu pai, e tem a ajuda de seus amigos para tal;
- Dietrich é um estrangeiro de Fódlan, com uma participação vazia no torneio, apenas buscando um oponente forte;
- Theodora é uma rainha que está lentamente morrendo, mas ainda busca a força necessária para guiar seu povo;
- E por fim, Leda é uma dançarina que deseja, acima de tudo, matar o homem que matou o seu pai.
Cada mudança narrativa é uma decisão interessante, que vai aprimorando-se conforme conhecemos estes personagens. A variedade e diversidade já começam neles mesmos, quando temos nobres, camponeses, dançarinas e rainhas no meio de um vasto elenco de outros personagens que lhe darão suporte; este é o nosso hipotético campo, e essas são as nossas flores vermelhas e violetas!
Usando este princípio, as flores e o campo poderiam ser os personagens e a ambientação de Dagsion; é uma visão válida a se ter, e imagino que intencional dos executivos por trás do jogo. Porém, me aprofundando mais no elenco, a forma como essas interações ocorrem não poderia ser comparada como pétalas voando ao vento?
Uma tempestade de pétalas
Um aspecto que me impressionou no jogo a cada anúncio ou postagem nas redes sociais é a forma como ele introduz personagens de cor, personagens com deficiência ou mesmo personagens que desafiam padrões de gênero convencionais! É meio bobo apontar isso, mas RPGs (em especial os japoneses) parecem ter certo receio de colocar personagens com variedade étnica como protagonistas ou com relevância central no enredo.
No contexto de Dagsion, ainda por cima, temos um evento que podemos comparar às Olimpíadas do nosso mundo, e neste tipo de evento, “diversidade é tudo”. Apesar da maioria estar ali reunida para conseguir o seu desejo pelo Soberano Divino, o que eles desejam de fato e o que leva a esta motivação é o que vai diferenciar cada enredo na narrativa até atingirmos o ponto do timeskip.

E nesta diversidade, Fortune’s Weave não tem medo de entregar de tudo um pouco, com várias das culturas sendo puxadas de diferentes períodos históricos da história humana – para exemplo, Saramis parece inspirada na cultura mesopotâmica, o backstory de Esmeralda é literalmente a história de Andrômeda na mitologia grega, etc. Apesar de Fire Emblem sempre ter puxado diversos aspectos da nossa história, as inspirações primárias vinham de períodos de impérios europeus como Roma, ou de guerreiros germânicos como os povos nórdicos.
Porém, não é só numa diversidade humana real que vemos uma representação decente! As equipes da Nintendo e da Intelligent Systems buscaram representações de formas que Fire Emblem sempre deixou um pouco de lado, e ver a reação das pessoas na internet de maneira positiva é algo que me traz uma certa alegria, considerando o quão complicada a série já foi neste quesito. Temos pessoas negras (Buccar), deficientes visuais (Fabio), crossdressers (Mu) e personagens femininas idosas que realmente PARECEM idosas (Troy).




Através de toda essa representatividade, no entanto, uma personagem aparece isolada, com alguns até criticando a escolha de separar este povo em específico com um tom de pele “menos realista”. Theodora parece ter recebido os piores tratamentos possíveis dentre todos do elenco, com o povo de Saramis sendo representado por pele acinzentada (com o argumento de que isso foi feito para diminuir a quantidade de pele mais amarronzada do jogo) e com ela sendo a única dos protagonistas que está realmente com um relógio contra sua própria vida.
Mas eu acredito que ela mereça tanto mais…
O gambito da Rainha

Por uma votação que eu fiz entre os membros do NintendoBoy, cerca de 33% disseram que prefeririam começar entre as rotas de Cai ou Leda, com 22% seguindo a rota de Dietrich – eu fui um desses votos – e, por fim, com apenas um voto representando 11%, Theodora foi a lanterninha de nossa votação. E por isso, a este tópico dedicado a ela, gostaria de deixar duas coisas claras nisso:
- Por que o povo de Saramis tem a pele acinzentada.
- Meu deus, a Theodora merece muito um tópico próprio.
Sendo rainha de um povoado desértico que é visto como um mau agouro pelo resto do continente por cultuar uma deusa da morte, ela quase foi assassinada pelo próprio irmão, perdeu um braço e o substituiu por uma prótese demoníaca que está lentamente consumindo e corrompendo sua alma. Esta história me lembra muito o começo de Princesa Mononoke, com o braço possuído do protagonista Ashitaka, e, considerando a busca de Theodora por “força”, eu acredito que Fortune’s Weave seguirá uma direção oposta à do filme do Estúdio Ghibli!


