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Desenvolvedora: Beethoven and Dinosaur
Publicadora: Annapurna Interactive
Gênero: Aventura
Data de lançamento: 7 de maio, 2026
Preço: R$ 73,00
Formato: Digital
Plataformas: Nintendo Switch 2, PlayStation 5, Xbox Series X|S, PC
Análise feita no PC com cópia adquirida pelo redator.
Revisão: Lucas Barreto
Mixtape me fisgou logo nos primeiros minutos porque parecia quase uma versão alternativa de Life Is Strange. A estrutura narrativa, a atmosfera melancólica, o foco em amizade adolescente e até o quarto da protagonista lembra absurdamente o quarto de Chloe Price, parecendo até ser proposital.
Mas conforme o jogo foi avançando, percebi que Mixtape não queria simplesmente copiar Life is Strange. Ele queria capturar aquela mesma sensação específica de juventude caótica, emocional e passageira. E nisso ele funciona muito bem.
Uma jornada cheia de música, skate, festinhas e confusões de adolescente
Aqui acompanhamos três amigos adolescentes durante sua última noite antes de seguirem caminhos completamente diferentes na vida. Entre festas, confusões, memórias absurdas e conversas sobre o futuro, o jogo transforma momentos aparentemente banais em uma despedida melancólica sobre o medo silencioso de deixar uma fase da vida para trás.

A maior força do jogo, no entanto, está na atmosfera. A direção de arte de Mixtape mistura cores realistas com uma animação em estilo stop motion que deixa tudo meio estranho, meio nostálgico, quase como uma lembrança imperfeita da adolescência.
Tem momentos em que o jogo parece mais interessado em fazer você sentir algo do que realmente “jogar”. E acho engraçado como parte da comunidade simplesmente se irritou com isso, com um jogo buscando fazer algo mais artístico. Ou pior ainda, tentarem definir o que deveria ser um jogo ou limitar o que poderia ser a arte dentro de alguma fórmula pronta. Essa ideia por si só já é uma ofensa à arte.
Uma das críticas mais burras que vi na Internet foi gente tentando reduzir Mixtape a mero “filme interativo”, como se o jogo não tivesse gameplay algum. E isso nem faz sentido: logo nos primeiros minutos você já precisa controlar a personagem pra história continuar. Se largar o controle ali, não há progressão, e o jogo inteiro funciona assim.

Se existe uma crítica, talvez seja justamente o fato de que Mixtape depende demais da conexão emocional do jogador com sua proposta. Quem procura gameplay profundo ou sistemas elaborados provavelmente vai sair frustrado. Muitas partes funcionam quase como experiências minimalistas. Mas sinceramente, acho que reduzir o jogo a isso seria perder completamente o ponto da obra. E pra mim, a proposta funcionou completamente.
Narrativa entrelaçada com um DNA musical muito forte
A trilha sonora é absurda. O jogo começa mandando The Jesus and Mary Chain e depois passa por Smashing Pumpkins, Siouxsie and the Banshees, The Cure e várias outras músicas lendárias dos anos 80 e 90. E não parece uma playlist montada pra parecer “cool”, já que cada música encaixa exatamente no contexto em que toca — principalmente se você já tiver alguma conexão emocional com essas bandas.
Alerta de spoiler (pule para o parágrafo após a screenshot)
Por exemplo, o final do jogo me destruiu completamente, naquela parte em que o jogo manda você segurar os dois gatilhos do controle, simulando as mãos dos dois personagens na cena, enquanto aparece “não solte” na tela. Aquilo dura tempo suficiente pra você entender exatamente o que a cena quer transmitir: você entende que aquela despedida vai mudar a vida deles pra sempre. Quando as mãos finalmente se soltam e começa a tocar Plainsong do The Cure, eu não consegui segurar a emoção.

Acho que despedidas de amizade sempre me pegam porque lembram muito quando saí de Belém aos 18 anos pra morar em Florianópolis. Meus amigos foram até o aeroporto se despedir de mim e existia aquela esperança de que algum dia eu voltaria para visitá-los, embora eu já soubesse que não voltaria.
E Mixtape entende exatamente esse sentimento. Aquele momento estranho da vida em que você percebe que certas pessoas ainda são importantes pra você, mas nunca mais farão parte da sua rotina da mesma forma.
Embora tenha bons momentos, infelizmente o ritmo da história não mantém esse nível o tempo inteiro
O começo de Mixtape é muito bom e o final é excelente, mas existem algumas parte do meio da campanha que ficam arrastada demais. Principalmente o arco envolvendo o conflito familiar de uma das personagens com o pai. O jogo tenta transformar isso em algo emocionalmente importante, mas acaba parecendo um drama genérico colocado ali só pra gerar conflito no final.

A parte da “herança” deixada pela irmã mais velha da protagonista também é provavelmente o momento mais fraco do jogo. Você passa tempo demais fazendo tarefas sem graça numa cabana procurando pistas sobre onde está escondida uma caixa de bebidas alcoólicas. Como a campanha é curta, esse ritmo mais lento pesa bastante.
Ao mesmo tempo, algumas cenas aleatórias e meio vazias acabaram funcionando pra mim justamente porque reforçam a personalidade do jogo. Adolescência também é isso. Fazer idiotice com os amigos, passar vergonha, criar memórias sem sentido nenhum e anos depois perceber que eram justamente essas coisas pequenas que ficaram marcadas.
No fim, Mixtape parece um presente feito especificamente pra millennials que ainda lembram como era viver antes da vida virar completamente digital. Um jogo sobre amizade, música, despedidas e aquela sensação dolorosa de perceber que certas fases acabam sem pedir permissão.
Prós:
- Trilha sonora impecável com músicas marcantes dos anos 80 e 90;
- Direção de arte estilosa e cheia de personalidade;
- Uso da música e da interatividade cria momentos muito memoráveis.
Contras:
- Ritmo inconsistente no meio da campanha;
- Algumas subtramas genéricas e mal desenvolvidas;
- Certos trechos possuem tarefas pouco interessantes e arrastadas;
- Gameplay simples pode afastar quem busca mecânicas mais profundas.
Nota
8
