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Desenvolvedora: Wrong Organ
Publicadora: CRITICAL REFLEX
Gênero: Terror psicológico | Primeira Pessoa
Data de lançamento: 29 de outubro de 2026
Preço: R$ 41,99
Formato: Digital
Plataformas: Nintendo Switch, PlayStation 5, PlayStation 4, Xbox Series X|S, Xbox One, PC
Análise feita no Nintendo Switch com cópia fornecida gentilmente pela CRITICAL REFLEX.
Revisão: Manuela Feitosa
A vantagem do terror em contar histórias é a exposição do que pode ser mais feio nas pessoas. Por mais bela que seja a esperança e a fé de que o momento mais baixo das pessoas não definem o que elas são, na realidade isso é apenas o que nos contamos como uma forma de se manter sãos, de pé frente às mais horríveis circunstâncias.
O mundo não é tão simples, e há coisas nesse mundo do qual não existe responsabilidade ou compensação plausível. Existem erros irreparáveis, consequências que podem estragar a vida de outra por meio de narcisismo ou um simples desviar de olhos.
Mesmo que seja o caso, por pior que seja a pessoa, o superego tem o limite do quanto ele pode aguentar sem compreender a discrepância da realidade. O medo não existe apenas para as criaturas mais ameaçadoras do mundo, e monstros nem sempre tomam a forma do inumano.
Só existe uma pessoa que não consegue escapar desse monstro. Você mesmo, que vai sentir o gosto da bile subindo em sua boca todos os dias.
Favor não beber o suco verde na pia do banheiro

Mouthwashing fez um sucesso no ano em que lançou, e era muito difícil saber do que se tratava além de que era uma história de terror. Por sorte, a comunidade reconhecia o tamanho do jogo como desnecessário a conversação por spoilers. Caso tenha curiosidade sobre o jogo, é só comprar e jogar, e por ser de uma comunidade cult, suas piadas e artes geralmente não refletem os acontecimentos de forma explícita.
Por natureza da seriedade dos acontecimentos representados na narrativa do jogo, existe uma resposta de humor, portanto várias e várias piadas internas que só fazem sentido ao grupo para o qual são contadas. Minha curiosidade vinha da vertente dos personagens, que reconhecia um carinho muito grande por parte dos jogadores e nutria uma curiosidade grande para saber do que diabos se tratava da criatura enfaixada com um olho exposto, mal sabendo eu que era apenas um homem que cometeu um erro grave.

A experiência com Mouthwashing foi às cegas, e digo que é a melhor forma de experimentar o jogo, apesar de um pouco do texto dialogar também com os jogadores que já tem uma base do que se trata, apenas gerando curiosidade do leitor por meio de contos incompletos e uma semi-narrativa.
Uma forma bem circular de dizer em muitas palavras que Mouthwashing é um jogo que vale a pena, mas ele é um Adventure Game, uma narrativa interativa da qual é pequena demais para ser contada em muitos detalhes, com um ritmo ideal o suficiente para chocar o jogador tão rápido quanto o necessário para terminar a história e deixá-lo com o amargor que só uma história do gênero terror pode deixar, por natureza de ser como é.
Portanto, a partir daqui dou um aviso, veja Mouthwashing às cegas. Caso tenha interesse, sequer mínimo, pule ao último parágrafo para ver as considerações sobre a versão de Switch e a nota final. Spoilers mínimos à frente.

Tem bafômetro no espaço?
A história começa como todas as boas histórias começam, com um amigo irresponsável batendo o carro e tornando isso problema de todo mundo. Não, eu não estou projetando, calados. Durante toda a narrativa o jogo ficará pulando entre períodos diferentes de tempo, com o propósito de desenvolver mistério mas com que o jogador nunca se esqueça que é uma história miserável.
Sem o gostinho refrescante e relaxante da menta de enxágue bocal, apenas o desejo amargo de alguém que claramente NÃO gosta de você. A narrativa é hostil ao jogador de propósito, ele quer que ele sinta a dor e que se sinta mal. Para fazer isso com maestria, não estamos no papel de ninguém heroico, nem no papel do homem regular.
Jimmy mantém uma farsa de responsabilidade por tanto tempo quanto o instante de uma irregularidade sequer. Um covarde narcisista que torna seus problemas os problemas de todos, sem tomar qualquer responsabilidade.

