Revisão: Davi Sousa
Na cronologia oficial de The Legend of Zelda, existe uma realidade em que o Herói do Tempo perde sua batalha contra Ganondorf. Essa derrota mudou o destino de Hyrule e deu origem a alguns dos jogos mais importantes da franquia.
Todo mundo que terminou The Legend of Zelda: Ocarina of Time conhece o destino de Ganondorf. Depois de uma longa jornada, Link enfrenta o vilão na Torre de Ganon, vence a batalha e, com a ajuda de Zelda e dos Sete Sábios, consegue selar o Rei do Mal.
Mas o que aconteceria se Link perdesse aquela batalha?
A resposta está em uma das partes mais curiosas da cronologia oficial de The Legend of Zelda. No livro Hyrule Historia, publicado originalmente no Japão em 2011, a Nintendo apresentou uma divisão da história da franquia em três linhas do tempo, todas ligadas aos acontecimentos de Ocarina of Time.
Duas delas mostram o que acontece depois da vitória do Herói do Tempo; a terceira, conhecida como Linha do Herói Derrotado, considera um desfecho bem diferente: Ganondorf vence, Link cai em batalha e Hyrule precisa lidar com as consequências.
É nessa ramificação que encontramos jogos como A Link to the Past, Link’s Awakening, A Link Between Worlds e os dois primeiros The Legend of Zelda de NES. Por coincidência (ou não), essa parte da cronologia reúne alguns dos jogos mais difíceis da história de Hyrule.

A derrota do Herói do Tempo
Em Ocarina of Time, Ganondorf invade o Reino Sagrado e consegue obter a Triforce do Poder. Os outros dois fragmentos, da Coragem e da Sabedoria, ficam com Link e Zelda, respectivamente.
Na história que conhecemos, o vilão acaba derrotado antes de conseguir reunir as três partes; na Linha do Herói Derrotado, porém, ele vence Link e toma os fragmentos restantes, passando a controlar a Triforce completa.
Com tamanho poder, Ganondorf se transforma em Ganon, o Rei Demônio.
Diante da derrota do herói, a princesa Zelda e os Sete Sábios conseguem aprisionar Ganon no Reino Sagrado, que havia sido corrompido pelo mal e transformado no Mundo das Trevas.
O problema é que Ganon continua vivo e a Triforce permanece em suas mãos. O selo pode impedir sua liberdade, mas não elimina a ameaça, e, como veremos nos jogos seguintes, manter o Rei Demônio aprisionado seria uma tarefa bastante complicada.

A Guerra do Aprisionamento
Muito antes dos acontecimentos de The Legend of Zelda: A Link to the Past, Hyrule enfrentou um conflito que ficaria conhecido como Guerra do Aprisionamento.
Com Ganon preso no Mundo das Trevas, rumores sobre o poder da Triforce começaram a atrair pessoas para o antigo Reino Sagrado. Muitos tentaram entrar naquele mundo em busca da relíquia, mas não conseguiram retornar.
Enquanto isso, forças malignas passaram a ameaçar Hyrule, obrigando os Sábios a reforçar o selo que separava os dois mundos. Para realizar o ritual, eles contaram com a proteção dos Cavaleiros de Hyrule, que enfrentaram o exército de monstros enquanto os Sábios trabalhavam.
A batalha foi devastadora. Muitos cavaleiros morreram, mas o selo foi concluído e as forças de Ganon ficaram confinadas no Mundo das Trevas. Durante algum tempo, Hyrule conseguiu viver em paz, até que, gerações depois, um misterioso feiticeiro chamado Agahnim apareceu no reino.
Em A Link to the Past, lançado para Super Nintendo em 1991, descobrimos que Agahnim pretende romper o selo dos Sábios e abrir caminho para o retorno de Ganon. Para isso, ele captura as descendentes dos antigos Sábios e as envia ao Mundo das Trevas.
É nesse cenário que conhecemos um novo Link, descendente dos Cavaleiros de Hyrule, que precisa impedir os planos do feiticeiro e enfrentar Ganon. Essa ligação com Ocarina of Time é especialmente interessante porque A Link to the Past chegou às lojas sete anos antes do clássico de Nintendo 64.
A Guerra do Aprisionamento já fazia parte da história apresentada no manual do jogo de Super Nintendo. Com a publicação da cronologia oficial, a Nintendo passou a relacionar aquele conflito aos acontecimentos da Linha do Herói Derrotado.

