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Desenvolvedora: Blue Backpack
Publicadora: Blue Backpack, ByteRockers’ Games, PARCO GAMES
Gênero: Ação | Metroidvania
Data de lançamento: 1 de maio, 2026
Preço: R$ 59,99
Formato: Digital
Plataformas: Nintendo Switch, PlayStation 5, Xbox Series X|S, PC
Análise feita no Nintendo Switch com cópia fornecida gentilmente pela Blue Backpack.
Revisão: Davi Dumont Farace
Pode existir momentos em que tudo parece desmoronar. A gente se sente sufocado, sozinho e sem controle da nossa própria vida.
O mundo contemporâneo e as demandas do capitalismo nos desumaniza. Somos mera ferramenta. Nossa força de trabalho é uma mercadoria. Em meio ao caos vamos nos apequenando, esvaecendo. O mundo perde a cor e tudo passa a não fazer sentido. Depressão, burnout, solidão, ansiedade. As cobranças diárias das quais somos expostos, afetam não só o nosso corpo, mas a nossa mente.
Felizmente, nunca antes se refletiu e debateu tanto sobre saúde mental. O nosso bem-estar psicológico ou emocional também é determinado por outros aspectos como saúde física, financeira e apoio social. Não raro esses debates chegam aos videogames. Títulos como Celeste, Hellblade: Senua’s Sacrifice e GRIS são bons exemplos disso. Lançado originalmente para PC, Constance é um Metroidvania que está chegando agora para os consoles e agrega ainda mais valor à essa temática.
Processo de cura

A jovem protagonista — que dá nome ao jogo — é uma artista que teve sua luz e inspirações apagadas, engolida pelas cobranças do dia a dia. O título, dessa forma, através de metáforas (o mundo mágico que exploramos), nos convida a acompanhar o processo de cura da heroína, utilizando o debate sobre saúde mental como fio condutor de sua história. Todo o conceito do jogo gira em torno de questões biopsicossociais. A narrativa é pesada e está muito bem amarrada ao gameplay.
Cada chefe abatido representa uma pequena vitória de Constance na luta para recuperar sua saúde mental. Ao final das batalhas, cutscene interativas nos revelam à origem do problema. É como se a protagonista estivesse num constante conflito interno. Perdida em si mesma, Constance precisa se livrar das teias que a aprisionam numa espiral de dor e sofrimento, para então retomar o controle de sua própria vida. No jogo, a volta pra casa – o nosso principal objetivo – representa, justamente, isso.
Recupere Lágrimas

A crise pessoal que está enfrentando afeta negativamente a criatividade de Constance. Todo o level design do jogo é focado nessa premissa. A arma que utilizamos, por exemplo, é um pincel. Os inimigos são máquinas, que enxergo como uma representação da desumanização da qual sofremos.
A missão principal (Jornada) consiste em recuperar Lágrimas, que simbolizam alguma dor ou trauma de Constance, para que ela possa – simbolicamente — reaver o controle de sua vida. Existem ainda missões secundárias centradas em favores que devemos fazer a alguns NPCs. As inspirações em Hollow Knight são bem aparentes. Seja no visual belíssimo desenhado a mão, nas melodias que casam com a atmosfera de cada cenário, em algumas de suas mecânicas ou em sua dificuldade. O jogo é desafiador, mas honesto quanto à superação dos obstáculos diversos que enfrentamos.
Quando morremos, por exemplo, temos a opção de continuar exatamente onde estávamos – nesse caso, os inimigos ficam temporariamente mais fortes; ou retornar para o último ponto de descanso, que são representados por pequenos Santuários espalhados pelo mapa, onde meditamos e podemos recuperar nossa saúde. Particularmente, só usava a opção de “Persistir” na área caso encontrasse um desafio de plataforma que pudesse me levar a algum item interessante. Até porque o mapa é contido, contando com cinco áreas apenas. Isso quer dizer que conseguimos chegar facilmente no local que falhamos anteriormente.
Aprimore as habilidades e explore os cenários

Existem habilidades permanentes que podemos descobrir através da exploração ou vencendo um chefe (Técnicas de Pintura) e outras, chamadas de Inspirações, que podem ser equipadas – desde que haja espaço disponível – tal qual os amuletos de Hollow Knight. As Inspirações só podem ser equipadas nos Santuários e apresentam formatos geométricos como as peças de Tetris ou um quebra-cabeça. Ataques e habilidades que fazem uso de tinta não podem ser usados a esmo. Há um limite, definido por um tipo de barra de estamina. Se usar toda a tinta dessa barra e insistir no ataque, Constance fica vulnerável e sofre dano.

A exploração do cenário se faz necessária não só para desbloquear novas habilidades, como para encontrar refis de tinta e corações que aprimoram o uso dessas mesmas habilidades e a saúde da personagem, respectivamente. Há uma funcionalidade maravilhosa que deu às caras em Prince of Persia: The Lost Crown e que foi replicada aqui: a possibilidade de fotografar o cenário. Ao invés de marcadores, a fotografia que tiramos marca, instantaneamente, algo que deixamos para trás no mapa por não ter a habilidade necessária para alcançá-lo.
As habilidades são bastante originais e destoam, positivamente, de mecânicas mais convencionais presentes em jogos do gênero, na medida que elas foram adaptadas para a temática abordada no título. Por outro lado, as lutas contra os chefes se apoiam demais na memorização do padrão de movimentos, havendo pouca variação no decorrer das batalhas.
De positivo, em relação a isso, posso apontar o fato de, dificilmente, ficarmos muito tempo presos numa batalha, como ocorre em Hollow Knight e Hollow Knight: Silksong, por exemplo. O mapeamento dos controles – por mais que dê para personalizar – eu achei confuso, principalmente em momentos que temos que usar várias habilidades diferentes em sequência, como em desafios de plataforma.
Impactante, sensível e competente
Constance é um Metroidvania que mescla, como poucos títulos de plataforma 2D, uma boa e reflexiva história a um ótimo gameplay. Apesar de não haver uma versão dedicada para o Nintendo Switch 2, a equipe de desenvolvimento incluiu a possibilidade de os donos dos consoles optarem por diferentes modos de renderização, que alteram a resolução e o framerate. Assim, é possível obter a melhor performance possível nos dois consoles.
A dificuldade casa com a própria proposta narrativa, na medida que é difícil — como os problemas que enfrentamos — mas não impossível de superar. Uma das primeiras mensagens que aparecem, antes ainda da tela título, é alertando para os gatilhos que os temas abordados podem gerar. As metáforas utilizadas possuem um peso gigante e o desfecho não apresenta uma solução mirabolante, mas sim responsável. É, ao mesmo tempo, impactante, sensível e competente.
Prós:
- Enredo impactante;
- Visuais lindíssimos;
- Jogabilidade ágil;
- Habilidades adaptadas à temática abordada;
- Dificuldade na medida certa.
Contras:
- Luta contra chefes não são marcantes;
- Controles, as vezes, confusos.
Nota
8,5