Citando a então controversa decisão da equipe artística de fazer o povo de Saramis com a pele cinza. Vemos claramente que não é um “racismo acidental” da parte dos desenvolvedores, porque existem sim personagens negros como Leda, Buccar, Mu e outros, levantando a questão: por que logo o povo de Saramis? Acredito que seja para representar uma forma de separá-los visualmente de outros membros das outras parties, mas também pode acabar sendo uma tentativa, ainda que fracassada, da direção artística de achar uma “pele tom de oliva” que povos egípcios e até mesmo persas possuíam.

No fim, eu ainda não pretendo começar a jogar com a rota da Theodora, mas ela certamente será uma que farei pouco tempo depois de começar uma primeira rota e jogá-la em simultâneo com esta!
Uma sombra de outro lugar
Existe um tópico que eu vim tentando evitar por ser um tanto sensível e também porque não acho justo que as comparações com jogos anteriores cubram a maior parte de um texto que deveria ser uma celebração de diversidade. Mas uma dúvida não parou de crescer dentro da minha cabeça, uma que questionava se o racismo que vemos de maneira estrutural em Fódlan e outras regiões deste mundo seria tópico em Fortune’s Weave.
Ao mesmo tempo que eu gostaria que explorassem certas dinâmicas que em Three Houses/Hopes ficaram jogadas a escanteio (o motivo dos Agarthans odiarem os Nabatheans, por exemplo), eu preferiria se o jogo não entrasse neste caminho, porque acredito que poderia ser um demérito a longo prazo! Embora os jogos de Fódlan explorem bastante temas como este, eu acredito que eles não apenas não dão o peso devido à atrocidade que é o racismo, mas também reduzem a participação na história dos personagens que representam essas minorias a meros vassalos – como Brigid e Dedue.

Não quero entrar em muitos detalhes políticos porque eu vejo os acertos e erros dos jogos Fódlan em mostrar que nem tudo é preto e branco, especialmente quando falamos dos motivos pelos quais figuras importantes cometem ou acreditam em certas atrocidades, mas se eu voltar a ver um jogo onde a escravidão de um personagem é jogada a escanteio porque a personagem da família escravocrata “não se importava”, eu irei pessoalmente atacar a sede da Intelligent Systems com estrume de cavalo.
Sim, Hilda… eu estou falando de você!

Veja também:

A esperança persiste
Encerrando este texto, preciso apontar que não acho que Fire Emblem necessitava dessa representatividade em seus personagens, mas fico feliz que a Nintendo e a Intelligent Systems quiseram sair um pouco do padrão e trazer mais aspectos diversos a Fire Emblem. Já tínhamos tido personagens LGBT e até personagens principais com muita melanina, mas no nível que este jogo promete, é novidade.
Também acho interessante como a Nintendo of America especificamente está apoiando uma iniciativa interessante de achar dubladores que combinem com a etnia dos personagens. Isso dá uma chance genuína para pessoas de grupos minoritários ativamente participarem de um projeto grande como esse. Minha amiga Juliana, inclusive, reuniu alguns personagens e seus dubladores para apontar as origens étnicas e sua diversidade:
- Zeno Robinson (Cai) – afrodescendente
- Shara Kirby (Theodora) – afrodescendente
- Katiana Sarkissian (Leda) – origem libanesa e jordânia
- Jimmie Yamaguchi (Fabio) – nipo-americano
- Kendell Byrd (Esmeralda) – afrodescendente
- Dave Fennoy (Bonaventure) – afrodescendente, 70+
- Howard Wang (Lysander) – sino-americano
- Stephie Wong (Lilian) – sino-americana
- Chris Okawa (Buccar) – afrodescendente
- Asante Mango (Mu) – não-binárie
- Willow Engel (Creek) – mulher trans
- Jennifer Sun Bell (Hong Hua) – ascendência coreana
- Monique Burias Shi (Troy) – filipino-sino-americana
- Joshua David King (Mars) – queer e afrodescendente
Por fim, queria agradecer a todos que leram até aqui este breve artigo. Eu acho válido apontar esses pequenos acertos em diversidade quando eles ocorrem, mas ainda está cedo para comemorarmos, já que o jogo não saiu ainda! Minha inspiração central para este texto veio de um vídeo do canal Camelin, que cobriu a diversidade extensa do jogo em um vídeo de aproximadamente 10 minutos que vocês podem ver aqui.
Caso queiram explorar mais de Fortune’s Weave, temos também textos dedicados no NintendoBoy, que vocês podem ler abaixo! E afinal, com qual dos protagonistas vocês pretendem começar em sua jornada por Dagsion? O jovem Cai, o belo Dietrich, a poderosa Theodora ou a vingativa Leda?