Ganon continuou voltando
Apesar de Link derrotar Ganon em A Link to the Past e recuperar a Triforce, a paz de Hyrule não duraria para sempre. Nos jogos seguintes dessa linha do tempo, o reino passa por novos conflitos e a ameaça do Rei Demônio volta a aparecer.
Em Oracle of Seasons e Oracle of Ages, por exemplo, as vilãs Twinrova tentam ressuscitar Ganon por meio de um ritual. O plano acaba comprometido e o Rei Demônio retorna sem sua consciência original, assumindo uma forma bestial.
Já em A Link Between Worlds, Ganon volta a desempenhar um papel importante nos planos do vilão Yuga, que pretende utilizar seu poder para conquistar Hyrule e Lorule.
Embora esses jogos apresentem histórias e protagonistas diferentes, todos fazem parte de uma longa sequência de disputas envolvendo a Triforce. A situação fica ainda pior nos períodos posteriores da cronologia.
Depois dos acontecimentos de Tri Force Heroes, a história de Hyrule passa por uma fase marcada por conflitos internos na família real e disputas pelo poder da Triforce. Com o passar das gerações, o reino perde boa parte de sua antiga grandeza e entra na chamada Era do Declínio. É nesse período que acontecem os dois primeiros jogos da franquia.

A Hyrule do primeiro Zelda já estava em ruínas
Quem começou a jogar Zelda por Ocarina of Time, Twilight Princess ou Breath of the Wild talvez estranhe o mundo apresentado no primeiro The Legend of Zelda, lançado para NES em 1986.
Não existem grandes cidades para visitar, lojas espalhadas por vilarejos ou um Castelo de Hyrule funcionando como centro do reino. O mapa é praticamente uma região selvagem, cheia de florestas, montanhas, cemitérios e labirintos infestados de monstros.
Os poucos habitantes encontrados durante a aventura geralmente estão escondidos em cavernas, oferecendo itens, informações ou algum tipo de ajuda.

Naturalmente, essa estrutura tem muito a ver com as limitações técnicas do console e com as decisões de design de Shigeru Miyamoto e sua equipe. O primeiro Zelda foi pensado como uma aventura de exploração, em que o jogador deveria descobrir os segredos do mapa por conta própria, mas existe uma conexão interessante com a cronologia estabelecida posteriormente.
Naquele ponto da história, Hyrule já havia atravessado diversas guerras e perdido grande parte de sua antiga prosperidade. O reino apresentado no NES está muito distante daquele que conhecemos em Ocarina of Time.
Até mesmo a situação da Triforce reflete esse período conturbado. No primeiro Zelda, Ganon invade Hyrule e rouba a Triforce do Poder. Para impedir que ele também obtenha a Triforce da Sabedoria, a princesa Zelda divide a relíquia em oito fragmentos e os espalha pelo reino. Link precisa encontrar essas partes, derrotar Ganon e resgatar a princesa.
Em Zelda II: The Adventure of Link, lançado em 1987, os seguidores do Rei Demônio tentam ressuscitá-lo utilizando o sangue do próprio herói. Enquanto isso, Link precisa procurar a Triforce da Coragem para despertar uma antiga princesa Zelda, vítima de um feitiço que a mantém adormecida há gerações.
São aventuras relativamente simples quando comparadas aos jogos modernos, mas que ocupam uma posição bastante interessante na história da franquia.
A Hyrule dos primeiros jogos não representa o início de uma civilização. Dentro da cronologia oficial, ela é o resultado de séculos de conflitos, disputas pela Triforce e sucessivas tentativas de impedir o retorno de Ganon.

Uma linha do tempo marcada pelas consequências
A Linha do Herói Derrotado tem uma particularidade que a diferencia das outras ramificações de Ocarina of Time. Na Linha do Link Criança, acompanhamos os acontecimentos que levam a Majora’s Mask e Twilight Princess. Na Linha do Adulto, encontramos o futuro de Hyrule apresentado em The Wind Waker, Phantom Hourglass e Spirit Tracks.
Já a Linha do Herói Derrotado reúne boa parte dos jogos mais antigos e clássicos da franquia, que já começa com um acontecimento que nunca vemos no desfecho normal de Ocarina of Time: a vitória de Ganondorf sobre Link.
A Linha do Herói Derrotado também ajuda a entender por que Hyrule é tão diferente de um jogo para outro. O reino que conhecemos em A Link to the Past já não é o mesmo que encontramos séculos depois no primeiro The Legend of Zelda, quando boa parte de sua antiga grandeza desapareceu.
Provavelmente esse seja o detalhe mais que mais chama atenção nessa linha do tempo, pois a derrota de Link em Ocarina of Time não significou o fim de Hyrule, mas marcou o início de uma história de guerras, reconstruções e novos heróis que precisaram enfrentar as consequências daquele confronto.
O Herói do Tempo perdeu uma batalha e Hyrule passou gerações tentando superar as consequências daquela derrota.
