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Desenvolvedora: Sunset Visitor
Publicadora: Fellow Traveller
Gênero: Sci-fi Adventure
Data de lançamento: 20 de agosto de 2026
Preço: R$ 59,99
Formato: Digital
Plataformas: Nintendo Switch 2
Análise feita no Nintendo Switch 2 com cópia fornecida gentilmente pela Fellow Traveler.
Revisão: Davi Sousa
É um fenômeno estranho desgostar de uma obra tão reverenciada, mas se há algo positivo nos ports tardios nos híbridos da Nintendo, especialmente com a leva incessante no Switch 2, é a possibilidade de formar opiniões próprias sem ser muito levado pelas impressões iniciais.
Digo isso porque 1000xRESIST é um título premiadíssimo, tanto que chega a ser difícil encontrar opiniões adversas. Por isso, na presente review, trarei uma abordagem diferente. No primeiro bloco, apresentarei a estrutura de forma ampla, sem abordar detalhes sensíveis da trama, oferecendo uma perspectiva menos aprofundada a um possível interessado. Já no segundo bloco, me ocuparei em uma possibilidade de leitura, em uma postura mais crítica, apontando detalhes explícitos desta narrativa.
Leia também a review original da versão para Switch:
Futuro sem passado
1000xRESIST é ambientado em um futuro pós-apocalíptico com muitas lacunas entre o passado e o presente. Nos primeiros capítulos, conhecemos uma estrutura social hierarquicamente rígida, com uma líder simbólica e religiosa distante, ditando o destino de clones divididos em cinco funções: observar, curar, consertar, proteger e armazenar conhecimento.

À nossa protagonista, é apresentado um dilema moral: há a possibilidade de traição por parte de suas irmãs. A partir de um processo de comunhão de memória, podemos conhecer a origem da pessoa que originou os clones, além de compreender os pensamentos daquelas que podem cogitar se voltar contra o sistema.
Basta dizer que esta é apenas a ponta do iceberg. Muito é desenvolvido principalmente nos capítulos finais, com suas reviravoltas, cascatas emocionais e desfechos simbólicos. A nível de jogo, não há muito a destacar. Quero dizer: há um sistema interessantíssimo de controle de tempo, onde podemos nos deslocar por meio das memórias para descobrir novos diálogos, mas infelizmente o sistema é subutilizado.
Afinal, a pretensão de 1000xRESIST não é ser um jogo adventure, com puzzles ou desafios para desbloquear a próxima interação. O deslocamento em 3D é apenas uma desculpa para ir da cena A para B, com muitas ideias colocadas, mas poucas desenvolvidas.

Tratando-se, então, de uma obra com ênfase máxima na narrativa, é uma que vive e morre por sua escrita e trama. Na opinião deste redator, o texto é um tanto juvenil e alquebrado, buscando tornar elementos simples em complexos pela inversão lógica dos fatores.
Uma estrutura narrativa complexa não é sinônimo de inteligência: por vezes, é mera cacofonia. Dito isso, caso o leitor se interesse por formas pouco convencionais de se contar uma história, em um ambiente de ficção científica, este é um título que pode sim entregar uma experiência inovadora.
É assim que se vence a guerra do tempo
A partir deste bloco, precisarei abordar elementos da trama para construir uma hipótese de leitura. Portanto, contem com spoilers nos próximos parágrafos.

Não se espantem com o título enigmático do bloco. “É assim que se vence a guerra do tempo” é um livro de ficção científica que invariavelmente me veio à mente ao longo da trajetória com 1000xRESIST. Nele, duas facções lutam uma guerra interminável, com agentes sabotando eventos históricos para defender uma possibilidade de futuro. Duas oponentes, contudo, acabam por se apaixonar, deixando cartas nas estruturas de cavernas, na disponibilização das estrelas ou na curva de mágoas distantes.
Dois elementos me levam à comparação: o uso da memória e a fragmentação do tempo. Se há autoralidade em 1000XResist, é possível encontrá-la na trajetória das duas personagens, que devem encontrar uma identidade a partir da história. A memória é aquilo que constitui a identidade, e uma memória alquebrada constrói uma identidade falha e omissa.
O problema é que é necessário maturidade narrativa para trabalhar com histórias ilógicas. A obra em questão enfraquece-se pela necessidade de sempre propor uma inversão, mesmo quando não há uma necessidade clara para a história. Acredito que os melhores exemplos se dão no início do jogo, quando ainda não conhecemos a mitologia e temos diversas informações atiradas na tela. O reforço visual não é suficiente para estruturar uma relação de significado e significante, deixando a mensagem apenas confusa.

Um problema comum de escritores iniciantes de ficção científica e fantasia é misturar criação de mundo com a necessidade de inventar termos que referenciam outros já conhecidos pelo receptor. A confusão mental só tarda a recepção da ideia central da mensagem que, diluída, perde impacto.
E por isso volto ao livro anteriormente referenciado. Nele, há uma complexidade grande para entender de que forma o tempo e as ações são compreendidas. Por isso, a linguagem precisa ser simples e direta. Quanto mais rebuscada for a imagem, mais direta deve ser a descrição; do contrário, temos a incompreensão.
Outro ponto importante que particularmente me gerou desgaste é a repetição de certas ideias. O título parece se esticar em certos momentos de forma antagônica com sua ideia de fragmentação. Em um dos capítulos, por exemplo, é explorada à exaustão a relação familiar de Iris, em uma sequência de memórias repetitivas.
Quando o cenário é revisitado, mesmo com dilatações de tempo, encontra-se certo tom repetitivo. Tal sentimento se repete no cenário circular onde os clones se encontram, nas memórias da escola… até o ponto em que o final se torna excessivamente maçante, com revelações já óbvias, diálogos tirados da comunhão de Evangelion e uma explicação expositiva da ameaça alienígena que não condiz com a escolha de Iris enquanto A escolhida.

Isso não quer dizer que o título não tenha boas ideias. As mudanças de perspectivas, os ecos narrativos e os bons capítulos 7 e 8 (evidentes pontos altos) criam momentos memoráveis, mas não muito mais que isso.
Consigo ver aqui a semente de uma excelente história, composta pelos retalhos de memórias, construindo relações cíclicas e recicladas e possível de ser contada na mídia digital por conta de mecânicas inventivas. Mas, como devemos julgar o resultado final, não consigo ver além da escrita convoluta, de referências difudas, buscando enlocubrar o simples e confundindo confuso com complexo.
Um caminho a trilhar

Confesso ter curiosidade de ver projetos futuros dos desenvolvedores de 1000xRESIST, por reconhecer seu enorme potencial. Contudo, colocá-lo em um pedestal se torna impossível para este redator, um tanto frustrado pela construção textual da obra.
Em busca de uma conexão pelo passado para construir um futuro, surge uma narrativa convoluta, uma mitologia frágil e personagens frágeis. Com uma jogabilidade que companha a narrativa em poucos momentos, é difícil destacar a trama por seu valor ludonarrativo, apesar de este ser o maior valor do título.
Prós:
- Nos bons momentos, encontra-se mecânicas inventivas que bem complementam a narrativa;
- O mistério compele o jogador nos primeiros capítulos.
Contras:
- A repetição de temas e cenários torna a narrativa maçante;
- A trama é convoluta até o final, fazendo o texto ir de confuso a repetitivo;
- Os sistemas promissores de jogo são pouco desenvolvidos, tornando os raros momentos de interação repetitivos.
Nota
6,5