Se esse é o nosso protagonista, então o que é necessário enfrentar nessa narrativa para justificá-lo como herói? Nada. Apenas a impotência do jogador frente a uma narrativa que não pode ser alternada, que lentamente transfere a responsabilidade de um agente passivo para um ativo. Os atos não implícitos da história são feitas pelo próprio jogador.
Acha que se estivesse em uma nave e a vida de 5 pessoas estivessem em suas mãos, o peso da consciência da vida de cada um faria você pensar melhor em suas ações? Simpatia básica te machuca como pessoa? Fazer o mal te consome dia após dia ao ter que fazer um serviço que vai contra a ética pré estabelecida? Devo parabenizá-lo por ser uma pessoa de caráter. Mouthwashing vai doer, ele promete e cumpre.
Sua prisão não é uma nave no espaço com outros quatro passageiros, limitados a suprimentos limitados e uma vida que nem sequer pode ser chamada de medíocre. Miséria real é estar no corpo em que habita durante grande parte da narrativa. Miséria é ver que quando foge desse corpo, a única coisa que querem acreditar é na capacidade do bem alheio, com a noção de que em algum ponto o pior já foi feito.
Não existe fuga das consequências, e o inferno são os outros, e não é possível ignorar os demônios por tempo demais sem que alguma coisa aconteça. O efeito do analgésico não dura muito, às vezes a dor sequer passa, mas não é como se tivesse fuga, você é responsável pela maior parte das suas cicatrizes.

Dou-lhe trinta.
Você se responsabilizaria pelas cicatrizes dos outros? Assumindo erros ou reconhecendo a hora de tomar ação? Reconhecendo que tudo feito durante sua jurisdição é sua responsabilidade e é seu papel fazer o julgamento dessas ações de forma que seja possível deixar qualquer emoção de lado? Existe um peso da responsabilidade não apenas na hora de tomar ação, pois a inação também faz parte.
Essa é a parte ludo narrativa que funciona tão bem. O jogador tem o papel de observador, alguém que não pode fazer nada para mudar essa história, e quando está no controle de alguém que pode, sempre com a noção de que foi uma chance perdida, algo que passou, a chance de alterar essa história já se foi e as consequências já foram sofridas.

Não tem fim de jogo, ameaça permanente ao jogador. Medo vem da penitência própria, mas ela não pode te machucar de verdade. Talvez te colocar em uma espiral, te prendendo momentaneamente, mas ao voltar a realidade tudo estará como você deixou. As pessoas continuam lidando com as ações de Jimmy, onde quer que a mente dele vá, seja lá quantas missões ele faça pra ter só mais um dia de refeição.
Nada pode ser feito, pode lembrar que é um jogo de vez em quando, com situações de falhas ou quebra cabeças. Mas a realidade desses personagens não é essa. Tome responsabilidade, é você quem controla o monstro dessa história.

A pior versão de uma excelente história.
Prosseguindo ao dito parágrafo final, não consigo dizer que a versão de Nintendo Switch é um bom porte. O jogo depende muito de cursores, do qual foram adaptados diretamente, um mouse controle pelo analógico.
Lerdo e impreciso, especialmente se seu Switch apresenta já alguns anos de vida. Além disso, o jogo tem um grande problema com quedas de frames. Não é o suficiente para atrapalhar o jogo, afinal não é necessário muito movimento ou interação, e nem os próprios estados de falha são exigentes dessa forma, mas eles distraem, especialmente por se tratarem de modelos de poucos polígonos, que é o atrativo principal da estética visual do jogo.

Não indicando que ele deveria rodar melhor porque ele é feio, afinal, ele está longe de ser isso. A escolha de cores e luz usando o bege, vermelho e o laranja, cores muito quentes que remetem conforto nas cenas mais tensas enquanto usa de cores frias para cenas calmas. A arte dita a emoção de forma sutil e é um belo jogo, mas ainda é de poucos polígonos e merecia uma otimização melhor de controles e jogo, especialmente pela câmera – frames baixos assim podem causar enjoo em alguns jogadores.

Com essa exceção, não tenho críticas negativas referentes ao jogo. Toda parte frustrante ou questionável passa tão rápido que se torna irrelevante quando se olha em retrospectiva, especialmente com uma história tão forte para o terror indie. Entretanto, por ser uma crítica forte, Mouthwashing do Switch perde o que seria uma nota perfeita.
Prós:
- Uma das histórias de terror mais bem executadas do cenário indie;
- Um grupo de personagens vivo, por bem e por mal;
- Medo sem susto. O jogo te perturba com tensão ao invés de uma alta de emoção de um susto.
Contras:
- Um port mal executado de um jogo simples.
Nota
9
